É sexta-feira à noite: Mônica está se arrumando para um evento importante da empresa onde trabalha e acaba de descobrir que seu marido foi flagrado se masturbando dentro de um ônibus. Ela está em choque, mas, ainda assim, não consegue sair de casa. Por quê? Escrito em fluxo de consciência, este livro mostra a tensão e os dilemas, os sentimentos ambivalentes e os medos, os desejos, tudo mais que pode surgir quando a sua vida é invadida de forma abrupta e insólita por uma ação brutal da pessoa em quem você mais confia.
Davi Boaventura (Salvador, 1986) é doutor em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e jornalista pela Universidade Federal da Bahia. Publicou "Talvez não tenha criança no céu" (Virgiliae, 2012), "Mônica vai jantar" (Dublinense, 2019), livro finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, AGES e Minuano, e "17 de abril" (Dublinense, 2021). Trabalha como tradução, fotografia e leitura crítica.
Um dos grandes riscos do fluxo de consciência - sobretudo em narrativas estruturadas inteiramente à égide deste registro - é ficar num espectro entre a monotonia e a confusão, afastando o leitor das suas páginas. Não é o caso de "Mônica vai Jantar", segundo romance do baiano Davi Boaventura.
Isso se dá, em parte, porque, em que pese a aparência radical desta prosa sem interrupções (são 90 páginas sem pausa para parágrafos ou qualquer sinal de pontuação), a narração se dá de forma tradicional, com um narrador em terceira pessoa muito nítido, que não nos deixa embarafustar no labirinto mental da protagonista sem nos situar muito bem temporal e espacialmente, com um olhar atento e sofisticado a tudo o que está ao redor.
Isso ocorre, também, em decorrência do ótimo estopim da trama: a descoberta de Mônica de que seu "marido namorado", o homem com quem se relaciona há três anos e que está do outro lado da parede (toda a ação ocorre enquanto a personagem se veste para o jantar do título), foi flagrado se masturbando numa linha de ônibus e escapou de uma tentativa de linchamento dos passageiros.
Enquanto se questiona sobre o comportamento abusivo do parceiro, Mônica avalia as repercussões daquele ato obsceno em sua relação, os novos significados impostos no cotidiano que a fez refém daquele homem com um subterrâneo psicológico ao qual ela começa a ter imprevisto acesso.
Salta aos olhos a percepção temporal de Boaventura, seu senso de ritmo e a maneira como transita junto com sua personagem pelo apartamento, articulando as conexões que nos levam ao mundo particular desta subgerente de uma loja de móveis cujo enlace emocional se dá na corda bamba entre o afeto e a necessidade de se estabelecer na vida - de ultrapassar um limiar entre a falta de limites da juventude e as responsabilidades da vida adulta.
A debacle psicológica de Mônica, próximo ao final do livro, talvez traia um pouco a construção vigorosa que o autor faz desta protagonista, conferindo um poder maior ao outro personagem, ora antagonista, ora coadjuvante da história. Mas o envolvimento do leitor é tal que talvez, a esta altura, já tenhamos nos vestido de Mônica e nos tornado um pouco ela: aderindo ao seu dilema, nos posicionando perante o luto por uma figura que se foi e deixou em seu lugar sua pior faceta.
Nesta novela com cerca de 90 páginas e sem qualquer sinal de pontuação acompanhamos as deambulações angustiadas de Mônica, a protagonista, tanto no seu apartamento quanto ao volante de um carro pelas ruas e avenidas de uma cidade brasileira. A trama é simples: enquanto Mônica se prepara para um jantar da sua empresa - Mônica é subgerente de uma franchise -, o seu «marido namorado» chega a casa com todo o corpo lacerado e coberto de hematomas, logo confessando ter sido apanhado em flagrante a masturbar-se num autocarro e levado uma sova dos restantes passageiros. Mônica fica chocada - quem é aquele homem? já se masturbou em público anteriormente? porquê? -, e é com dificuldade que toma banho, se veste e maquilha para ir a um jantar que é sucessivamente adiado e cujo local é também alterado ao ritmo das mensagens que recebe. Enquanto isso, a narrativa revela-nos alguns dos problemas que Mônica tem enfrentado e as suas interações com outras personagens, cujos nomes nunca são revelados, sendo antes apodadas de acordo com a sua função social: o «marido namorado», a «melhor amiga do trabalho», o «gerente regional machista de merda», etc.
Embora este livro tenha vindo a ser descrito como uma narrativa em fluxo de consciência, diria que esta não é a sua melhor definição, porquanto, ao invés de termos acesso direto aos pensamentos de Mônica, é-nos descrita uma série de ações que ela realiza e eventuais ideias desencadeadas pelas referidas ações, a que acedemos por intermédio de um narrador heterodiegético e omnisciente. Não lemos, por conseguinte, os pensamentos da protagonista a um nível consciente ou pré-consciente, mas diversas reflexões previamente concluídas e mais ou menos relacionadas com a ação do momento. Eu diria que é, na verdade, uma novela maximalista sem pontuação.
Apesar de acompanhar os dilemas de uma mulher aparentemente conformista e subjugada a todos os conceitos mainstream, capitalistas e consumistas da sociedade contemporânea, e não sendo uma das personagens tortuosas e proscritas da literatura que nos permite contemplar o mundo de uma perspetiva exterior e mais crítica, Davi Boaventura consegue imprimir um bom ritmo à história e concatenar as ideias e as ações de Mônica sem recorrer a um só sinal de pontuação o que diga-se em boa verdade não é inédito mas não deixa de ser um dos atrativos da narrativa e sem o qual esta perderia parte do seu interesse todavia o facto é que Boaventura sustenta esta narrativa breve com um bom uso de conectores e comprova que a literatura brasileira contemporânea tem nomes muito interessantes que há que manter debaixo de olho e este Mônica vai jantar lembrou-me também alguns dos melhores livros de Daniel Galera outro autor a acompanhar exceto o seu horrendo Cordilheira céus o que tinha Galera na cabeça quando escreveu esse livro porém o que interessa neste caso é que Mônica vai jantar é um ótimo livro que se lê num fôlego cuja leitura obviamente recomendo.
2.5 eu gostei muito do livro mas odiei a experiência de lê-lo por pelo menos METADE adorei o começo e adorei o final, mas no miolo ali da história me peguei fazendo leitura dinâmica
sem contar que se for pra experimentar uma crise de ansiedade é mais fácil eu parar de tomar remédio e ficar na minha própria cabeça
Já faz um tempo que vivi “a experiência Mônica vai jantar”. Foi coisa de uma única noite, enchi os pulmões de ar e pulei, um mergulho só, sem subir à superfície, da primeira à última página. Aliás, minto, subi uma vez: fiz uma pausa de alguns minutos para andar em círculos pela casa respirando fundo, levemente nauseada, a cabeça girando a mil por hora. Digo que é uma experiência porque é isso, um livro a ser experienciado com os 5 sentidos, a ser vivido com o corpo, e não só com a mente. Já li e ouvi muito sobre ele desde então, e algumas resenhas captaram perfeitamente os sentimentos e insights que tive durante a leitura, a sensação de que Mônica estava viva, pulsante, de que o mundo permaneceria em suspenso enquanto eu não conseguisse atravessar com ela até a borda, enquanto eu não a visse chegar em segurança do outro lado, enquanto eu não pudesse dizer: tá tudo bem. E talvez seja exatamente isso o que o livro veio dizer: a segurança não existe. Me lembro de ouvir numa resenha: “Mônica descobre que o marido estava se masturbando no ônibus enquanto ela está se arrumando pra um jantar de trabalho, e é só isso, não acontece mais nada”. E fiquei pensando: e no entanto acontece tudo. De fato, este não é um livro com uma trama elaborada e cheia de acontecimentos. Mas a trama de dentro, o emaranhado que é Mônica, o emaranhado que é a vida (a dela e a da gente) aqui do lado de dentro... não poderia haver complexidade maior. Não poderia haver experiência de leitura mais única. Como eu já disse uma vez anteriormente: a noite que passei com Mônica uma foi das mais intensas do meu ano até agora. Ainda que sem jantar.
Achei interessante como Davi escreveu este livro, sem pontuação. O sentimento de ansiedade e pânico que se instaura conforme a informação rodeia a cabeça de Mônica, enquanto se arruma para um jantar da empresa, é real até demais de como os ataques de ansiedade e paranóias vão se instaurando nas pessoas.
Os circuitos de pensamento faz a gente conhecer Mônica, detestar ainda mais seu marido-namorado (mais do que já destesta) e torcer para que ela realmente fique sozinha.
Ela tenta aceitar a situação. Ela tenta remediar, mas como contorna um relacionamento fadado ao fracasso quando uma pessoa é egoísta em te trair e causar dor?
Mônica nunca sai pra jantar. Quando decide, descobre que seu marido foi flagrado se masturbando no ônibus.
Esse é o retrato de um surto. Um livro psicologicamente desafiador, principalmente pra quem gosta e é acostumado com ordem e estrutura. Só que esse é exatamente o ponto: um surto não costuma ser guiado por ordem ou estrutura. Mônica vê a ordem da vida rotineira dela se despedaçar bem diante de seus olhos e, ao mesmo tempo em que ela sofre com isso, sua mente vaga desde bobagens pequenas, triviais e aleatórias, até a busca confusa e desesperada por uma estrutura caótica que (pelo menos durante a obra) é impossível de se alcançar. Normalmente esse não seria meu tipo de livro, porquê gosto de coisas mais lineares, mas foi definitivamente interessante sair da minha zona de conforto e até simpatizar e empatizar com a sensação de surto e falta de ar junto com a Mônica. Pra mim foi justamente confuso, angustiante e uma coisa de louco, o que retrata perfeitamente como ela se sentia, e como a vida pode ser em momentos inesperados. Em muitos momentos me senti quase como anestesiado, olhando as palavras indo, vindo e passando como se eu estivesse olhando uma maré oscilar do calmo ao caótico. Já em outros momentos, principalmente os momentos em que a protagonista estava na direção, me senti prendendo o fôlego, meio agitado e sem saber se ela ia chegar viva em seja lá fosse o destino que ela fosse por instinto. Acho que só consegui finalmente sentir paz quando Mônica se permitiu gritar e berrar, que é o que julgo que ela deveria ter feito desde o princípio pro fudido do marido namorado arrombado dela (e pro gerente regional machista de merda).
This entire review has been hidden because of spoilers.
Mônica não vai jantar. Gostei muito do livro, é uma leitura pequena mas extremamente difícil para novos leitores. Apesar de tudo, gostei como o livro simplesmente termina com um desfecho pequeno, inesperado, basicamente dizendo pra minha mente que "nem tudo na vida tem o desfecho bem delimitado", mesmo que nesse caso não tivesse situação ideal, onde a finalização traria apenas satisfação e bem estar para os personagens. Senti muita pena da Mônica, sua angustia e ansiedade coexistindo ao ao amalgama de sentimentos do passado que por mais que tivessem muito o que serem ditos e acrescentados a sua historia, não nos foram apresentados pois nós que somos intrusos na mente nela, e ela não precisava citar em sua totalidade as suas lembranças pois eram dela. Sinto que em um período ínfimo de tempo em que "conheci" a Mônica, estive me apegando a ela de maneira muito empática, em determinado momento da leitura temi pela sua saúde enquanto dirigia, e quis abraçar lá para dar a ela a liberdade de chorar com tranquilidade, como o término do livro ainda é recente, ainda sinto a angusta na boca do meu estômago, e acredito que de certa forma esse final, onde o marido namorado (o fudido, podemos chamar assim?) simplesmente foge, foi o melhor que poderia acontecer a ela que não teria que lidar com a morte dele e também o fato de denuncia-lo e lidar com a repressão social que ocorre, querendo ou não em situações assim. Deixo aqui meu adeus e boa sorte para a Mônica, assim como o autor, porque essa situação não deveria ser experienciada por ninguém. Muito obrigada ao clubenho pela aceitação a minha sugestão (fazendo dela a leitura #3).
This entire review has been hidden because of spoilers.
Experiência muito interessante já o sabia desde o começo pois sou suspeita a falar de não pontuação. Neste livro, Davi Boaventura usa deste recurso com muito resultado: as frases justapostas sem vírgulas nem pontos ajudam muito a dar a sensação de desespero e nos deixar com a cabeça tão aturdida quanto devia estar a da Mônica, ao descobrir que o marido-namorado foi pego se masturbando publicamente em um ônibus em pleno dia e depois espancado. Essa informação inicialmente absurda precisa ganhar lugar junto à normalidade da vida (ela se prepara para um jantar a trabalho), ainda junto de memórias que brotam à consciência (do próprio namoro, a mãe, a amiga, o chefe) e com a realidade em si (dirigir o carro, o caminho, o trânsito). O tempo todo eu pensando "Denuncia, Mônica, Presta queixa, para o bem de todas as mulheres. Por favor."
Uma mulher recebe a notícia de que o marido estava se masturbando dentro de um ônibus coletivo.
Enquanto se prepara para um jantar da empresa, ela precisa lidar com a notícia e com a presença incômoda do marido no recinto ao lado.
Engenhosamente narrado em um fluxo único, sem maiúsculas e pontuação, tudo é colocado em idas e vindas, em possibilidades e arrependimentos, entre sentimentos díspares, difusos e confusos. Ora o odeia, ora sente pena, ora acha que ama.
O contraste entre o homem que planejou viver e criar família ao outro que é flagrado em ato ignóbil. Como perdoar? Como conciliar?
Somos lançados nessa confusão, sem ritmo determinado, no frenético da ausência de pausas e de linearidade.
Davi Boaventura desenvolve uma narrativa vertiginosa ao abordar uma cena cotidiana banal: a personagem Mônica se arruma para um jantar de negócios. Mas neste tempo comprimido, que corresponde a poucos minutos, ou poucas horas, a consciência de Mônica nos faz sentir as mais variadas emoções, algumas conflitantes, como medo e alívio, raiva e amor, desespero e calmaria. Ponto para o autor que num texto de um parágrafo só conduz a narrativa com surpreendente fôlego, sem deixar que o interesse do leitor se dissipe. Para quem lê parece fácil. Mas só um autor experiente consegue trabalhar esta excelente habilidade.
Foi muito dificil ler esse livro, pois nao ha pontuacao. Eu sei que o autor estava tentando ser criativo e criar um novo estilo. Pode ser muito interessante para muitos...nao para mim.
que delícia esse fluxo de consciência continuo e surpreendente que tira o fôlego de tão envolvente. um grande parágrafo de 90 páginas que faz a gente se sentir tão próximo da personagem que nossos pensamentos se compartillham e já não se sabe mais o que é lido do que é pensado.
Mônica descobre que seu marido foi flagrado se masturbando num ônibus. Quando fiquei sabendo dessa premissa tão forte e instigante, lembro de ter entrado em devaneios sobre dilemas éticos e afetivos que se enredam na intimidade dos relacionamentos. Quando finalmente peguei o livro e comecei a lê-lo, porém, fui surpreendida.
Não digo que o li de um fôlego só porque precisei parar para respirar, me alongar e tomar água em alguns momentos. Mas o li de alguns fôlegos. "Um pouco como Mônica", pensei. Esse furacão emocional de noventa páginas narradas como um grande monólogo, sem qualquer pontuação que indique uma pausa – para o leitor e para Mônica –, dá conta do tumulto do estado mental da personagem, mas o mais surpreendente é que ela nunca deixa de ser alguém que precisa lidar com o choque. E o choque, no fundo, é o oposto desse frenesi linguístico: é um coração silenciado, de sentimentos enevoados, que tenta se proteger da dor.
Sob o intenso fluxo de consciência que se desenrola da primeira à última página, há uma mulher inapreensível, talvez até para si própria. Afinal, se a pessoa mais próxima de nós deixa de ser quem pensávamos que ela era, será que também deixamos de ser quem pensávamos que éramos? Perguntas como essa não podem ser respondidas após o choque. Nesse momento, resta a Mônica a confrontação inescapável com o instante seguinte e com a realidade material, sobretudo com uma casa que também se tornou estrangeira para ela. .
Esses paradoxos entre a experiência de Mônica e o texto enriquecem ainda mais uma leitura que, apesar da forma, é leve e fluida pela linguagem, mas também visceral, de levar o corpo junto. Tudo isso demonstra a grande habilidade narrativa e estilística do autor. Acaba por ser revigorante o fato de a narração em momento algum se afastar de Mônica para dar lugar a teses sobre o amor – ou, pior, forçar reflexões desse tipo na voz dela. Virei cada página pela ânsia de conhecer Mônica melhor, sabendo, porém, que se isso pudesse se concretizar a ânsia não seria tão intensa quanto foi.
Excelente livro de Davi Boaventura. É uma leitura muito diferente de qualquer outra, e não apenas pela falta completa de pontuação, mas pelo ritmo alucinante através do qual somos lançados para acompanhar a angústia de Mônica. Termino com vontade de ler novamente.
A protagonista se vê num grande dilema quando descobre que o marido é um assediador.
Fica então reflexão: embora conheçamos as pessoas há muitos anos, nunca as conhecemos por inteiro.
Fica também o dilema: o que fazer nesta situação? Denunciar? Fugir? Brigar? Fingir que não aconteceu, acreditar que é uma espécie de brincadeira de mau gosto?
O autor escreve sem utilizar nenhuma pontuação, nem letra maiúscula, tudo em parágrafo único; acredito que para dar ao leitor a sensação de confusão na qual se encontra a cabeça da personagem. Para termos noção do caos que estava a mente da protagonista.
Mônica descobre esta face do marido e tem um jantar de trabalho ao qual precisa ir. Ela está se preparando para ir ao compromisso, mas fica as voltas com pensamentos e lembranças ruins sobre seus relacionamentos, sobre sua família - principalmente sua mãe -, sobre o trabalho, sobre amigos. Pensamentos que vem e vão, que são interrompidos ao meio e substituídos por outro totalmente aleatório.
A confissão do marido a coloca num estado de total confusão mental e o leitor fica naquela agonia de saber qual decisão ela vai tomar, o que faria no lugar dela. O enredo causa aflição e agonia e creio que esta era a intenção do escritor.
Reconheço que a premissa é interessante e diferente de tudo que li até agora, reconheço que o autor imprimiu bem o caos mental no qual a personagem se encontrava, porém o livro não funcionou para mim.
Fiquei irritada com a protagonista, não via a hora de acabar a leitura e só terminei porque queria ver como a história terminaria. Me decepcionei com o final.
O livro é bem curto e o fato de não ter nenhuma pontuação deixa o ritmo de leitura por conta do leitor, que decide como será o tom.
Como sempre digo quando não tenho uma experiência de leitura agradável: essa é a minha experiência e recomendo que você leia para tirar suas próprias conclusões.
Quando comecei a ler "Mônica Vai Jantar" e me deparei com aquele texto sem pontos, vírgulas ou demarcação de parágrafos, confesso que torci de leve o nariz. Fiquei com a impressão de que o livro era mais um exercício estilístico do autor do que qualquer outra coisa. Agora, finalizada a leitura, posso afirmar, satisfeito, que minha impressão estava errada.
A premissa é simples: Mônica está se arrumando para ir a um jantar de fim de ano da empresa em que trabalha, quando recebe a notícia de que seu marido foi pego se masturbando publicamente em um ônibus, escapando por pouco de um linchamento. A história é apresentada em um fluxo de consciência da protagonista, a partir dos minutos seguintes em que teve conhecimento da bizarra notícia.
E aqui entra o brilho da literatura de Davi, pois a sucessão de atos e pensamentos desordenados de Mônica refletem com muito verossimilhança a confusão mental que deve tomar conta de uma pessoa que, de uma hora para outra, tem sua vida virada do avesso, de maneira tão inusitada. A angústia e a mistura de atitudes racionais com outras completamente sem sentido fazem o leitor mergulhar na ansiedade e falta de rumo de Mônica.
É livro para ler preferencialmente numa sentada, pois não há pausas, capítulos. No fim, por absoluta falta de tempo, tive que quebrar a leitura em dois dias. O fato de a novela ter apenas noventa páginas ajuda a não tornar o fluxo de consciência cansativo. Inquietante e interessante leitura.
O livro parte de uma premissa interessante, mas não me conquistou. Devo dizer que não o li, escutei o audio pela narração de Julia Ianina e inicialmente estranhei a leitura num fôlego só (aliás um desafio e tanto para narradora). Somente depois soube da escrita sem pontuação, a desvantagem de não se ter o texto em mãos...
A estrutura e o fluxo-enxurrada de consciência causam o efeito desejado de vertigem. As reflexões/emoções se atropelam e até certo ponto levantam questões interessantes dos relacionamentos em crise. Tentamos achar culpados, julgamos comportamentos, nos assustamos com a pessoa que achávamos que conhecíamos.
Mas a trama não desenvolve possíveis discussões que levanta (como machismo, por exemplo) e senti falta de uma epifania pra encerrar (vai ver fiquei mal acostumado porque li Clarice faz pouco tempo rs).
Depois do jantar Mônica deve ir pra terapia. Claro, o marido-namorado tamb��m. Ta bom, todos nós. Não podemos sempre esperar que as pessoas reconheçam seus erros e peçam desculpas, nos abracem e digam que nos amam. Nós não fomos ensinados e falar abertamente sobre isso, Mônica. Não se cobre tanto.
Quando eu ouço falar de narrativa com ritmo, quase que invariavelmente penso em prosa poética, o que não me agrada. Mas neste livro temos um ritmo que nao se pretende poético, e que se justifica numa mente acelerada e errante, perdida entre os naturais pensamentos frenéticos que acometem alguém em choque, pressionada entre uma situação limite e um compromisso profissional inadiável. O ritmo é tal, e tão acelerado, que eu li o livro em algo como 3h, geralmente em intervalos curtos, e tinha uma dificuldade gigante de parar de ler, sentindo como tentasse sair de um carro em alta velocidade numa via expressa, para utilizar uma bela imagem do livro. A falta de pontuação poderia ser um defeito, mas é um grande trunfo, responsável por esse ritmo quase inquebrável, que torna a leitura ao mesmo tempo agradável, profunda, e febril.
"Mônica vai jantar" é um livro curto, porém extenso, no qual deve ser lido em uma tacada só.
A princípio, estranhei a falta de pontuação e fui procurar no Google se estava correto, e para a minha surpresa, estava. A proposta é que a leitura seja rápida, dramática e até mesmo confusa em alguns pontos, de maneira que se assemelha aos pensamentos da personagem durante a narrativa.
Genioso, interessante e até mesmo um pouco desconcertante, considerando os eventos que levaram a protagonista até ali, Davi Boaventura faz um ótimo relato de uma mente perturbada de mulher confusa e desesperada, deixando até mesmo o leitor de certa forma incomodado e intrigado, instigando cada vez mais a leitura, ao mesmo tempo sem saber como chegar ao fim.
Este é um livro que nos faz questionar se é possível conhecer alguém de verdade e, mais do que isso, se é desejável conhecer alguém de verdade.? Com uma escrita precisa e evocativa, o autor nos apresenta Monica, uma protagonista complexa e multifacetada, cuja jornada introspectiva nos leva a questionar o que significa viver, lembrar e amar. Este romance é uma reflexão profunda sobre a condição humana, convidando o leitor a se perder nas entrelinhas da história e se encontrar nas emoções e pensamentos que ela desperta. Uma leitura recomendada para quem busca uma literatura que toque o coração e faça refletir.
Dois pontos pela excelente e genial técnica de fluxo de pensamento sem NENHUMA interrupção até o fim e ainda fazendo uma história andar com reflexões e ações. Mas perde pontos por retratar em 90 páginas a crise de uma mulher cujo namorado marido foi pego se masturbando em um ônibus e em momento nenhum cruza a cabeça dela o nojo, a traição, o entendimento do abuso sexual que isso é e que toda mulher sabe. Claramente escrito por um homem que acha que sabe quais pensamentos irão dominar a mente de uma mulher nesse estado de crise e peca pensando como homem, não entendendo a empatia à vulnerabilidade.
muito interessante, me prendeu no início, mas foi me perdendo ao longo da trama
fluxo de pensamentos maravilhoso
triste que ela termina sem meter um tapa nele
“simultaneamente, sente tanto medo e nojo quanto apego e interesse, quando antes ela nem precisava classificar nesses termos, pois antes ele era ele, e sendo ele era o bastante para essa mulher”
“pois ele não é um monstro, e ela não ama um monstro”
“é desesperador demais admitir quando a suposta pessoa normal com quem você convive pode ser incontrolável, falsa, perversa ou mesmo criminosa”
This entire review has been hidden because of spoilers.
The news that her husband was caught masturbating in public has ruined Monica's marriage. She is a tornado of agonies and fears, humiliated by a loveless marriage.
To elaborate a stifling and disorienting narrative, the author employs the literary style known as "stream of consciousness." The lack of punctuation speeds up the reading, emphasizing the main character's trauma. However, I was not hooked by the plot.