por muito tempo senti como se meu corpo fosse uma casca que me escondesse ao invés de me abrigar. como se existisse apenas a beleza interior, ou como se o meu exterior também não fosse importante. acho que esperava que algo lá de dentro refletisse aqui fora.
desde de onde tenho memória, tentei desassociar meu amor próprio do meu ego. a ideia era não misturar as duas coisas, como água e óleo. entendendo que se eu me sentia mal com a rejeição do outro, ou do mundo, ele estava ferindo meu ego, e não meu amor por mim mesmo. mas acaba que machuca mesmo assim, não machuca? porque se eu queria ser “bonito” é por querer ser amado tanto quanto. a ideia de amores não recíprocos e garotos que não viam em mim o que eu via, me fez acreditar que o amor e tudo mais que é bom e prazeroso fosse reservado apenas às pessoas ditas belas.
a beleza, em minha vida, era uma constante inimiga—por “feio” leia-se gordo. um corpo não atraente. era assim que me via. e por isso me castigada, seja pelo excesso de comida ou por falta dela. a ideia de um corpo menor, que se encaixasse parecia ser a conquista que faltava. o que, uma vez conquistado, me faria uma pessoa mais desejável. mas existe algo tão vazio e momentâneo quando o poder se se sentir atraente? especialmente quando colocado nas mãos dos outros?
sinto que levei muito tempo até tomar meu corpo em minhas próprias mãos. até entender que minha beleza era só minha. a não querer mudar. a ideia de que não devo beleza a ninguém, ou de que meu corpo é defeituoso de alguma forma, quando ele é apenas humano. acho que foi isso que passei a almejar: a beleza através da humanidade. queria mesmo era me sentir mais gente, com meu rosto largo, minhas bochechas rosadas e minha barriga com dobrinhas.
a conclusão de que a ideia de feiúra vem da comparação. mas como se comparar se somos todos tão diferentes. o que se compara de fato? se eu fosse o único morador dessa terra, eu me avaliaria como bonito ou feio? quais critérios são suficiente para tal aval? a ideia de ser único, ainda que em uma multidão. foi o que fez eu me ver além do que carrego no peito. foi o que me fez passar a cuidar do meu corpo como uma casa e não como uma prisão.