Antes uma maldição formadora de párias, o deslocamento social é, hoje, o aspecto mais democrático da pós-modernidade. O estar fora de lugar é o tema destas crônicas. O flagrante cotidiano, usual do gênero, deixa um pouco de lado a perversão do voyeurismo para esboçar uma filosofia do estranhamento que, acima de tudo, celebra a solidão e a diferença. As crônicas deste livro formam uma bula: descrevem e prescrevem a vida inadequada, constroem com cenas o contraste entre a vontade de estar junto e a realidade de se estar só e tateiam, junto ao leitor, um entendimento comum sobre o fenômeno. Uma ponte levadiça, erguida quando a distância é conveniente, baixada quando a vida urge comunhão.
Yuri Al'Hanati nasceu em 1986, em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), e reside em Curitiba desde 2004, onde estudou Comunicação Social e Filosofia na UFPR. Jornalista e cartunista, colaborou para diversos veículos impressos e online, e atualmente escreve crônicas semanais para o portal A Escotilha. Criou, em 2010, o Livrada!, plataforma multimídia que experimenta abordagens leves na crítica literária.
Coletânea de crônicas escritas ao longo de 2015 e 2019 e publicadas online acrescidas de algumas inéditas. A prosa rápida de Yuri é ao mesmo tempo incisiva e delicada, pungente e carinhosa. Tem um olhar para os pequenos momentos fugidios da vida urbana (Vendedor de abacaxi, Chiclete preto), para a modernidade líquida [?] (A vida dos outros, O Terrível bar de portinha), para aquelas situações das quais só queremos distância (Banheiro de rodoviária, Ressaca negra), para a alteridade que muitas vezes nos falta em nossas viagens cuidadosamente esterilizadas (A hospitalidade sérvia, A hospitalidade russa), para as questões existenciais mais sérias que tantas vezes nos passam batidas (O pinball como representação da vida, O som do silêncio, Beber a própria solidão), ou para os momentos inusitados e encantadores do cotidiano mais banal (Meu nome não é Cléber, Redução por números). Uma leitura rápida mas nem por isso menos profunda.
Há um existencialismo perene nas crônicas de Yuri, um não-estar e não-pertencer que dento de si ecoam um lugar fechado e íntimo que deve ser de onde um cronista extrai tudo que escreve.
Testemunha de eventos aleatórios, ocular de fatos efêmeros, de fé de acontecimentos impossíveis, turista de realidades, Yuri nos faz vagar por instantâneos sacados com sua câmera visual-escrita por momentos de solidão, isolamento, distanciamento e uma clausura urbana que mesmo as redes sociais não logram romper.
Há um concreto em seus relatos curtos, pequenos blocos que assentam com a argamassa da realidade crua da vida humana que vai se desfazendo entre dúvidas citadinas e pensamentos vagos que lutam para manter a cabeça sobre o mar de atualidades imediatistas que nos rodeiam.
Para a inadequada vida para qual ele escreve a bula, o lenitivo mais indicado não se vende em farmácias mas em nós mesmos.
Em primeiro lugar queria dizer que não sou muito chegado em livros de crônicas. Crônicas lembram aquele estilo empoeirado e jornalístico que tínhamos que ler durante a escola sobre pessoas e contextos que aconteceram uns vinte anos antes do nosso tempo. Então tenho uma certa aversão a esse tipo de leituras. Mas as crônicas de Yuri Al'Hanati são diferentes dessas crônicas duras e puras dos anos 1980. Elas são mais vivas e, por serem do presente, são sim, deslocadas, projetos de uma vida inadequada, inacabada, porque todos nós, seres viventes somos assim. As crônicas de "Bula para uma vida inadequada" fala com essa geração indie que se cansou de ver filmes e escutar músicas sobre gente que não se ajusta, porque o mundo e as informações andam mais depressa que as pessoas. O texto de Yuri Al'Hanati é contemporâneo e por isso toca uma geração que ainda, digamos, vive, que atua, que produz e que chegou agora nas condições de "mover e definir o mundo". O livro é dividido entre uma parte de cronicontos e uma parte final que se aproxima de crônicas de viagem no velho estilo. Gostei mais da primeira parte, me envolveu e revelou uma certa naïveté do cronista como dono da verdade que tenta produzir. Um livro diferente que faz com que encaremos a crônicas e sua artesania de uma forma diferente. Inadequada, talvez?
Já faz um tempo que acompanho Yuri aqui nas redes e, desde o início, sua habilidade ácida com as palavras sempre me cativou - fosse para comentar algum vinho recebido, os desatinos dos nossos eventos políticos ou, principalmente, os lançamentos e as suas leituras mensais. Yuri conseguiu reunir cada miudeza das nossas inadequações rotineiras nas crônicas. Repletas de referências literárias, reflexo do admirável repertório cultural do escritor, elas tratam dos temas mais banais aos mais vitais, misturando a solidão, os ruídos da sua vizinhança em Curitiba, a ansiedade e as pílulas da rotina de alguém que se vê como estranho àqueles ao redor - de onde só os melhores conseguem tirar as melhores perguntas. Como dito pelo Casarin, Yuri manda bem de verdade ao narrar suas hospitalidades nos lugares mais inesperados, onde encontra as melhores e peculiares histórias e companhias. Ao escrever sobre esse mal-estar, sempre incerto, mas cada vez mais nosso companheiro, o cronista “renega as massas, desconfia delas, mas não deixa de visitá-las”. E é aí onde mora o encanto da obra: apesar de estar lá, prefere não fazê-lo. Nega-se para que possa se reconhecer. No fim, estamos todos fora do lugar.
Gostei muito, sobretudo das crônicas sobre pertencimento (assunto que permeia o livro como um todo), sobre multidões, voltar para casa, família e viagens.
"Minha pele branca ficou ainda mais branca e minhas braçadas se tornaram cômicas, para dizer o mínimo. Hoje, como as pessoas da cidade, vou à praia – outra praia, que não é a minha praia – e o que para os outros é exílio, para mim é regresso."
"A predisposição do ser humano, em especial o jovem ser humano, para se colocar sob condições ruidosas e desconfortáveis só pode ser expiação da culpa ser uno em uma sociedade que exige integração e comunicação como indicativos indispensáveis de boa saúde."
"Quando estou nesse momento, esqueço de pertencer. Sobretudo, esqueço de querer pertencer."
Faço questão de relembrar: se vejo problemas em algum livro, esse problema é sempre meu. Meu comentário jamais fará, para outras pessoas, alguém ser um mau escritor, julgamento que, aliás, Yuri supera com folga, caso tivesse que superá-lo. O livro, para mim, é apenas bom. Algumas crônicas mais especiais que outras, muitas pretensiosas, poucas transcendentais. Coisas que eu frequentemente procuro ou evito em crônicas (que, para mim, são ou deveriam ser lupas sobre eventos romanescos) estão aqui e acolá, como a fatalidade poética da linda e triste “A velha e o Papagaio” ou como a catarse terapêutica de “O vício de ficar sozinho”. No geral, um texto rápido e conciso.
Tem muito tempo que não entro em contato com a leitura de crônicas, e dessa vez gostei muito. Foi bem divertido ler essas histórias, e até me identifiquei com algumas. É interessante ver a evolução do autor com o passar das crônicas. No início a leitura estava um pouco travada, e depois foi ficando progressivamente mais fluida. Esse livro foi uma grata surpresa.
leitura fluída, a leveza na construção das crônicas com frases diretas e capítulos curtos geram uma progressão na narrativa que constroem o mosaico da mente do autor - aos poucos nos vemos em uma linha do tempo, construindo aspectos importantes de sua personalidade e história. nem sempre a vista do mosaico é a mais bonita, no entanto é sincera.