Não é sobre a vida na estrada, é sobre a vida na vida.
Em “Um drink numa bota suja de lama”, Marcos DeLacumbre Holtz sangra um personagem que exala horror à vida padrão. Numa jornada real, que começa na Índia e termina na Malásia, ele protagoniza em busca da nada convencional justificativa que combate o existir com doses de viver.
Despudorado e sensível; lacerante e terno. Em suas palavras, DeLacumbre é capaz de colocar cheiro de virgindade em puteiro portuário. Ambientada numa intensa cruzada por 11 países da Ásia, a narrativa escrita no embalo de trens sujos expõe sentimentos e confusões mentais do autor em tom impressionista, verdadeiro e envolvente.
Este livro é uma ponte entre sensações antagônicas. Numa definição referencial literária crua como a própria obra, talvez DeLacumbre seja: aventureiro como Kerouac e asqueroso como Bukowski. É um livro corrosivo ao politicamente correto e não deve ser alojado em estantes frágeis.
Em 2021 escrevi: "DeLacumbre envolve o leitor com sua caça incansável pela vida. A sua jornada épica com pitadas de sagacidade, doses alcoólicas, e um furor pelo incompreensível, cativa, inspira e talvez ofende os mais desapercebido e sensíveis. Ele é sincero na sua busca, e não vai enganá-lo com termos rebuscados de uma viagem perfeita. Porque ela é perfeita. E ele expressa perfeitamente a sua visão disso. Alguns dizem que o livro é pesado, pois então que seja um peso necessário para nossa sociedade atual. "Ler esse livro acabou com a minha vida". Parabéns."
Em 2023, relendo partes da obra, e com maior inserção no meio literário, percebi o quão fraca é a sua narrativa. Uma personagem que não se transforma, que não questiona, que somente vocifera opressões e sai vitorioso da mesma. Não digo e nem uso o termo politicamente correto, até porque não é retirando o machismo da literatura que fará com que o machismo acabe, mas o livro não serve de nada para distorcer a realidade imposta. É uma viagem falocêntrica de um ego que tenta se fazer viril, mas é extremamente perturbado.
Delacumbre é ácido, amargo, sórdido, destemido, real, visceral. Marcão largou sua vida normal para viajar para a Índia e o Sudeste Asiático em busca da vida. Em sua jornada, regada a álcool, solidão e simplicidade, ele questiona a hipocrisia humana, o materialismo de uma sociedade de aparências, e não leva desaforo para casa (ou para a estrada). Não esconde sua podridão, sua 'filha da putice', sua humanidade mais realista. Enquanto leitora, oscilava entre raiva e afeição pelo autor. Os mais sensíveis, não acostumados a lidar com as próprias sombras e a dualidade do ser humano, se assustarão (quiçá se ofenderão) com a sua escrotidão sincera, nua e crua. Delacumbre é como uma droga e você não vai querer parar de consumi-lo.
This one was so good I've finished it without seeing the page numbers, as I had the opportunity to mention to the author himself due to his online presence and the access that the social networks provide us. The book was self published, and by reading it you understand why, there's some parts that were unpublishable, with statements that could easily be tagged as homophobic, mysogynistic and innapropriate (In one of his trips he taugh some kids to curse in portuguese and that got me laughing real hard), but with a little more context on who he is and what he does, you notice that's (seems) not to be the case. I recommend it, and also recommend his episode on À Deriva podcast (Brazilian Portuguese) on youtube.