Eric H Cline - 1177 A.C. O ano em que a civilização colapsou
Que bela surpresa. Bela pela forma elegante, rigorosa e bem fundamentada com que está escrito. Ao longo de todo o texto não encontramos nenhum indício de “distorção histórica”. Aqueles que entendem que por não haver uma história, mas diversas, dependendo de quem as conta, habitualmente têm a tentação de interpretar factos de acordo com o que veem como mais adequado. Eric Cline, não sei se alguma vez motivado por estas tentações, mas, tentado ou não, apresenta-nos um texto credível, e não é demais afirmá-lo, muitíssimo bem documentado e referenciado.
E uma surpresa porque não fazia a menor ideia de que podia ter sido assim. A ideia que tinha desse mediterrânio oriental, era a de uma mundo sempre dominado por alguém. Primeiro Assírios e Babilónios, sendo estes mais tarde substituídos primeiro por Hititas e Egípcios depois. Terminado o domínio destes últimos, a “civilização” ter-se-ia deslocado para o norte do mediterrâneo. Primeiro para Creta e depois para a Grécia, o berço da civilização e da democracia. Quando há 10 anos me sentei no palácio de Knossos, enquanto me maravilhei com aqueles frescos foi assim que vi a história. Estava errado!
Habitualmente folheamos livros de história antiga e passamos de uma civilização para outra apenas com um virar de página, um iniciar de um novo capítulo. Mas a realidade não é essa. A ilusão que a distancia nos instiga é de que ontem era, e hoje já não é. Mas nunca acontece assim. Não há a magia da noite e entre o ser e o não ser decorrem centenas ou milhares de anos que os livros de história usualmente apenas descritos com um virar de página.
Eric Cline teve esse mérito, fez-me refletir no “lento continuum” da história e de que forma este rio se pode modelar a si mesmo, umas vezes contornando obstáculos, outras vezes eliminando-os, mas desenhando sempre as margens por onde fluir. Para os actores do presente, o futuro como um destino tem sempre um trilho incerto.
Surpresa ainda porque me revelou um mediterrânio oriental do 3º e 2º milénio A.C. fervilhante em civilizações (Egípcia, Hitita, Micénica, Cretense, Cipriota, Babilónia, Cassita, Levante, etc), dominadas por cidades com uma organização sociopolítica própria, que numa teia de cumplicidades, umas vezes cooperavam entre si, outras numa rivalidade mais ou menos bélica, nas quais modelavam o futuro e as cumplicidades entre si. Nada muito diferente do mundo de hoje onde o comercio é o cimento agregador de múltiplas “civilizações”, um cimento cuja resistência é tantas vezes testada por ambições de líderes, oligarcas, plutocratas, por questões identitárias ou outras resultantes imponderáveis ambientais ou resultantes de crescimentos populacionais ou outros, todos eles incomportáveis. Acontece agora, acontecia então há mais de 4000 anos.
Nesse mundo, nesse tempo, nesse mediterrânio oriental a vida parecia boa, as pessoas eram felizes. Tinham problemas, e quando há registos destes, vemos que as preocupações dessas gentes desse mundo antigo, desde a Grécia ocidental até ao golfo pérsico, não diferem muito das que nos atormentam nos nossos dias. As relações familiares, diplomáticas, a fome, a segurança, o controlo do povo e a preservação da sua “felicidade”/”acomodação” eram preocupações de então e são preocupações de hoje. E se imaginamos que o são de hoje poderia, e que o autor poderia ter sido tentado a transpô-las para o passado, é com satisfação que verificamos que Eric Cline se apoiou em provas inequívocas, demonstrando com as mesmas que os valores de então não diferiam muito dos de hoje. E essa para mim foi a grande surpresa do livro.
Mas esse mundo tão rico e complexo, repleto de ligações e dependências, tão autossuficiente, porque colapsou no ano de 1177 A.C.? Nesta questão, Eric Cline é bem claro, simplesmente desconhecemos.
Várias são as causas apontadas, mas ao que parece, o mais certo é não haver uma causa única, nem uma data ou um evento que possa ser assumido como data a celebrar ou recordar.
De forma muito inteligente E. Cline transporta-nos para o comportamento dos sistemas complexos, que por definição, quanto mais complexos, maior a sua susceptibilidade ao colapso.
Vivia então o mediterrânio oriental um tal grau de complexidade cujas interdependias lhe coartou a resiliência necessária para resistir ao evento(s) que entretanto ocorram. Mas que evento(s). Ao certo não sabemos. Eventualmente foram não um mas uma sucessão deles, que agindo ao longo de décadas e que terminaram em 1177 A.C., quando Ramsés III derrotou no Levante os povos, ou massas migrantes invasoras, mas cujas consequências se continuaram a manifestar no séculos seguintes até à emergência de civilização grega.
Mas que povos eram esses? Igualmente a resposta é, não sabemos. Pensa o autor, e há alguma evidencias disso que poderiam ser povos originários do mediterrânio ocidental, de áreas que vão desde o sul da península ibérica até à costa adriática.
Mais recentemente, e num outro livro, “O Princípio de Tudo” de David Graber, curiosamente encontrei referencias a mega agregados populacionais que se desenvolveram durante o fim do neolítico e a idade do cobre, Nebelivka, Ucrânia nas margens do Dniepre e Taljanky na actual moldávia, agregados populacionais que terão sido habitados até ao sec. XII A.C., altura em que foram abandonados sem uma razão aparente.
Talvez nesse século se tenha assistido a migrações de populações que por motivos climatéricos – seca e redução da produção agrícola ou dos recursos usados enquanto recolectores (mega agregados na europa central); fome – redução das produções agrícolas, ou dos recursos naturais alimentares; por outras alterações ambientais – terramotos, erupções vulcânicas; por pressão demográfica; por pressão de outros povos invasores; ou outras, talvez por qualquer um destes motivos, ou mais provavelmente por combinação dos mesmos, talvez por uma destas razões ao longo do século XII A.C. se tenha assistido a um fluxo migratório que pôs em risco as complexas interligações e dependências das civilizações desse mediterrânio oriental.