Adoro os romances Dom Casmurro e, especialmente, Memórias póstumas de Brás Cubas. É muito bem feita a brincadeira de falar com o leitor imaginário e o jogo quase moderno da segunda obra é interessantíssimo, mas os contos...
Não que sejam ruins, mas falta algo. São contos cotidianos, geralmente, com alguns poucos casais, que não se casam, nunca, além de algumas anedotas que mais parecem piadas com fraquíssimo punch line.
Na coletânea que li, estão reunidos vinte e dois contos, dos quais poucos ficarão na memória, merecendo destaque Missa do galo (que eu já conhecia), Frei Simão, O enfermeiro e O caso da vara.
Quase se pode dizer que, na maioria dos contos, nada acontece, se tratando de um homem querendo conquistar uma mulher, que pode ou não corresponder, mas que tem sua relação interrompida. Isso acontece em Frei Simão, em Noite do almirante, em Mariana e em Maria Cora, tornando-se um tema bem repetitivo. Desses, o potencialmente mais interessante (pois é tediosamente longo) é Maria Cora, que conta a história de um homem que se apaixona por essa tal Maria Cora devido a uma casualidade, que é o fato de não ter dado corda em seu relógio. A fim desse amor, ele trava uma guerra, literalmente, mas o fim do conto revela um contratempo previsível, mas muitíssimo interessante, que leva a uma impossibilidade da união dos dois. Teria sido muito melhor se enxugadas algumas páginas. Frei Simão pega pela curiosidade das palavras finais do Frei: "Morro odiando a humanidade". Mariana é apenas enfadonho, com uma cena de delírio que muito se assemelha a um capítulo de Brás Cubas quando seu espírito vai encontrar o de Virgília. Noite do Almirante só é banal demais.
Alguns outros contos dessa coletânea cansam devido ao excesso de citações, que por vezes me tiraram da leitura para as notas de rodapé, abundantes e desfavoráveis à narrativa. É o caso dos contos Aurora sem dia, Conto Alexandrino e Um cão de lata ao rabo (esse último, aliás, é potencialmente muito bom, especialmente em sua primeira parte, mas se perde nas duas seguintes. Trata-se de um concurso de escrita cujo tema é "um cão de lata ao rabo". Assim, narram-se as histórias de três alunos, das quais, uma é excelente, outra é bacana e a última é chatíssima).
Enfim, poderia falar dos outros contos, e esse era meu plano, mas o tempo que levei lendo esse livro foi mais que suficiente gasto nele. Repito, não são contos tecnicamente ruins, mas agradarão mais os gostos de contos cotidianos, sem grandes reviravoltas ou explosões sentimentais, diferentemente do que se espera de um conto mais contemporâneo.