Quando os pirilampos surgem, ao cair da noite, não anunciam as trevas. Quando começa a ficar escuro, as luzes saltitam, aparecem e desaparecem, mudam de sítio, povoam o espaço e, iluminando o ponto em que se encontram, marcam a distância entre a claridade do crepúsculo e o escuro por vir. Assim fazem os conceitos, pirilampos num lusco-fusco que o pensamento atravessa. Rasgam o espaço, orientando-o aqui e ali, correndo livres, à procura uns dos outros, em conivência íntima inconsciente. A filosofia tenta ligá-los, entrando ao máximo na sua luz, ampliando-a, intensificando-a, traçando os melhores trajectos para se encontrarem. Abre caminhos, descobre atalhos de um a outro conceito e dentro de cada conceito. Às vezes tece uma rede vibrante de percursos. Do homem ao animal, da indiferença à inexistência de Deus, do destino à história, ou da máquina inteligente ao pensamento, inventam-se trajectos que, no meio do tumulto do mundo, lançam um facho de luz no escuro da noite.
José Gil (Muecate, Moçambique, 15 de junho de 1939) é um filósofo, ensaísta e professor universitário português.
Nascido em Muecate, Moçambique, estudou Matemática, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, antes de partir para França. Licenciou-se em Filosofia, pela Universidade de Paris, em 1968. Um ano depois obteve o grau de mestre com uma tese sobre a moral de Immanuel Kant. Iniciou a sua carreira como professor do ensino secundário.
José Gil foi considerado pelo semanário francês Le Nouvel Observateur, um dos 25 grandes pensadores do mundo.