Um pão com bolor e um frasco de sabonete, flores que despontam num descampado e uma árvore que há séculos espera alguém a quem possa contar a sua história – nada passa despercebido ao olhar atento e sensível de Joel Neto. Para o escritor, o segredo da vida está nas coisas mais coelhos saltitando no jardim, a banda filarmónica ao longe, um pé de tomate-de-capucho.
E nas pessoas, evidentemente. Em Maria de Fátima, que fazia um pão de milho como já não poderá haver outro. Em Roberto, que não arranca com o autocarro enquanto uma criança não for buscar um casaco. Em Filomena, que atravessava a freguesia com a elegância de um flamingo. Em Emanuel, o carteiro que cita Jorge Luís Borges. E no Chico, e no Galão, e no Dimas, e no Manuel da Lenha, e no Rúben, e em toda a infinita galeria de pessoas e de histórias humanas que desfilam neste livro.
Joel Neto é autor dos romances "Arquipélago" (2015), "Os Sítios Sem Resposta" (2013) e "O Terceiro Servo" (2000), para além do volume de contos "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas" (2002) e de vários outros livros de diferentes géneros. Publica semanalmente no jornal "Diário de Notícias" a coluna "A Vida No Campo", série de relatos sobre o seu próprio regresso à Terra Chã, freguesia rural da ilha Terceira (Açores), e é cronista permanente de vários diários portugueses e da diáspora portuguesa. Antigo jornalista, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, nas qualidades de repórter, editor, comentador e anfitrião, tendo ligado o seu nome à maior parte dos principais meios de comunicação social portugueses. "Arquipélago" (ed. Marcador/Os Livros RTP) mereceu rápido aplauso da crítica e do público, esgotando a primeira edição ao fim de duas semanas. O seu último livro, "A Vida no Campo (ed. Marcador), publicado em Maio de 2016, esgotou a primeira edição ainda antes de chegar às livrarias.
Num contexto elementar diria que A Vida no Campo: Os Anos da Maturidade é mais superlativo do que A Vida no Campo. Ao longo da leitura foram surgindo inúmeras interrogações a começar logo pelo subtítulo - "Os anos da maturidade" que se afiguram mais como "Os anos da nostalgia ou "Os anos da consolidação"? Será? Estas magníficas crónicas do Joel Neto evoluem ao longo de um ano - fragmentados, mais uma vez, pelas estações do ano; crescem e ampliam-se conforme as vicissitudes do clima e das suas alterações sazonais, acabando por florescer conforme a flora, quer sejam espécies agrícolas, quer sejam espécies florestais, num ciclo de vida e de morte que se vai perpetuando. Há claramente uma progressão na interiorização e na introspecção pessoal do homem, em primeiro lugar, e do escritor, em segundo lugar. Joel Neto está mais atendo ao detalhe, procura a minúcia, a particularidade daquilo que o rodeia - as pessoas, os que estão vivos e os que, infelizmente, morreram; os animais e a flora que acaba por compartilhar - quer no dia-a dia, quer de um forma mais esporádica. Neste tempo de crescimento (plantação) e de consolidação - que se vislumbra no concluir, por exemplo, do jardim/horta, do pomar ou da sua mata -; finalmente percebe que "O homem disto sou eu, e eu fui o último a percebê-lo. Há muito tempo que, para toda a gente aqui à volta, o homem desta casa sou eu - e agora resta-me sê-lo até que não me falte senão ser o antepassado de alguém que talvez me honre a mim até, finalmente, aceitar ser o homem ou a mulher dela também." (Pág. 210)
"A vida é tanto uma tragédia como um milagre. Mas, se uma pessoa chega a uma idade em que quase tudo lhe dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, pode concluir o quê, se não que a tem vivido? Uma vida em que não se ri nem chora, em que nenhum motivo é grande o suficiente para se rir e chorar - que vida teria sido essa, afinal?" (Pág. 51)
Quando leio um livro nem registo de um diário como é o caso de A Vida no Campo: Os Anos da Maturidade interrogo-me sempre sobre os mistérios da memórias e das recordações do escritor. Poderá sempre existir a obrigatoriedade da escrita. Quais os critérios da sua escolha, da sua selecção, sobre as temáticas, sobre as pessoas, sobre alguns acontecimentos, quer do passado, quer do presente? Talvez, como Joel Neto refere: "nos desfiladeiros de uma memória tortuosa" ou como "nunca a imaginação conseguiu ser tão redentora e ideal" sintetizem parcialmente A Vida no Campo: Os Anos da Maturidade.
Confesso, desde já, as saudades que eu tinha de voltar às páginas de “A Vida no Campo”, de Joel Neto. O primeiro volume arrebatou-me. Adorei da primeira à última palavra. Este segundo volume voltou a conseguir a proeza! Que delícia de livro. Queria lê-lo de uma assentada só mas, ao mesmo tempo, queria que durasse muito, muito tempo. Dilemas de leitor...
Tal como o Chico, este segundo volume de “A vida no campo” também merece um grande elogio. Escrito de uma forma bela e irrepreensível, Joel Neto continua a maravilhar-nos com a sua ilha Terceira e todas as suas idiossincrasias, e, acima de tudo, conta-nos histórias extraordinárias dos seus habitantes, todos eles com qualidades únicas e inigualáveis... Mas neste livro também nos deparamos com pequenas incursões noutras paragens! Uma “viagem” literária que vale a pena fazer porque nos enche o coração e a alma!!!
Começa numa promessa e termina numa promessa. De Primavera, mas com toda a justiça feita a cada virar de estação. O volume II de "A Vida no Campo" volta a ser comunhão com os lugares, com as pessoas, com tudo aquilo que o Joel homem vive na sua atmosfera e o Joel escritor filtra e transforma em literatura. Se é consolidação desse regresso, em nada diminui o que terá sido a redescoberta nesses primeiros tempos, de encontrar esse lugar perfeito na terra, como se eles, enquanto homem e mulher, fossem também bolbos que haveriam de florir. E deste lado, quem lê, fica também à mercê de saber encontrar um regresso. O regresso. Ou essa formulação do "e se?", até morrermos, por certo sem a graciosidade da Sra. Filomena, a sabedoria do Chico ou a tenacidade da Sra. Maria de Fátima. E mesmo que nunca tenhamos a palavra para descrever esse momento, o Roberto Lino e todos nós confiaremos essa demanda no Joel. Para voltar sempre aos seus escritos e esperar até que nos escreva sobre esse dia em que comerá figos da sua própria figueira.
Menos intenso e envolvente do que o primeiro volume, ainda assim um registo das vivências insulares, intercaladas com incursões fora da ilha, com a perspectiva focada para o lado de dentro do seu autor.
"A vida no campo" reúne crónicas, originalmente publicadas no Diário de Notícias, sobre a vida de Joel Neto depois de voltar às origens, ou seja, depois de regressar à sua ilha natal. Em 2012, Joel Neto deixou a sua vida em Lisboa e foi viver, com a mulher, a tradutora Catarina Ferreira de Almeida, para a Ilha Terceira. As pessoas que vivem na sua aldeia, e que fazem parte das suas recordações, são a principal fonte de inspiração para as suas fantásticas crónicas. Mas também as suas conquistas no jardim que vai construindo com a ajuda dos amigos. E as pequenas coisas do dia-a-dia, uma fatia de pão de milho, as árvores, as flores, os passeios com os cães, todos são personagens dos pequenos episódios d' "A vida no campo".
As histórias de Joel Neto são tão mais ricas quanto mais singelas. Transparecem uma felicidade que só é possível a quem ousa viver num contacto íntimo com a natureza mas também com os outros. As crónicas d' "A vida no campo" são pequeninas jóias da literatura.
Este segundo volume de A Vida no Campo é igualmente belo. É enternecedor. Quando trata da natureza, das pessoas, dos cães e das próprias palavras. De tantas partes, belíssimas, apenas uns excertos:
"E, ali, como tantas vezes, voltei a celebrar o facto de ainda ser capaz de imaginar outras vidas - de conseguir até, às vezes, deixar-me fascinar o suficiente por uma delas para, num momento que seja, me sentir capaz de seguir o seu trilho. Aí, nessa pergunta, permanece a centelha da criação:«E se?» Ainda não descobri melhor razão para se continuar vivendo. Nem melhor prova de que se está vivo".
"Quando um homem conhece o amor, mesmo que seja por um curto e febril instante, é difícil conceber que a sua vida não tenha valido a pena - por muito que a dor, e o fracasso e a raiva e a doença o tenham manietado antes e depois disso".
O livro fascinou-me desde a 1ª página. Está todo sublinhado e anotado - para mim é sinal de ser um livro amado. Infelizmente, estava a acabar de ler o dia 1 de novembro (só agora reparei... e não há coincidências!) quando recebi uma das piores notícias da minha vida. Voltar a ler foi muito difícil, este livro ou qualquer outro - o que só me sucedeu duas vezes e sempre por motivos muito graves. Consegui acabar e mesmo voltar a tirar prazer. Quero fazer a resenha que o livro merece mas neste momento ainda não consigo. Parabéns Joel Neto!
Notei uma grande diferença deste volume 2 em relação ao primeiro, pareceu-me que o autor talvez devido ao maior tempo de permanencia "no campo", fala e expressa as suas ideias e conta as histórias com um muito maior sentimento e profundidade; senti-me transportado diversas vezes para aquele ambiente, tal a forma como li tudo aquilo que o Joel tinha colocado naquelas páginas; simplesmente magnifico.
Uma vez mais, o Joel proporciona-nos o prazer da leitura de um livro fantástico!!!! Um livro muito pessoal, como se o Joel nos considera-se não só como leitores, mas também como amigos próximos e algumas vezes até confidentes. Identifiquei-me a 100 % com as referencias ao contacto com as plantas, árvores e animais, reflexões só possíveis a quem vive efectivamente no campo. Resumidamente, trata-se de um diário, muito pensado e reflectido, real, sobre pessoas, para pessoas, não só sobre o campo, mas também sobre o mundo. Muitos parabéns Joel!!!!
E ao segundo volume destas crónicas/diário renova-se o prazer de acompanhar o quitidiano do escritor, quase sempre no campo, na sua ilha Terceira. Ja parece que conhecemos o escritor, os seus cães, o seu jardim e pomar, as verdes vistas. Fascina-me a capacidade de observar e admirar os seus vizinhos e as pessoas que vai conhecendo. Só me faltaram mesmo referências ao mar, que considero fazer parte da alma dos ilhéus. O que eu gostava que um/uma madeirense escrevesse algo deste género passado na minha ilha!
Dei quatro não por deméito deste 'volume II', mas porque o primeiro livro d'A Vida no Campo me marcou imenso. Na altura chorei umas vinte vezes a ler o livro, e lembro-me inclusivamente que chorei na introdução. O A Vida no Campo (o primeiro!) mexeu imenso comigo numa fase em que também eu estava a passar pela mudança Lisboa-campo (no nosso caso, Alentejo), e este 'Os anos da Maturidade' apanhou precisamente a nossa fase da maturidade, talvez menos dada a choradeiras. Senti falta de 'mais', há crónicas escritas de Lisboa ou do estrangeiro e eu não quero ler sobre Lisboa, quero ler sobre a Terceira. Fora isso, confirmei que adoro a escrita do Joel Neto e que devia mesmo ler mais livros do autor.
A vida no campo, de Joel Neto, me acompanha faz mais de um ano, lido vagarosamente ... num ritmo todo próprio, como quem degusta o último bocado.
Sempre que leio um livro me pergunto se o autor terá ideia do impacto que seus escritos provocam no leitor.
E sobre o que trata Os anos da maturidade? Sobre gente! E Joel Neto tem um olhar tão generoso sobre as pessoas que eu jamais conseguiria explicar.
Ler A vida no campo me fez lembrar das tantas vezes que li Rubem Braga e suas "200 crônicas escolhidas", tenho os mesmos sentimentos, um misto de encantamento com enlevo, e que me faz querer compartilhar com os amigos queridos uma das minhas mais saborosas leituras, como já o fiz com A caligrafia de Dona Sofia, do André Neves, e uns tantos outros.
Será profético ou simbólico que eu venha aqui falar sobre o livro no dia do "obrigado"?