Chabouté não tem muito erro.
Eu acho que já li tudo que foi publicado no Brasil e nunca li nada ruim, acho que o ponto mais alto é o Solitário que eu achei lindo, mas o resto não decepciona. Purgatório tem bem a cara do Chabouté, poucos diálogos, longas páginas desenhados num estilo mais de aquarela, detalhes e mais detalhes - as cartas amassadas na caixa de correio, as dobras de lençol na cama, o cinzeiro cheio de bituca de cigarro -, nada parece fora do lugar.
Benjamin Tartouche é um cara como qualquer um, ganhou uma casa de herança, fez um empréstimo para investir na propria carreira, fez um seguro para a casa; Benja tá naquele momento da vida, lá pelo fim dos 20 anos, em que todo mundo pensa #agoravai.
E aí fode tudo.
A casa pega fogo, o banco cancela o crédito, ele não tem família, o único amigo está no Canadá, ele não tem lenço, nem documento; ele se fode. Vai morar na rua, vira uma dessas pessoas invisíveis que caem pelos buracos da calçada e nunca mais voltam; até aí tá uma merda mesmo; então ele morre atropelado.
Ele se descobre no purgatório; ou ele pode ficar perambulando, ou ele pode pegar o elevador que vai pra baixo, ou ele pode descer a escada (a lindíssima ilustração da capa do livro) e virar uma consciência e tentar fazer alguém mudar de vida.
O elevador que vai pra cima não tá aberto para ele.
A maioria das reviews fala em redenção, eu não acho que esse é ponto, honestamente, nenhuma das atitudes que levam o Benja pro purgatório não são ruins; são inconsequentes, são egoístas, são censuráveis; mas não vejo a maldade pela maldade; como eu falei uma pessoa comum com todos os seus defeitos; o Benja poderia ser qualquer um de nós.
Acho que a grande leitura aqui é ver que o paraíso não é uma promessa divina, mas a vida que nós construímos; a vida acontece enquanto nós ficamos ocupados fazendo planos, então larga os planos e vai viver e lembra que sempre vai ter um pau no cu, mas tu não precisa ser o pau no cu.