A princípio, esse romance parece tratar de amor e desejo – de um poeta que se derrama sobre sua musa em busca de obtê-la e de uma musa que assume seu desejo na ausência do poeta. No entanto, a Literatura visceral de Evandro Affonso Ferreira acontece nas entrelinhas, quando a linguagem – que parece submeter-se às demandas internas das personagens – vai se desvelando, pouco a pouco, para exibir-se nua como verdadeira amante da narrativa. É a palavra a grande personagem desse romance.
No início, ela assume um caráter lírico e romântico para, ao longo da obra, flertar com a aridez e o niilismo. Em determinado momento, percebe-se que não são mais as personagens que se servem das palavras para falar de amor, mas o contrário: o ethos da linguagem funda os caminhos amorosos a partir de seus parâmetros, numa vertigem que domina tanto o poeta quanto a musa. Nesse sentido, é a argamassa da prosa poética refinada do autor que faz poeta e musa virarem uma só personagem e amarem-se em tecitura fictícia.
Moça quase-viva enrodilhada numa amoreira quase-morta é linguagem-demiurgo do amor e do desejo. Nas reentrâncias das palavras, os amantes se encontram, se despem, se amam, clamam a redenção de suas inquietudes, vicejam a vida como ela poderia ter sido. Então o amor transcende por meio do afeto e da metafísica da linguagem construída com maestria por Evandro.
Nascido em Minas Gerais, em 1945, e radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia) ao lado de Osman Lins, Dalton Trevisan, Samuel Rawet, Hilda Hilst, José J. Veiga, João Antonio e Sérgio Santana – organizada por Alcir Pécora. Tem cinco livros publicados: Grogotó! (Topbooks), Araã! (Hedra), Erefuê, Zaratempô! e Catrâmbias! (Editora 34).