Tatiana Salem Levy idealiza e reconstrói suas raízes e sua identidade por meio de uma trama autoficcional fragmentada, em que quatro narrativas se entrelaçam. Um jovem turco de família judia, nascido em Esmirna, imigra para o Brasil em meados da primeira metade do século XX, trazendo consigo motivos dolorosos, mas também garra e desejo de vencer no novo país. Após décadas longe da terra natal, ele entrega à neta a chave da casa onde passou a infância e adolescência, atribuindo a ela a missão de regressar à Turquia, em busca da casa e da história familiar. A chave de casa foi indicada ao Jabuti e venceu o prêmio São Paulo de Literatura em 2008, um ano após a sua publicação.
Tanto Tatiana quanto sua personagem nasceram em Lisboa, em 1979, no exílio dos pais durante a ditadura militar brasileira. A protagonista, cujo nome em momento algum nos é revelado, sofre e está paralisada em cima de uma cama ao receber a missão do avô. A perda da mãe, o relacionamento abusivo em que havia se envolvido no passado, os problemas com a própria saúde, somados ao peso que ela crê carregar nos ombros graças à herança familiar, causam nela essa imobilidade. Aceitar a missão e arriscar-se é sair desse estado de imobilidade.
Os diversos fragmentos que estruturam a narrativa resgatam a memória de três gerações. O leitor é guiado tanto pela voz da protagonista, que se permite inventar e recriar esta memória, quanto pela voz de sua mãe, que, já morta, mantêm uma espécie de diálogo com ela. Nestas conversas, a mãe questiona a filha a respeito de sua percepção triste e dolorosa do passado da família Tember: “Por que levar tudo para o lado da dor? Por que sempre assim, desde pequena? A história do seu avô não é feita só de perdas. Essa história que você conta também tem outras histórias” (pág. 64).
As personagens femininas de Tatiana me parecem ter um destaque especial nessa obra. Diversas delas surgem e desaparecem no decorrer do texto, sempre deixando suas intensas marcas e vestígios. Rosa, a paixão impossível do avô, é um exemplo, assim como a misteriosa mulher com quem a protagonista troca intensos olhares no seu primeiro banho turco em Istambul. Gosto da atenção que a autora dá as personagens femininas, em especial à relação mãe e filha. Minhas últimas leituras, como Formas de voltar para casa de Alejandro Zambra, Uma duas de Eliane Brum, Demian de Herman Hesse evidenciam relações conflituosas de mãe-filho (a), o oposto do que encontrei em A chave de casa. É fortificante “sentir” o desejo de mãe e filha de manterem-se unidas, mesmo em momentos de adversidades torturantes: “Não vou dizer que não sofri, seria mentira. Mas também vivi naquele hospital a alegria mais profunda. Nós duas fechadas no mesmo quarto durante duas semanas, eu nunca tinha sentido amor tão à superfície” (pág. 78).
A viagem de regresso à Turquia e, posteriormente, seu reencontro com Portugal tornam-se um retorno ao self, ao interno: “nasci no exílio. Em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa por ser judia. Em Portugal, que acolheu meus pais, expulsos do Brasil por serem comunistas. Demos a volta, fechamos o ciclo: de Portugal para Turquia, da Turquia para o Brasil, do Brasil novamente a Portugal”. O ciclo possibilita à protagonista (e talvez à autora) a ressignificação do passado e da herança familiar.
Diversos pontos me agradaram na narrativa da Tatiana Salem. Inicialmente destaco a força do título que vai ao encontro da lenda portuguesa que inspirou fortemente o enredo. Essa lenda, que sobrevive há séculos, conta sobre a perseguição que os judeus sofriam da Inquisição, na Idade Média. Impedidos de permanecerem em suas casas, os judeus perseguidos fugiam levando consigo as chaves de casa, com a esperança de um dia retornarem à sua terra e solicitarem a posse do que lhes pertencia. O tio-avô da autora também passou por essa situação, inspirando-a.
Os personagens de Levy são descortinados aos poucos durante a leitura. Inicialmente, fiquei um tanto confuso com as vozes, fragmentos e lacunas do romance. Porém, à medida que avancei, percebi que a estrutura do texto foi muito bem elaborada e os fragmentos evidenciam descrições que se encaixam, facilitando a navegação pela trama. O mosaico individual, familiar e cultural criado pela autora segue uma temporalidade não-linear; ela nos leva do passado ao presente em três países: Turquia, Portugal e Brasil. A força da obra é evidenciada em diversas perspectivas. As que mais me agradaram foram: a estrutura desafiadora; a autoficção; a narrativa vagando do prazer a dor, da mobilidade à imobilidade; os temas como a busca da identidade, a relação amorosa abusiva, o exílio na ditadura, a imigração e a memória.