Acho que é um dos melhores livros que já li na vida. Ele veio e foi embora de mim algumas vezes, a primeira vez que tive contato eu não tinha ainda maturidade para entendê-lo. É um livro sobre feminismo, sobre ser mulher, sobre submissão e rebeldia, sobre as nossas várias faces em contato com o espelho - como nos vemos, como nos veem.
A própria narrativa do livro é feita no feminino, de um modo poético revolucionário que vai muito além do mero objetivismo de sempre. É uma expressividade feminina, que acompanha os sentimentos de agonia em sua pontuação e em suas metáforas. Os ratos, para a ansiedade e o medo que vem só de nossa própria mente.
Há uma metaficção, a mulher escrita, a mulher que me escreve e a autora e todas se entrelaçam em suas facetas, dependem uma da outra pra existir, se julgam e se determinam em conjunto.
"A mulher que me escreve, ao brandir não às esporas, supõe haver descoberto o sentido da liberdade. Ela se acha tão presa quanto eu. Ser livre por necessidade de subverter é um padrão, é o mesmo que se escravizar. Ela é escrava da liberdade. Minha sumissão me liberta".
"Todo o meu nefasto fascínio sobre ela consiste em que eu sou o que ela não sabe que é. Imagem inflamada e dolorida que ela pretendeu ter extirpado. Ela me abomina porque eu lhe aponto o que riscou do intinerário.""
"Qual a mulher verdadeira? Qual a carne, qual o sangue? A que me olha do espelho, sorriso da outra margem? ou a do lado de cá, boa dona de casa, esposa e mae exemplar, discretamente vestida, num vestígio de pintura? Onde é que está a máscara? No rosto lavado ou no rosto pesado de cores falsas?".
"Desde pequena, sempre gostei muito de ler. Os meus poetas. Meus romancistas. O meu espaço aberto de liberdade e fantasia. O meu prazo de franquia e dispensa. Quando leio, corto as corrreias da sujeição e escapo acima de muitos limites. outrosmundos que cristalizo, os fantasmas que conquisto. Crio margens para o meu resgate, atenuo arestas e gritos. Quando leio, leio".
Há a questão racial, colocada na ama, no menino preto filho da cozinheira, nas festas que ela passa a frequentar depois que muda. A mulher que me escreve tem o papel de ponderar, se és muito submissa, te quero rebelde, se és muito rebelde, se segure um pouco, os papéis se invertem, uma face levando a outra ao limite numa complexidade infinita.
Pai, amantes, irmãos, filhos, figuras masculinas de poder e opressão. Pessoas para as quais ela e tantas mulheres dedicam as vidas em vão. É um livro triste, mas verdadeiro, forte, mas profundo, que encarna reflexões feministas e do feminino essenciais.