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Μέρλιν
Ο περιλάλητος μάγος και σύμβουλος του μυθικού βασιλιά Αρθούρου, έχοντας κλείσει πια τα εκατό του, κάνει έναν απολογισμό της ζωής του και επαναθέτει και επανεξετάζει για μια ακόμα φορά τα μέγιστα ερωτήματα που βασανίζουν την ανθρωπότητα.
Η ζωή, ο θάνατος, ο έρωτας, το πάθος, η μοναξιά, η απελπισία, το μίσος, η απληστία και η δίψα για δύναμη θεωρημένα από έναν άνθρωπο που έχει φτάσει στο απόγειο της σοφίας του και στο τέλος των ημερών του αποκτούν έτσι μια άλλη διάσταση και ανοίγουν κάποια μονοπάτια που αν δεν οδηγούν στην τελική λύτρωση, κάνουν τουλάχιστο πιο υποφερτή την επίπονη οδοιπορία που λέγεται ζωή.
Ο Μέρλιν έχοντας γνωρίσει τα πάντα είναι πια σε θέση να μας διδάξει την ειρήνη.
Η ζωή, ο θάνατος, ο έρωτας, το πάθος, η μοναξιά, η απελπισία, το μίσος, η απληστία και η δίψα για δύναμη θεωρημένα από έναν άνθρωπο που έχει φτάσει στο απόγειο της σοφίας του και στο τέλος των ημερών του αποκτούν έτσι μια άλλη διάσταση και ανοίγουν κάποια μονοπάτια που αν δεν οδηγούν στην τελική λύτρωση, κάνουν τουλάχιστο πιο υποφερτή την επίπονη οδοιπορία που λέγεται ζωή.
Ο Μέρλιν έχοντας γνωρίσει τα πάντα είναι πια σε θέση να μας διδάξει την ειρήνη.
160 pages, Paperback
First published January 1, 1989
About the author
Michel Rio
48 books8 followersMichel Rio is a french writer born in Brittany and who spent his childhood in Madagascar. He lives in Paris.
He studied semiology and published his first novel in 1972.
With more than twenty novels published, is body of work spans genres such as crime fiction, theater, essays, and short stories. His absolutely literary work, translated from the start in the United States, is now published in more than twenty languages.
Michel Rio has won several prizes (Prix du Roman and Grand Prix du Roman by the Société des Gens de Lettres, Prix des Créateurs, Premier Prix du C.E. Renault, Prix Médicis).
He studied semiology and published his first novel in 1972.
With more than twenty novels published, is body of work spans genres such as crime fiction, theater, essays, and short stories. His absolutely literary work, translated from the start in the United States, is now published in more than twenty languages.
Michel Rio has won several prizes (Prix du Roman and Grand Prix du Roman by the Société des Gens de Lettres, Prix des Créateurs, Premier Prix du C.E. Renault, Prix Médicis).
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September 4, 2026Trilogia de Camelot #1
MERLIM
França, séc. XIII (via Wikimedia)
O semblante dos guerreiros caídos no paroxismo do ódio e da dor eram horrendos de se ver, máscaras grotescas esculpidas a golpe de lâmina pela brusquidão da morte. Era como que a face expressiva e múltipla do caos emergindo aqui e além de um mar de carcaças talhadas por feridas horríveis, abolindo tudo o que Braz me tinha dito sobre o homem, a sua inteligência e as suas descobertas, a dignidade do seu espírito, a nobreza dos seus sentimentos, as suas capacidades de justiça e de amor. Estava gelado até aos ossos. Estremecia. O meu avô pousou no meu ombro uma mão enorme e suave.
«Tens que te habituar, Merlim. Tudo o que há é guerra.[...]o poder exige ferocidade. Tudo o que vive está para sempre em guerra.»
Merlim abre a trilogia que ocupou 12 anos de Michel Rio, e que se inicia com o agora centenário conselheiro do rei a percorrer um mundo que já não reconhece. Camelot e a Távola Redonda são passado, mas é exatamente nas suas ruínas que a narrativa começa:
Assim, tudo o que aqui apercebo dos vestígios do homem, tão longe quanto a vista pode alcançar, está a ruir e a desaparecer.
Carpindo um mundo que desabou sobre si mesmo, Merlim reflete nas consequências do poder e da tentativa de dar uma forma permanente a uma ideia política. A Távola deveria representar a lei, o sentido do mundo, uma idade de ouro (sempre com muitas aspas) — mas o poder precisa de uma narrativa que o transcenda e que lhe sobreviva. E uma ideia assim exige que os indivíduos se submetam a ela.
Para conseguir essa alquimia, Merlim não terá problema algum em manipular vidas inocentes em nome de um destino que nunca está verdadeiramente selado: é esse o preço de criar uma religião.
A guerra ainda mal começou. Mas já não é a guerra de uma ambição contra outra. É a guerra do direito contra a força, da luz contra a escuridão, do espírito contra a natureza, de Satã contra a ignorância e de Deus contra a sua própria criação. Sois instrumentos de morte, eu farei de vós instrumentos de eternidade. Sois a noite, sereis um interminável dia. Sois o tumulto, sereis a lei. Sois o vazio, sereis o sentido do mundo e a sua consciência. Sois a idade do ferro, ides preparar o advento de uma idade de ouro que, a meu ver, nunca houve mas que por vós poderá haver. Sereis tudo isso porque, a partir de agora, sois a Távola Redonda.
Morgana e Artur são as peças fundamentais deste construto sacro, mas o que fazer quando uma das peças se recusa a assentar na engrenagem?
— O fim de uma vida não é o fim dos tempos, Morgana, e a morte de um homem não é a morte do homem.
— Que me importa a mim que o homem dure? disse ela, colérica. O que conta sou eu, e não o homem. Detesto-o. É um escravo que se resigna com a sua sorte, aceitando, para se confortar, todos os disparates sobre a eternidade que lhe servem os iluminados e os charlatães. Essas balelas de depois da morte, com um paraíso ou um inferno no céu, debaixo da terra e não sei mais onde, e deuses grotescos ou vãos como os dos gregos ou dos Egípcios, crueis como os dos Fenícios ou dos Cartagineses, ausentes como o dos judeus ou então loucos como o dos cristãos. Uma porção de deuses que só revelam a estupidez, a loucura ou a perversidade dos seus inventores. Crês tu que eu, Morgana, me satisfaço com ser continuada por esse homem, cuja única constante é a estupidez? O fim de um ser é talvez para ele próprio o fim de todas as coisas e a morte não pode ser esses contos ridículos, mas o medo, o frio e a noite.
Mais do que isso, Morgana não apenas quer ganhar o jogo de Artur e Merlim. Ela põe em causa o próprio jogo e questiona a legitimidade da religião, a permanência do mito, a ideia de destino, a autoridade da força — mas, sobretudo, a necessidade de aceitar como inevitável aquilo que foi construído para si por outros:
— De que tens medo, Morganinha? De que a fogueira possa ter mais importância que os seres que a ela se vão aquecer?
— Sim, Merlim. Porque se a fogueira dura e os seres passam e morrem, é porque a fogueira dura sem razão e esta finalidade dada pelo homem a todas as coisas em atenção à sua mesquinha e fugidia existência não é nada, um mero logro. E o próprio homem, como tudo o que vive, não passa de uma sombra passageira que a matéria quente projecta sobre a matéria fria assim fecundada para parir uma ilusão.
MORGANA
Morgan Le Fay, de Anthony Frederick Sandys, séc. XIX (via Wikimedia)
A Morgana de Michel Rio não é a proverbial bruxa que interfere no destino dos grandes homens apenas porque sim. Nesta trilogia, a sua educação explica em boa parte a sua rebelião:
Já tive dois filhos e dois alunos, os melhores que um pai e um mestre possam desejar. A um ensinei a natureza dos seres, isto é, o poder e o dever, porque o seu destino era dominar o mundo. Ao outro ensinei a natureza das coisas, isto é, o verdadeiro saber, porque o amava.
Nos grandes planos de Merlim, Morgana é um mal menor: uma inteligência que pode ser tolerada enquanto permanecer subordinada ao projeto. Até porque Merlim acredita no conhecimento, mas acaba por privilegiar politicamente o poder. A Morgana fica, pois, destinada uma posição menor num mundo organizado pela força.
Mas é precisamente dessa posição que Morgana começa a questionar o próprio sistema que a determinou. Tu próprio, nem mesmo tu poderás estancar a minha sede de aprender, dirá, ao mestre, a dada altura. Morgana é o resultado lógico de Merlim, a sua herdeira intelectual, precisamente porque é aquela que percebe o erro do seu projecto. Merlim, afinal, não espera que ela leve o conhecimento às últimas consequências (sobretudo contra o próprio mestre), mas é isso mesmo que a aprendiz faz, tornando-se, por isso, a sua maior crítica.
A meu ver, do ensinamento que prodigalizarei a ti e a Artur, tu terás a melhor parte, porque a glória última do homem, a única com valor, não é vencer, dominar ou possuir, nem sequer fazer justiça, mas saber. Se o universo tem uma finalidade, pela minha parte só lhe vejo uma: a inteligência.
Morgana deve encaixar na engrenagem do mito e aceitar que a tentativa de usurpar o poder é, para as mulheres, uma fatalidade destinada ao fracasso. Em vez disso, escolhe renegar o mito e a religião em favor da filosofia. Se cumprir o destino que lhe está imposto, fá-lo-á com plena consciência e de livre vontade. Para Morgana, conhecer a lei das coisas é já uma forma de liberdade:
A única liberdade do ser submetido à lei das coisas é a verdade, o conhecimento da lei, a inteligência. Não a crença, nem a religião, nem a mística.
[...]A fé é como a força: uma outra fé pode derrubá-la e substituí-la, porque tal como a força assenta no arbitrário. Mas a razão durará tanto quanto a consciência. Pode tentar-se abafá-la, e mesmo aparentar consegui-lo, mas ela não morre.
Talvez isso explique por que razão o governo de Morgana se torna exemplar, enquanto o governo de Artur degenera na insídia.
Logres invencível e uma Távola Redonda tornada em mito incarnavam numa trindade quase divina: Artur, Mordred e Lancelote. Três gerações representando o melhor do homem. No entanto, no cimento virtuoso que aglutinava esta trindade, entravam alguns ingredientes corrosivos até então neutralizados pela acção e pela guerra, por essa obscura generosidade da violência alimentada pelo facto de arriscarem a vida ao lado do outro e pelo outro. Esses ingredientes eram o incesto, o adultério e a mentira.
O mote de Merlim para a Távola assenta numa distinção: a verdade do saber é justeza, a verdade do poder é justiça, mas é Morgana e não Artur quem primeiro aprende essa lição. Morgana compreende que a legitimidade do poder não produz automaticamente a verdade, enquanto Artur começa a confundir a legitimidade da ordem política com a sua verdade: o grande projeto de Merlim fará de Artur um utopista e de Morgana uma realista. Um acredita naquilo que o outro aprendeu a questionar.
Amo apenas dois seres, Merlim e Artur, meu pai e meu irmão. Um rejeitou-me, apesar de amar-me. Eu rejeitei o outro, apesar de amá-lo. Estamos indissoluvelmente ligados por esta paixão da alma e dos sentidos em estado de amor e do espírito em estado de guerra.
ARTUR
"A morte de Arthur e Mordred", de N. C. Wyeth, séc. XX (via Wikimedia)
É talvez aqui que o projecto de Merlim começa verdadeiramente a falhar: Artur não recebe simplesmente uma ideia política; Artur acredita nela.
Tinha uma reputação de invencibilidade. Entrava então no seu trigésimo ano. Continuava com a mesma beleza no rosto, se bem que os seus traços se tivessem endurecido um pouco sob o efeito das pressões e de uma secreta tristeza. Havia perdido aquela graça juvenil que tinha no início do seu reinado e agora os seus movimentos, mais pesados e mais calmos, davam uma impressão de força imensa e domada. A sua fisionomia exprimia um misto de autoridade e de melancolia. Era bom e cortês para com os humildes, distante com os nobres. O povo idolatrava-o, os grandes temiam-no, todos o amavam. Era já uma lenda.
Artur já não é apenas o governante: é a personificação daquilo que governa. E a lenda, encarnada no homem, dispensa argumentos. Artur já não responde com política, mas com fé:
— Ouvi o teu discurso que iniciou a segunda Távola Redonda, e, comparando-o em parte ao de Merlim à primeira Távola de Carduel, achei que tu também eras bastante mau aluno.
— Em quê?
— O discurso de Merlim assentava na lei, o teu na fé. A sua palavra era política, a tua mística. Ela falou como um filósofo, tu como um crente. Ele partiu do poder que é o da força, e essa consciência do real proporcionou-lhe a única via de acesso a um poder que pode ser o do direito. Tu partiste do nada, do vazio, do que há de mais vão no pensamento e nas palavras: quer seja superstição, se acreditas no que disseste, quer seja figura de estilo, se não acreditas. Foste eloquente, mas qualquer efeito de retórica é passageiro, e o teu mundo pareceu-me tão falso, tão frágil, tão volúvel, que até era divertido. Aconselho ao filósofo que há em ti que peça auxílio ao rei e ao guerreiro: nada como o ceptro e o gládio para consolidar uma ideia ôca.
No fim, a decadência da Távola parece inscrita no próprio projeto megalómano de Merlim. No fundo, Michel Rio aponta o dedo não a Merlim — o conselheiro, o arquitecto, o mago, o filho do diabo —, mas aos vários estrategas que fizeram, fazem e continuarão a fazer da vida dos outros matéria de projeto e instrumento de uma ideia: jogar o jogo do poder é arriscado. Tanto mais que, se a Távola, que no auge do prestígio em todo o Ocidente, parecia indestrutível, acabou desfeita, tão mais fácil é perder uma nação moderna. Nesta trilogia, o mito da Távola e de Artur funciona como uma alegoria do perigo de transformar uma ideia política num ideal colectivo — numa luta pela abstracção.
Não é apenas Quixote que luta contra moinhos de vento: a ideia de uma Albion (ou troque-se esta toponímia por qualquer outra) reunida sob o jugo de um grupo de homens fortes, assegurada pela guerra mas fundamentada por uma justiça divina não é uma ideia tão peregrina assim nos nossos dias.
Se ela deve ter lugar fora do reino da lenda, é a pergunta a fazer.
Apenas Merlim compreendeu que a sabedoria, para se ser sábio, deve tingir-se de um pouco de loucura, sob pena de não deixar de ser louca.
Trilogia de Camelot #2
Morgana
Trilogia de Camelot #3
Artur
MERLIM
França, séc. XIII (via Wikimedia)
O semblante dos guerreiros caídos no paroxismo do ódio e da dor eram horrendos de se ver, máscaras grotescas esculpidas a golpe de lâmina pela brusquidão da morte. Era como que a face expressiva e múltipla do caos emergindo aqui e além de um mar de carcaças talhadas por feridas horríveis, abolindo tudo o que Braz me tinha dito sobre o homem, a sua inteligência e as suas descobertas, a dignidade do seu espírito, a nobreza dos seus sentimentos, as suas capacidades de justiça e de amor. Estava gelado até aos ossos. Estremecia. O meu avô pousou no meu ombro uma mão enorme e suave.
«Tens que te habituar, Merlim. Tudo o que há é guerra.[...]o poder exige ferocidade. Tudo o que vive está para sempre em guerra.»
Merlim abre a trilogia que ocupou 12 anos de Michel Rio, e que se inicia com o agora centenário conselheiro do rei a percorrer um mundo que já não reconhece. Camelot e a Távola Redonda são passado, mas é exatamente nas suas ruínas que a narrativa começa:
Assim, tudo o que aqui apercebo dos vestígios do homem, tão longe quanto a vista pode alcançar, está a ruir e a desaparecer.
Carpindo um mundo que desabou sobre si mesmo, Merlim reflete nas consequências do poder e da tentativa de dar uma forma permanente a uma ideia política. A Távola deveria representar a lei, o sentido do mundo, uma idade de ouro (sempre com muitas aspas) — mas o poder precisa de uma narrativa que o transcenda e que lhe sobreviva. E uma ideia assim exige que os indivíduos se submetam a ela.
Para conseguir essa alquimia, Merlim não terá problema algum em manipular vidas inocentes em nome de um destino que nunca está verdadeiramente selado: é esse o preço de criar uma religião.
A guerra ainda mal começou. Mas já não é a guerra de uma ambição contra outra. É a guerra do direito contra a força, da luz contra a escuridão, do espírito contra a natureza, de Satã contra a ignorância e de Deus contra a sua própria criação. Sois instrumentos de morte, eu farei de vós instrumentos de eternidade. Sois a noite, sereis um interminável dia. Sois o tumulto, sereis a lei. Sois o vazio, sereis o sentido do mundo e a sua consciência. Sois a idade do ferro, ides preparar o advento de uma idade de ouro que, a meu ver, nunca houve mas que por vós poderá haver. Sereis tudo isso porque, a partir de agora, sois a Távola Redonda.
Morgana e Artur são as peças fundamentais deste construto sacro, mas o que fazer quando uma das peças se recusa a assentar na engrenagem?
— O fim de uma vida não é o fim dos tempos, Morgana, e a morte de um homem não é a morte do homem.
— Que me importa a mim que o homem dure? disse ela, colérica. O que conta sou eu, e não o homem. Detesto-o. É um escravo que se resigna com a sua sorte, aceitando, para se confortar, todos os disparates sobre a eternidade que lhe servem os iluminados e os charlatães. Essas balelas de depois da morte, com um paraíso ou um inferno no céu, debaixo da terra e não sei mais onde, e deuses grotescos ou vãos como os dos gregos ou dos Egípcios, crueis como os dos Fenícios ou dos Cartagineses, ausentes como o dos judeus ou então loucos como o dos cristãos. Uma porção de deuses que só revelam a estupidez, a loucura ou a perversidade dos seus inventores. Crês tu que eu, Morgana, me satisfaço com ser continuada por esse homem, cuja única constante é a estupidez? O fim de um ser é talvez para ele próprio o fim de todas as coisas e a morte não pode ser esses contos ridículos, mas o medo, o frio e a noite.
Mais do que isso, Morgana não apenas quer ganhar o jogo de Artur e Merlim. Ela põe em causa o próprio jogo e questiona a legitimidade da religião, a permanência do mito, a ideia de destino, a autoridade da força — mas, sobretudo, a necessidade de aceitar como inevitável aquilo que foi construído para si por outros:
— De que tens medo, Morganinha? De que a fogueira possa ter mais importância que os seres que a ela se vão aquecer?
— Sim, Merlim. Porque se a fogueira dura e os seres passam e morrem, é porque a fogueira dura sem razão e esta finalidade dada pelo homem a todas as coisas em atenção à sua mesquinha e fugidia existência não é nada, um mero logro. E o próprio homem, como tudo o que vive, não passa de uma sombra passageira que a matéria quente projecta sobre a matéria fria assim fecundada para parir uma ilusão.
MORGANA
Morgan Le Fay, de Anthony Frederick Sandys, séc. XIX (via Wikimedia)
A Morgana de Michel Rio não é a proverbial bruxa que interfere no destino dos grandes homens apenas porque sim. Nesta trilogia, a sua educação explica em boa parte a sua rebelião:
Já tive dois filhos e dois alunos, os melhores que um pai e um mestre possam desejar. A um ensinei a natureza dos seres, isto é, o poder e o dever, porque o seu destino era dominar o mundo. Ao outro ensinei a natureza das coisas, isto é, o verdadeiro saber, porque o amava.
Nos grandes planos de Merlim, Morgana é um mal menor: uma inteligência que pode ser tolerada enquanto permanecer subordinada ao projeto. Até porque Merlim acredita no conhecimento, mas acaba por privilegiar politicamente o poder. A Morgana fica, pois, destinada uma posição menor num mundo organizado pela força.
Mas é precisamente dessa posição que Morgana começa a questionar o próprio sistema que a determinou. Tu próprio, nem mesmo tu poderás estancar a minha sede de aprender, dirá, ao mestre, a dada altura. Morgana é o resultado lógico de Merlim, a sua herdeira intelectual, precisamente porque é aquela que percebe o erro do seu projecto. Merlim, afinal, não espera que ela leve o conhecimento às últimas consequências (sobretudo contra o próprio mestre), mas é isso mesmo que a aprendiz faz, tornando-se, por isso, a sua maior crítica.
A meu ver, do ensinamento que prodigalizarei a ti e a Artur, tu terás a melhor parte, porque a glória última do homem, a única com valor, não é vencer, dominar ou possuir, nem sequer fazer justiça, mas saber. Se o universo tem uma finalidade, pela minha parte só lhe vejo uma: a inteligência.
Morgana deve encaixar na engrenagem do mito e aceitar que a tentativa de usurpar o poder é, para as mulheres, uma fatalidade destinada ao fracasso. Em vez disso, escolhe renegar o mito e a religião em favor da filosofia. Se cumprir o destino que lhe está imposto, fá-lo-á com plena consciência e de livre vontade. Para Morgana, conhecer a lei das coisas é já uma forma de liberdade:
A única liberdade do ser submetido à lei das coisas é a verdade, o conhecimento da lei, a inteligência. Não a crença, nem a religião, nem a mística.
[...]A fé é como a força: uma outra fé pode derrubá-la e substituí-la, porque tal como a força assenta no arbitrário. Mas a razão durará tanto quanto a consciência. Pode tentar-se abafá-la, e mesmo aparentar consegui-lo, mas ela não morre.
Talvez isso explique por que razão o governo de Morgana se torna exemplar, enquanto o governo de Artur degenera na insídia.
Logres invencível e uma Távola Redonda tornada em mito incarnavam numa trindade quase divina: Artur, Mordred e Lancelote. Três gerações representando o melhor do homem. No entanto, no cimento virtuoso que aglutinava esta trindade, entravam alguns ingredientes corrosivos até então neutralizados pela acção e pela guerra, por essa obscura generosidade da violência alimentada pelo facto de arriscarem a vida ao lado do outro e pelo outro. Esses ingredientes eram o incesto, o adultério e a mentira.
O mote de Merlim para a Távola assenta numa distinção: a verdade do saber é justeza, a verdade do poder é justiça, mas é Morgana e não Artur quem primeiro aprende essa lição. Morgana compreende que a legitimidade do poder não produz automaticamente a verdade, enquanto Artur começa a confundir a legitimidade da ordem política com a sua verdade: o grande projeto de Merlim fará de Artur um utopista e de Morgana uma realista. Um acredita naquilo que o outro aprendeu a questionar.
Amo apenas dois seres, Merlim e Artur, meu pai e meu irmão. Um rejeitou-me, apesar de amar-me. Eu rejeitei o outro, apesar de amá-lo. Estamos indissoluvelmente ligados por esta paixão da alma e dos sentidos em estado de amor e do espírito em estado de guerra.
ARTUR
"A morte de Arthur e Mordred", de N. C. Wyeth, séc. XX (via Wikimedia)
É talvez aqui que o projecto de Merlim começa verdadeiramente a falhar: Artur não recebe simplesmente uma ideia política; Artur acredita nela.
Tinha uma reputação de invencibilidade. Entrava então no seu trigésimo ano. Continuava com a mesma beleza no rosto, se bem que os seus traços se tivessem endurecido um pouco sob o efeito das pressões e de uma secreta tristeza. Havia perdido aquela graça juvenil que tinha no início do seu reinado e agora os seus movimentos, mais pesados e mais calmos, davam uma impressão de força imensa e domada. A sua fisionomia exprimia um misto de autoridade e de melancolia. Era bom e cortês para com os humildes, distante com os nobres. O povo idolatrava-o, os grandes temiam-no, todos o amavam. Era já uma lenda.
Artur já não é apenas o governante: é a personificação daquilo que governa. E a lenda, encarnada no homem, dispensa argumentos. Artur já não responde com política, mas com fé:
— Ouvi o teu discurso que iniciou a segunda Távola Redonda, e, comparando-o em parte ao de Merlim à primeira Távola de Carduel, achei que tu também eras bastante mau aluno.
— Em quê?
— O discurso de Merlim assentava na lei, o teu na fé. A sua palavra era política, a tua mística. Ela falou como um filósofo, tu como um crente. Ele partiu do poder que é o da força, e essa consciência do real proporcionou-lhe a única via de acesso a um poder que pode ser o do direito. Tu partiste do nada, do vazio, do que há de mais vão no pensamento e nas palavras: quer seja superstição, se acreditas no que disseste, quer seja figura de estilo, se não acreditas. Foste eloquente, mas qualquer efeito de retórica é passageiro, e o teu mundo pareceu-me tão falso, tão frágil, tão volúvel, que até era divertido. Aconselho ao filósofo que há em ti que peça auxílio ao rei e ao guerreiro: nada como o ceptro e o gládio para consolidar uma ideia ôca.
No fim, a decadência da Távola parece inscrita no próprio projeto megalómano de Merlim. No fundo, Michel Rio aponta o dedo não a Merlim — o conselheiro, o arquitecto, o mago, o filho do diabo —, mas aos vários estrategas que fizeram, fazem e continuarão a fazer da vida dos outros matéria de projeto e instrumento de uma ideia: jogar o jogo do poder é arriscado. Tanto mais que, se a Távola, que no auge do prestígio em todo o Ocidente, parecia indestrutível, acabou desfeita, tão mais fácil é perder uma nação moderna. Nesta trilogia, o mito da Távola e de Artur funciona como uma alegoria do perigo de transformar uma ideia política num ideal colectivo — numa luta pela abstracção.
Não é apenas Quixote que luta contra moinhos de vento: a ideia de uma Albion (ou troque-se esta toponímia por qualquer outra) reunida sob o jugo de um grupo de homens fortes, assegurada pela guerra mas fundamentada por uma justiça divina não é uma ideia tão peregrina assim nos nossos dias.
Se ela deve ter lugar fora do reino da lenda, é a pergunta a fazer.
Apenas Merlim compreendeu que a sabedoria, para se ser sábio, deve tingir-se de um pouco de loucura, sob pena de não deixar de ser louca.
Trilogia de Camelot #2
Morgana
Trilogia de Camelot #3
Artur
Did Not Finish
April 1, 2018Merlin, who knew the range of all their arts,
Had built the King his havens, ships and halls,
Was also Bard, and he knew the starry Heavens;
The people called him wizard.
-Tennyson
One hundred years old, and his eyes had seen a lot in the lands of Great Britain and beyond. From birth to exile, and probably disappearance,....
Through his eyes we revisit Avalon, the Round Table, Camelot, and many characters he educated, created, nurtured, loved or hated or simply made exit the life stage.
His vision. Magical, wise vision.
I am reading it for the second time. I feel myself being catapulted to another time and place, by a 5th century narrative, cruel for the most part, tender at times. Epic, always.
Had built the King his havens, ships and halls,
Was also Bard, and he knew the starry Heavens;
The people called him wizard.
-Tennyson
One hundred years old, and his eyes had seen a lot in the lands of Great Britain and beyond. From birth to exile, and probably disappearance,....
Through his eyes we revisit Avalon, the Round Table, Camelot, and many characters he educated, created, nurtured, loved or hated or simply made exit the life stage.
His vision. Magical, wise vision.
I am reading it for the second time. I feel myself being catapulted to another time and place, by a 5th century narrative, cruel for the most part, tender at times. Epic, always.
April 12, 2022
Je comprends pas l'auteur. Pourquoi avoir dénaturé comme ça l'histoire de Merlin? Avoir retiré tous les éléments magiques? J'ai trouvé ça tellement inintéressant. D'autant plus que tout ce qui se passait n'allait pas au bout des choses et que l'auteur passait du coq à l'âne..
Je suis très dégoûtée pcq en vrai le livre aurait pu être très chouette à lire.
Je suis très dégoûtée pcq en vrai le livre aurait pu être très chouette à lire.
Read
November 5, 2020<< Così ho capito perché l'uomo, dalla notte dei tempi, vive più di leggenda che di storia, e perché nel suo spirito la poesia conta più del potere: perché la leggenda, instancabile, costruisce un'eternità che la storia, implacabile, si sforza di dimostrare falsa. >>
January 5, 2022
STUPENDO!! come iniziare al meglio questo 2022 con la scoperta di questo autore ( di cui non conoscevo l’esistenza).
Scrittura magistrale, ti cattura tantissimo e in neanche 150 pagine riesce a catturare tutta la leggenda di Merlino e di tutti i fatti e personaggi attorno a lui. Se stai cercando una lettura per iniziare ad entrare nella leggenda di Re Artù e della Tavola Rotonda, ti consiglio di iniziare proprio da questo.
Recupererò anche l’altro volume, tutto incentrato sulla figura di Morgana.
Magistrale
Scrittura magistrale, ti cattura tantissimo e in neanche 150 pagine riesce a catturare tutta la leggenda di Merlino e di tutti i fatti e personaggi attorno a lui. Se stai cercando una lettura per iniziare ad entrare nella leggenda di Re Artù e della Tavola Rotonda, ti consiglio di iniziare proprio da questo.
Recupererò anche l’altro volume, tutto incentrato sulla figura di Morgana.
Magistrale
January 22, 2018
Et le croisement de ces mains de vieillards fortes et usées était comme le signe d'un ancien pacte renouvelé trop tard, à présent sans autre objet qu'un rêve à l'agonie. Un pacte d'amour gratuit cerné par le néant.
Très belle interprétation du mythe arthurien. La vision de Michel Rio est sombre, cruelle, torturée et fascinante tout comme son style. Un texte qui me restera en tête un moment assurément!
Très belle interprétation du mythe arthurien. La vision de Michel Rio est sombre, cruelle, torturée et fascinante tout comme son style. Un texte qui me restera en tête un moment assurément!
January 15, 2018
Libro ambientado en el contexto del ciclo artúrico pero muy alejado de los estereotipos de la fantasía medieval.
Es una novela breve en la que, en un tono intimista y muy bello, el mago Merlín reflexiona sobre su poder y sobre las decisiones tomadas a lo largo de su vida.
Es una novela breve en la que, en un tono intimista y muy bello, el mago Merlín reflexiona sobre su poder y sobre las decisiones tomadas a lo largo de su vida.
July 30, 2023
Un modo molto personale di narrare la leggenda arturiana, focalizzato più sul ragionamento e sulla filosofia che sui personaggi stessi.
Forse un po' pretenzioso, ma l'ho trovato un esperimento letterario interessante.
Forse un po' pretenzioso, ma l'ho trovato un esperimento letterario interessante.
December 30, 2022
Récit froid, distant, perçant et répercutant, comme si l'histoire avait vraiment existée. Superbe point de vue sur une incroyable légende.
December 27, 2025
Belíssimo.
January 4, 2014
Merlim é o primeiro livro de uma trilogia assinada por Michel Rio. Os volumes seguintes são Morgana e Artur.
Como o nome indica é mais uma visita ao reino de Camelot e à vida destas personagens intemporais.
Em Merlim conhecemos mais um pouco a vida do mago que povoa a imaginação de tantos. Mas na realidade, a magia deste livro existe apenas numa mente inteligente e superior que percebe as rodas que mexem o mundo.
Criado para ser rei, Merlim é educado para ser guerreiro e líder. Mas cedo a sua inteligência e perspicácia deixam antever um estratega e um sábio. Cedendo a coroa a Uter, Merlim passa a conselheiro do rei e cria o que será Camelot e a távola redonda. Após o casamento de Uter leva o filho deste, Artur, para ser criado longe dos laços familiares e para que obtenha uma educação como a de dele próprio: de guerreiro e rei.
É Merlim que, também, toma para si a educação de Morgana, meia-irmã de Artur, que o surpreende com uma mente tão parecida com a sua.
É estranho para alguém que lê apaixonadamente as Brumas de Avalon, ler um Merlim que fala em Deus e Satã. Que fala de religiões antigas sem lhe pertencer e que não possui magia alguma. A Avalon de Michel Rio é apenas uma ilha esquecida no tempo e no espaço que servirá de prisão a Morgana. Não existem sacerdotisas nem Excalibur.
Não era a leitura que estava à espera, confesso. No entanto, não deixa de ser uma leitura interessante. É a visão do mundo de um homem sábio que sabe como mexe o mundo, como o fazer rodar e que a vida não é linear.
Os próximos títulos da trilogia estão já em lista de espera.
Como o nome indica é mais uma visita ao reino de Camelot e à vida destas personagens intemporais.
Em Merlim conhecemos mais um pouco a vida do mago que povoa a imaginação de tantos. Mas na realidade, a magia deste livro existe apenas numa mente inteligente e superior que percebe as rodas que mexem o mundo.
Criado para ser rei, Merlim é educado para ser guerreiro e líder. Mas cedo a sua inteligência e perspicácia deixam antever um estratega e um sábio. Cedendo a coroa a Uter, Merlim passa a conselheiro do rei e cria o que será Camelot e a távola redonda. Após o casamento de Uter leva o filho deste, Artur, para ser criado longe dos laços familiares e para que obtenha uma educação como a de dele próprio: de guerreiro e rei.
É Merlim que, também, toma para si a educação de Morgana, meia-irmã de Artur, que o surpreende com uma mente tão parecida com a sua.
É estranho para alguém que lê apaixonadamente as Brumas de Avalon, ler um Merlim que fala em Deus e Satã. Que fala de religiões antigas sem lhe pertencer e que não possui magia alguma. A Avalon de Michel Rio é apenas uma ilha esquecida no tempo e no espaço que servirá de prisão a Morgana. Não existem sacerdotisas nem Excalibur.
Não era a leitura que estava à espera, confesso. No entanto, não deixa de ser uma leitura interessante. É a visão do mundo de um homem sábio que sabe como mexe o mundo, como o fazer rodar e que a vida não é linear.
Os próximos títulos da trilogia estão já em lista de espera.
January 22, 2011
Sublime! Je suis encore soufflée par le style de Rio. Sa vision du mythe arthurien est tragique, cruelle, passionnée, bouleversante. Je l'ai préféré à "L'Enchanteur" de Barjavel (plus moderne et moins "cliché").
April 25, 2014
Letto in una sola notte insieme a Morgana parecchi anni fa.
Un bel ricordo, ero rimasta piacevolmente sorpresa
Un bel ricordo, ero rimasta piacevolmente sorpresa
September 18, 2024
Rilettura fatta forse al momento sbagliato? Me lo ricordavo diverso
Recensione completa: https://www.instagram.com/p/DAGJKLTo4...
Recensione completa: https://www.instagram.com/p/DAGJKLTo4...
January 11, 2013
Amazing book.
December 15, 2017
Ci ho messo un po' a entrare nella struttura di questo libro. Per una storia che si svolge sull'arco di un secolo è estremamente breve, e infatti il racconto non è ben articolato: ogni capitolo è un singolo scorcio su una fase molto breve, seppure ovviamente molto importante, della storia. Ne segue che chi non ha quanto meno un minimo di familiarità con il ciclo bretone (e chi non ce l'ha???) si troverà decisamente spaesato: persino ai personaggi più importanti sono dedicate poche mezze pagine, descrizioni suggestive ma velocissime. Ciononostante, la prospettiva finale è estremamente suggestiva: una maggiore lunghezza non avrebbe dato lo stesso colpo d'occhio, quasi un affresco della "leggenda forse più bella, certo la più confusa e frammentaria mai esistita", per dirla con le parole dell'autore. Che pur avendo forse un po' esagerato con la sintesi, è comunque riuscito a inserire nella scrittura spunti estremamente suggestivi. Ad esempio: «Studiavo la vita delle piante e le loro virtù benefiche e malefiche, non di rado divergenti per una semplice questione di misura. Una scoperta che poteva risolvere sul piano materiale il banale dissidio tra religiosi e filosofi: gli uni convinti che il bene e il male fossero due principi antitetici, gli altri propensi a scorgervi uno stesso principio, ambivalente in rapporto alle proporzioni». Ma non fidatevi di me, altri sono rimasti scottati dopo essere stati intrigati da un brano estratto da un libro da me proposto :-)
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