Opinião No Jardim do Ogre, de Leïla Slimani
Tradução de Tânia Ganho
Revisão de Rita Almeida Simões
Ser Adèle é viver em sufoco, esmagada, sem identidade, sem pertença. É estar presa e sozinha mesmo quando acompanhada, penetrada.
Este é o livro que vive da sua história. Não tem, na minha opinião, uma escrita extraordinária, nem uma profundidade transformadora. Mas tem uma história fortíssima, claustrofóbica, triste, que nos esmurra e nos faz querer amparar esta mulher que nunca chegou a ser.
A meu ver, quem ler este livro em busca de literatura erótica vai desiludir-se. Este não é um livro sobre sexo, não é um livro sobre desejo. Muito menos é um livro sobre uma mulher forte que sabe o que quer e não teme procurá-lo. Este é, acima de tudo, um livro sobre dor, sobre solidão, sobre uma mulher que não se basta a si mesma, que é metade.
Aqui, a procura do acto sexual serve como tentativa de romper a solidão, a angústia, a inexistência. De encontrar alguém, que não ela, que rasgue a desolação de ser incompleta. Adèle é a prova, a personificação, de que nenhuma pessoa será inteira se for pessoa que vive através de outrem. Será sempre desfeita, desfigurada, anulada.
“Ela reencontra as suas sensações. A alma pesa-lhe menos, o seu espírito esvazia-se”.
Este é um livro que, apenas por antítese, faz a apologia da importância de ser mulher completa, que se baste, sem necessidade de viver através de alguém.
O conflito serve a necessidade de reconstrução, do mundo, de nós, da noção de ser. É isso que aqui encontramos. Uma mulher que procura o conflito, consigo e com o mundo, que quebra todas as regras para se auto-destruir e procurar, esperando ferramentas que lhe cheguem de fora, uma reconstrução, algo que a parta e a volte a unir de outra forma, una. Inconsciente. Está perdida. Desolada. Quer morrer e nascer outra.
Foi um murro no estômago e uma leitura muito triste, esta, ainda que transformadora e marcante. Muito marcante. Quem a lê sente-se acometido, também, por um sentido de urgência. E logo de desolação por não poder juntar as peças desta mulher meia.
Playlist em Spotify com o título do livro. 🎼