A psicanalista Maria Rita Kehl retorna às livrarias com a coletânea Bovarismo brasileiro, que reúne alguns ensaios marcantes sobre temas que abarcam desde a literatura de Machado de Assis até um estudo de caso – o atendimento de um militante do MST –, passando por reflexões acerca das origens do samba, do manguebeat, do período de expansão da rede Globo e da primeira campanha de Lula. Para dar liga às suas análises, a autora vale-se do conceito de bovarismo, cunhado pelo filósofo e psicólogo Jules de Gaultier com base na personagem Emma Bovary, de Gustave Flaubert, uma ambiciosa e sonhadora pequeno-burguesa de província que, à força de ter alimentado sua imaginação adolescente com literatura romanesca, ambicionou "tornar-se outra" em relação ao destino que lhe era predestinado. Kehl provoca: Seria o bovarismo um sintoma da sociedade brasileira?
Maria Rita Kehl é psicanalista, formada em psicologia pela USP. Mestra em Psicologia Social pela USP e Doutora em Psicanálise pela PUC-SP, também é ensaísta e jornalista.
Um livro muito pertinente para refletir sobre as questões brasileiras e muito acessível para quem não está familiarizado com a psicanálise. Recomendo muito!
“Cabe perguntar que tipo de cisão do eu permite que o brasileiro ria das feridas sociais do país em que vive, como se estivesse sempre do lado de quem segura o cabo do chicote– como se não percebesse as lambadas e a humilhação que também o atingem. Será o novo bovarismo social efeito de uma identificação com o opressor não em suas características avançadas (em termos de valores republicanos, lutas igualitárias, etc.) mas sim como arremedo das aparências da civilização conciliadas com a manutenção da versão contemporânea do escravismo em uma sociedade que continua criminosamente desigual?” (p. 52)