Fascismo reúne textos escritos por duas figuras fundamentais para se entender esse sistema político que marcou a história do século XX. “A doutrina do fascismo” é considerado o mais completo manifesto da visão de Benito Mussolini, que desprezava as instituições democráticas, impondo uma política ultranacionalista e autoritária. De uma perspectiva diametralmente oposta, o ucraniano Leon Trótski, mais próximo ao ideário político marxista, critica a doutrina de Mussolini, fazendo um imprescindível contraponto em “O fascismo — o que é e como combatê-lo”. À parte de posicionamentos políticos, esta obra faz defrontar-nos com um passado do qual é preciso lembrar para não repetir. Os dois textos emblemáticos desta edição são precedidos pela bela e elucidativa apresentação de Alberto da Costa e Silva, diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores historiadores brasileiros da atualidade.
Trotsky traz boas reflexões sobre o fascismo na frança e em outras partes da europa, mas peca em comparar Stalin e sua vertente política ao fenômeno iniciado na Itália e que teve seu auge na alemanha hitlerista.
Este livro tem como tema principal a pérfida visão preconceituosa e autoritária do mundo chamada “Fascismo” e é composto por duas partes caracterizadas por um profundo antagonismo que é exposto em dois ensaios, ambos escritos em 1932. A primeira parte, intitulada “A doutrina do fascismo” é de autoria de Benito Amilcare Andrea Mussolini, ele mesmo, o Benito Mussolini (1883/1945), jornalista, político, fundador do “Partido Nacional Fascista Italiano” – O “Duce” – que governou a Itália de 1922 a 1945 pondo em prática o odioso ideário fascista do qual ele era um dos principais formuladores e defensores. Apesar dos acessos de ansiedade e de um sentimento de profunda repugnância que o texto provoca (pelo menos em todos aqueles defensores sinceros do estado de direito, da democracia, e dos direitos humanos) o texto de Mussolini é de uma coerência que chama a atenção e ele não hesita em defender de forma ferrenha o ideário fascista. Disse o “Duce”:
“Depois do socialismo, o fascismo aponta suas armas para a totalidade do bloco das ideologias democráticas e rejeita tanto suas premissas quanto suas aplicações práticas e seus implementos. O fascismo nega que números, como tais, possam ser o fator determinante na sociedade humana; nega aos números o direito de governar por meio de consultas periódicas; insiste na desigualdade irremediável, fértil e benéfica dos homens, que não pode ser nivelada por um artefato mecânico e extrínseco como o sufrágio universal”.
No restante de seu ensaio o “Duce” reforça o ideário elitista, totalitário e militarista do fascismo e dele se orgulha sobremaneira. Na segunda parte, intitulada “O fascismo: o que é e como combatê-lo”, de autoria de Lev Davidovich Bronstein, político, teórico, revolucionário marxista russo/ucraniano (1879/1940), mais conhecido como Leon Trotsky, podemos tomar contato com uma das primeiras descrições críticas da doutrina fascista e com contundentes alertas acerca do mal que ela poderia causar ao mundo. Muitos não gostam de Trotsky pelo seu envolvimento na Revolução Russa e pelo seu posicionamento claramente socialista mas não dá para ignorar os seus argumentos contra a ameaça do fascismo às liberdade de uma maneira geral. A seguir um trecho do ensaio de Trotsky:
“Na medida em que o proletariado se mostra incapaz, em determinado estágio, de conquistar o poder, o imperialismo começa a regular a vida econômica com seus próprios métodos; o partido fascista que se torna o poder estatal é o mecanismo político. As forças produtivas estão irremediável contradição não só com a propriedade privada, mas também com os limites estatais nacionais. O capitalismo imperialista busca resolver tal contradição por meio de uma extensão de fronteiras, da conquista de novos territórios e daí por diante. O Estado Totalitário, sujeitando todos os aspectos da vida econômica, política e cultural ao capital financeiro, é o instrumento para a criação de um estado supranacionalista, um império imperialista, o domínio dos continentes, o domínio de todo o mundo”.
Tendo em vista a expansão da extrema direita nos dias de hoje o texto de Trotsky ganha uma inquietante contemporaneidade, a despeito da evidente modernização que a expansão do ideário totalitário exibiu da década de 30 do século passado aos nossos dias. Excelente e esclarecedora leitura para esses nossos conturbados dias atuais.
Enquanto lia esse livro na parte sobre a ideologia do fascismo escrito por Mussolini só conseguia pensar que "o cão é muito bem articulado" e pode enganar facilmente quem não consegue discernir as coisas. Talvez seja por isso que o fascismo ascendeu tão rapidamente.
Lendo a parte escrita por Tróstki e analisando a atual conjuntura política brasileira o pensamento foi outro: "estamos fodidos e mal preparados caso haja um ascensão fascista brasileira mais violenta no governo bolsonarista". Pra mim, ela já acontece, mas de forma não tão declarada. Até porque ninguém irá admitir. A sensação é que estamos encurralados já que a justiça brasileira hiberna.
Leitura importante para os dias de hoje. É bom conhecer o texto original de Mussolini, para entender o que é o fascismo (e o quanto estão equivocados os liberais que defendem o fascismo enquanto empurram ele para a esquerda), e também conhecer a avaliação do Trotski sobre o fenômeno, pontuada com ocorrências históricas.
Trostky escreve muito bem e tem uma capacidade imensa de compreensão das tensões políticas de sua época. Repetitivo em partes, mas interessante como uma introdução ao russo.
Interessante a justaposição do "manifesto" fascista com as análises muito bem embasadas de Trotski. Infelizmente algumas das notas colocadas pelo editor mais confundem do que elucidam.
Como é gostoso e ao mesmo tempo assustador ver Trótski analisando o Fascismo e sua evolução. Muito cirúrgico, antecipa muitas coisas que aconteceriam. Uma boa leitura, que gera muitas reflexões sobre o Brasil atual.