Habitualmente imaginamos a Revolução Francesa como uma revolta contra as velhas estruturas tanto da política como da religião. Supostamente, aquele foi um ato inconformista que se opôs não só à pompa do regime monárquico, mas também à aura sacra que a ele se vinculava. Será mesmo esse espírito emancipatório absolutamente desprovido de fé? Christopher Dawson – historiador tornado célebre pela tese de que a religiosidade é a força-motriz das culturas – demonstra que por trás do movimento havido no fim do século XVIII subsistia um verdadeiro panteão. O progresso, a democracia e a própria humanidade encontravam-se alçados à posição de deuses, que exigiam seus cultos, que impunham suas regras e que houveram sido anunciados por profetas.
Dividido em três partes, Os Deuses da Revolução investiga os antecedentes, o desenvolvimento e as reverberações daquele estado de espírito. Primeiro um apanhado das ideias políticas influentes desde a Reforma até os primórdios do Iluminismo, com destaque para as figuras de Rousseau e Thomas Paine. Em seguida, uma narrativa minuciosa das décadas de 1780 e 1790, em que se veem os traços de brutalidade da Revolução em curso. Por fim, notas mais interrogativas que conclusivas sobre as consequências daquele movimento: será reversível a tendência à adoração ao poder que o cristianismo silenciara mas a que os últimos séculos concederam novamente espaço? Os famosos livros de Christopher Dawson sobre história antiga e medieval comprovam que poucos eruditos estariam tão capacitados quanto ele a encarar esse problema que é crucial para a política e a cultura modernas.
Christopher Henry Dawson (12 October 1889, Hay Castle – 25 May 1970, Budleigh Salterton) was a British independent scholar, who wrote many books on cultural history and Christendom. Christopher H. Dawson has been called "the greatest English-speaking Catholic historian of the twentieth century".
Da série primeira leitura mais aprofundada sobre tema X... Gostei muito desta obra, apesar de achar todos os nomes e menções demais para um livro tão curto — é que é feita para um público já mais informado, eu sei.
Apesar das complexidades, esse livro ainda é apresentado com explicações bastante acessíveis: a primeira parte fala um pouco sobre os conflitos religiosos que precederam a Revolução, suas reviravoltas e suas conexões mais ocultas com os revolucionários. Também fala sobre a revolução inglesa e a independência americana, contextualizando ainda mais o cenário e fornecendo fontes de comparação com a Revolução Francesa. É por aí que Dawson começa a traçar paralelos entre os revolucionários e um culto às abstrações, às divindades que regeriam tudo num futuro glorioso e utópico.
Na segunda parte, entramos nas descrições das constantes mudanças pelas quais a própria Revolução passou, começando com um caráter extremamente liberal, idealista e burguês e transformando-se rapidamente em uma monstruosidade multifacetada. Essa é a parte mais caótica do livro, onde as coisas se tornam mais complicadas de traçar. Num momento, um personagem histórico parece estar levando a melhor aos olhos do público e, no outro, cai em desgraça devido a uma única opinião que, aos olhos do monstro revolucionário, é inapropriada, uma traição.
É esse caos que me faz gostar mais do livro, ter mais interesse em desvendá-lo. Também é ele que serve como fulcro para a ideia central da obra: a de que a Revolução Francesa foi, acima de tudo, uma poderosa mudança espiritual e religiosa, do povo francês para a Europa. Ninguém sabia ao certo o que queria, se seria mais reformista ou mais radical, se chegaria ao poder com ideais ou pelo próprio poder. Por meio desse combate sangrento e catastrófico, em meio à miséria que os intelectuais falharam em antever como fruto de sua soberba, surgia a redefinição mesma da política, da filosofia e da religião francesas.
A terceira parte é uma conclusão relativamente pequena, refletindo sobre os impactos posteriores da Revolução. São interpretações da qualidade que eu esperava, vindas de um amigo de C. S. Lewis. E assim, com muita graça, este livro me introduz de forma um pouco mais aprofundada a esse tema tão, ainda hoje, impactante para a história do mundo.
Essa obra do historiador britânico Dawson é uma análise dos fatos e ideais da Revolução Francesa. O autor começa apresentando o contexto francês do século XVIII. O pensamento liberal, face aos conflitos religiosos entre protestantes e católicos, se apresenta como uma alternativa racionalista e de tolerância para uma sociedade mais humana e igual. Somado a isso, o surgimento de uma burguesia que demandava mais liberdade econômica e menos intervenção da Monarquia propiciava o cenário que exigia reformas administrativas e políticas. Porém, a Monarquia francesa não conseguia corresponder às mudanças na profundidade requerida pelos vários grupos de interesses. Sua ligação com a Igreja e o suporte dos camponeses conservadores e profundamente católicos impediam mudanças profundas. Rousseau sugere a democracia como um novo credo humanista e progressista. Funda a democracia como um credo religioso amparada em uma religião civil. A crença nos direitos dos homens, porém, assume elementos revolucionários, identificando o rei e a Igreja como inimigos a serem batidos. A consequente disputa de poder entre girondinos e jacobinos resulta na implantação do Reino do Terror. A revolução com Robespierre assume um caráter totalitário. Com sua posterior queda, os interesses revolucionários idealistas assumem uma característica de negócio. A população cansada e incrédula da revolução abre a possibilidade do retorno monárquico. Napoleão é aquele que assumirá o poder e racionalizará a administração da França. Dawson faz, de uma perspectiva histórico-crítica, uma análise dos efeitos desses acontecimentos históricos para todo o Ocidente. Essa não é uma obra introdutória, mas certamente necessária sobre a Revolução Francesa.
Dawson expressa seu conceito de que a cultura se desenvolve a partir da influência da religião e aplica a análise das Ideologia como emuladoras das religiões, a partir do movimento espiritual que resultou na Revolução Francesa e seus elementos religiosos.
Seria Rousseau o profeta e Robespierre o sumo sacerdote da "Religião da Humanidade", tendo o Ser Humano no centro e os Direitos do Homem e do Cidadão, assim como o Contrato Social, como Escrituras.
Para quem gosta de história das idéias, Dawson é recomendado como o grande representante a ser estudado.
Uma avaliação interessante do real caráter da Rev. Francesa e do iluminismo. O autor tem um viés claramente pro catolicismo, ele era católico, isso torna alguns comentários suspeitos.