"Se querem certezas, então receio que tenham de ler uma história sobre outro tempo e outro lugar. E outros homens, e outras mulheres. Em Varsóvia, em 1941, não tínhamos nenhumas para vos dar."
Os acontecimentos narrados no livro "Os Anagramas de Varsóvia" têm como palco uma paisagem obscura manchada pelo nazismo. Richard Zimler não escreveu apenas um romance histórico, mas sim um enredo poderoso, caracterizado por personagens reais, envoltas numa atmosfera de mistério.
O leitor viaja, através de uma narrativa estimulante e trágica, até ao gueto de Varsóvia. Tal como os seus habitantes, também o leitor se vê encerrado na capital da Polónia. Richard Zimler faz-nos sentir na pele a asfixia e a humilhação sentidas por estas pessoas, forçadas a sobreviver nas circunstâncias mais estremas, no principio da Segunda Guerra Mundial. E é neste contexto histórico que se desenrola uma investigação de cariz policial, que prende a atenção do leitor até à última página.
"Às vezes precisamos de esperar durante muito tempo para sabermos o significado do que está acontecer neste preciso momento."
O judeu Erik Benjamin Cohen volta para sua casa dia 16 de Dezembro de 1941 e é nessa altura que decide contar, a um homem de aparência esfarrapada, os acontecimentos dos últimos 14 meses que o trouxeram até aquele exacto momento. E, porque ele decidiu partilhar as suas vivências com um desconhecido, nós temos a oportunidade de conhecer a sua vida. É um dos sobreviventes do gueto, Heniek Corben, que nos narra a história do psiquiatra.
Erik Cohen é o nosso herói. Este homem, dotado de uma simplicidade real, é o símbolo da esperança. Apesar de tudo Erik tem muitas atitudes maldosas para aqueles que o rodeiam. É a forma de manifestação que encontra para descarregar a sua dor e profundo desagrado pelas condições de vida que lhes foram impostas pelos alemães.
Quanto ao mistério centra-se numa série de assassinatos macabros de crianças do gueto. O horror dos crimes é acentuado pela mutilação dos pequenos e inocentes corpos. Para além da necessidade de alimentos, água, conforto e companhia, enfim, tudo o que torna a vida minimamente suportável, Erik Cohen, um homem infortunado, só precisa de saber a verdade. É esta procura incessante que o mantém vivo.
Nesta história memorável, viajamos no interior do gueto - também chamado de ilha - onde habitam as personagens principais, mas também nos é permitido conhecer O Outro Lado, acessível através de vários pontos de passagem, como caves de prédios abandonados.
Richard Zimler descreve magistralmente a evolução dos acontecimentos, à medida que nos revela a verdade por detrás dos crimes. Estes crimes brutalmente vivídos marcam o leitor, colam-se-lhe à memória e provocam-lhe as mais variadas emoções: desde repulsa, ao ódio ao medo. O escritor revela-nos a realidade nua e crua, destacando a capacidade de resistir, lutar, querer e acima de tudo, sobreviver, comum a todos os seres humanos. Mas mesmo na narração de uma tragédia brutal, o escritor transmite uma sensação de optimismo ao leitor, através de um estilo claro e directo dos prazeres mais simples da vida: um cigarro, a alegria de uma criança que canta ou o sol que espreita entre as nuvens após um tarde de tempestade.
"Apesar de todas as tentativas dos Alemães para refazer o mundo, as leis naturais continuam a existir."
Richard Zimler retrata a realidade do holocausto. A obra é, essencialmente, sobre as fragilidades do dia-a-dia e a coragem com que um grupo de judeus comuns as enfrentam. Eles cheiram mal, os seus dentes estão a cair, as crianças arriscam as sua vidas para roubar vegetais podres e as jovens mulheres vendem os seus corpos. Apesar da luta pela sobrevivência, este livro mostra-nos que, mesmo nas piores situações, as pessoas são capazes de ser boas e leais, tornando possível o optimismo.
Relativamente às personagens, Richard Zimler apresenta-nos tanto judeus bons, como judeus maus. Existem não-judeus e pessoas com sentimentos contraditórios e motivos mistos, que se enquadram na área cinzenta de um mundo que nunca poderá ser divido a preto e branco.
Erik Cohen já não é mais a pessoa importante que era antes de chegar ao gueto. A sua sobrinha Stefa e o seu sobrinho-neto Adam são a única família que tem por perto. A sua mulher morreu durante o parto e a filha Liesel encontra-se em Ermirna. Para além dos do seu sangue, conta com a companhia do seu eterno amigo Izzy, que tem como oficio compor relógios. Outras personagens, mas não menos importantes são uma mãe viúva, um órfão de 17 anos, um médico sempre prestável, um professor de música e muitas outras, que tanto são alvo de injustiças, como responsáveis pelos actos mais condenáveis.
"As pessoas continuam a vida da única maneira que sabem."
Erik Cohen consegue contar sua história e os mortos são lembrados."Os Anagramas de Varsóvia" é um livro realista, brutal, cruel e doloroso, capaz de nos assombrar os pensamentos durante dias a fio. E é como uma citação da obra, com a qual me identifico, que termino a minha opinião: "Tento viver sem expectativas. Tento aceitar as pessoas como elas são. Tento festejar o facto de acordar todas as manhãs. E tento viver num mundo em que as pessoas mais calmas ganham todas as discussões."