Toda poesia reúne os dez livros de poemas de Ferreira Gullar, publicados ao longo de quase sessenta anos – de A luta corporal, de 1954, até Em alguma parte alguma, de 2010 –, tendo como base a edição revista pelo próprio poeta. No posfácio escrito especialmente para este volume, Antonio Cicero destaca a vasta dimensão da produção do autor de Poema sujo, que inclui "não apenas a beleza, mas a contingência, a precariedade, a banalidade, a feiura, a morte mesma que fazem parte essencial dessa experiência".
Com sua obra apaixonante, questionadora e combativa, Gullar se consagrou como um nome incontornável na poesia de língua portuguesa e no debate sobre literatura, artes e cultura do país.
Ferreira Gullar is the pen name for José Ribamar Ferreira, Brazilian poet, playwright, essayist, art critic, and television writer. In 1959 he formed the "Neo-Concretes" group of poets. Living in Chile, in 1975, Ferreira Gullar wrote his best known work, "Poema Sujo". He was exiled by the Brazilian dictatorial government that lasted from 1964 to 1985. The poem states that the persecution of the exiles was growing, many were being found dead, and, thinking hypothetically of his death, he decided to write his last poem. He spent months writing this poem with more than two thousand verses, which brings forth his memories of his childhood and adolescence in São Luís, Maranhão and the anguishes of being far from his land. Ferreira Gullar read the poem at Augusto Boal's house in Buenos Aires, in a meeting organized by Vinicius de Moraes. The reading, recorded on tape, became well known among Brazilian intellectuals, who tried to guarantee Gullar's return to Brazil in 1977, where he continued writing for newspapers and publishing books. He was considered one of the most influential Brazilians of the XX century by Época magazine. Gullar keeps a weekly column at Brazilian newspaper Folha de S.Paulo, publishing it every sunday.
É muito difícil e complicado ler trabalhos desse tipo, isto é, reunidos todos em um volume e você lê tudo de uma vez só, sem ter muito tempo ou muita preocupação em captar o espírito de cada trabalho em cada época. O mais importante é que a poesia tocou e isso é o mais importante na arte: a capacidade de tocar a gente.
“Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve.
Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração.
Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, menina branca de neve, me leve no esquecimento.
CANTIGA PARA NÃO MORRER
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“Não quero a poesia, o capricho do poema: quero reaver a manhã que virou lixo
quero a voz a tua a minha aberta no ar como fruta na casa fora da casa a voz dizendo coisas banais entre risos e ralhos na vertigem do dia; não a poesia o poema o discurso limpo onde a morte não grita
A mentira não me alimenta: alimentam-me as águas ainda que sujas rasas afogadas do velho poço hoje entulhado onde outrora sorrimos”