A história de desigualdade, de Pedro Ferreira de Souza, é uma história dos ricos. Faz sentido olhar para o topo: uma parte imensa da renda está lá. Por essa razão, flutuação na renda dos ricos tem um peso desproporcional na evolução da distribuição total. Quando a concentração é muito alta, os ricos conduzem a dança. Conduze, mas não ditam como deve ser o baile.
Este livro encaixa uma peça importante no quebra-cabeça da história econômica brasileira. Com ele, aprendemos sobre quem ganhou mais e quem ganhou menos em quase um século de desenvolvimento. Trata-se do resultado de um trabalho cauteloso, que envolveu uma coleta de dados atenta, selecionou as informações mais precisas e usou as melhores ferramentas, a fim de apresentar a série histórica mais longa e completa sobre a desigualdade no Brasil.
Gostaria de ver mais análises quantitativas das séries temporais que permitissem testar hipótesea e sair um pouco da narrativa histórica. Mas entendo a dificuldade de encontrar variáveis preditoras de qualidade para a série toda. De qualquer forma esse é um trabalho de fôlego que mudou nossa compreensão sobre a evolução (ou falta dela) da desigualdade no Brasil do século XX. Sem dúvida uma referência clássica sobre o estudo da riqueza no Brasil. Bom para acompanhar o livro recém lançado do Caldeira
Curioso ter lido este livro durante a pandemia do COVID-19, pois ela se pode caracterizar como um destes momentos que o autor enquadra naquilo que ele chama de "hipótese de Jencks-Piketty", onde grandes transformações só ocorrem com gandes choques. Infelizmente essa transformação deve envolver também vontade política e, ao mesmo tempo em que o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) não é regulamentado, passam várias MPs que fragilizam os trabalhadores, em nome de uma certa "flexibilidade" que, de acordo com a visão trazida no livro, servem mais para estimular o rentismo.
O livro foca na concentração no topo e apresenta um referencial teórico bastante interessante para disputar algumas crenças comuns entre nós, como aquela que diz que nossa desigualdade tem origem no modelo colonial aplicado aos países latinos. O estudo traz ainda diversas indicações de períodos de ruptura e seus impactos no aumento ou diminuição da desigualdade.
Dado o escopo do trabalho, não se fazem grandes considerações sobre as camadas inferiores da pirâmide, embora em sua conclusão o trabalho indique que o desafio de diminuir a desigualdade sem rupturas é enorme e inédito mas que isso não quer dizer que outras medidas de distribuição de renda podem sim trazer um impacto social bastante significativo.
Livro interessantíssimo sobre o tema central, com o enorme mérito de basear suas conclusões em análise de dados - que parecem desmentir parte do senso comum sobre desigualdade no Brasil e remontam teorias gerais sobre a distribuição.
Por ser adaptação de uma tese científica, dedica parte significativa do texto as fontes bibliográficas, exigindo um pouco de persistência do leitor.