Na obra Verdes vales do fim do mundo, Antonio Bivar escreveu um relato biográfico da sua estada de um ano e uma semana na Europa. Residiu em Londres, onde conviveu outros nomes da cena cultural brasileira então exilados pela ditadura militar. O livro é um passeio na Europa da década de 60, refletindo os sonhos e aspirações dos jovens da época.
México, 1970, Brasil campeão do mundo. Pelé, herói terceiro mundista. Por aqui, o horror, horror do AI-5, auge da supressão dos direitos constitucionais, militares golpistas no poder, a ditadura no auge, comando de caça aos comunistas, polícia invadindo teatros, prisão sumária, desaparecimento de civis, a resposta de grupos armados, e o exílio, antes que fosse tarde, de intelectuais, cientistas e artistas. É nesse contexto, que o então, promissor e jovem dramaturgo Antônio Bivar (1939 - 2020) corre para o exílio na Inglaterra com apenas quatrocentas libras. Mesmo ano em que recebeu o prêmio francês Moliére de dramaturgia, com a peça "Cordelia Brasil", naturalmente, já conhecido das turmas de amigos de amigos, sem embaraço, foi se enturmando aos poucos, primeiro com os brasileiros, depois com os ingleses, e entregou, na construção deste notável diário bordo nômade, feito em dois anos, a imprescindível vibração anglo brasileira do que viria a ser os últimos suspiros sonhadores dos anos 60'. Em meio a esse olho do furacão, aos 30 anos de idade, para sua surpresa, teve seu passaporte renovado por informar a profissão de escritor. Afeito testemunha ocular da contracultura, nas ruas e cidades por onde passava, a leitura proporciona relatos sui generis de como os freaks, hippies e heads se portavam, usavam, falavam e se vestiam, ainda mais, por excelência, o próximo contato com poetas e músicos nacionais e internacionais que simbolizaram àquela época. Assim como, o andar pelas míticas paisagens naturais, envolto ao mistério místico do patrimônio histórico inglês. Por meio desta técnica narrativa de ação e repouso, o autor dosou bem o texto entre a intensidade cultural e a contemplação nativa. Filho geracional da cultura beat, suas descrições atestam com força o raro senso de fraternidade universal entre jovens estranhos daquela época, e esse é o ponto alto de sua escrita.
Para quem quiser viajar no showbusiness da época, o autor faz o levantamento de suas impressões dos dias do Festival da Ilha de Wight, cujo line up era, basicamente: Jimi Hendrix, Miles Davis, The Doors, The Who, Lighthouse, Ten Years After, Emerson, Lake & Palmer, Joni Mitchell, The Moody Blues, Melanie Safka, Donovan, Gilberto Gil, Free, Chicago, Richie Havens, John Sebastian, Leonard Cohen, Jethro Tull, Taste e Tiny Tim. Talvez, a mais interessante das impressões seria a de explicar como Gilberto Gil e Caetano, seus amigos brasileiros, conquistaram os promotores do evento, juntamente a Nik Turner, flautista e vocalista do Hawkwind, ao cantarem suas músicas, de improviso, acampados na plateia, sendo então, convidados para a apresentação do dia seguinte. A teatralidade do show marcou o festival, e por recusa dos empresários, a banda não assinou nenhum contrato, ou agenda possível. O espetáculo improvisado de canções tropicalistas coincidia com uma cena digna do Teatro Oficina, visto que, na fantasia gigante de uma centopéia, cujas pernas eram os próprios atores, que espontaneamente, aos agradecimentos, saíram da fantasia totalmente pelados, cheios de pudor. As outras bandas também mereceram o devido apreço, mas ele já sentia, que na apresentação, tanto do The Doors, quanto do Jimi Hendrix, algo daquele sonho, naquele momento se apagava, em poucos meses, Jim Morrison, líder do The Doors, Janis Joplin, vocalista da Big Brother & The Holding Co., e o próprio Jimi Hendrix morreram. Outros registros importantes, a demolição pública da divisória dos privilegiados; a desigualdade social nos modos de acampar; o sexo livre; o uso indiscriminado de drogas, e o fato inusitado de todos os banheiros químicos serem abertos, que por conta da ideologia libertária da época, atingiu-se o extremo de se ver homens e mulheres fazendo suas necessidades ao ar livre.
Há menções riquíssimas sobre sua ida a teatros e cinemas ingleses, como também, sua viagem paga pelo diretor de teatro Antônio Abujamra, a quem lhe fez companhia a espetáculos do teatro off-broadway novaiorquino. A pedido deste, para fins cênicos, ampliou o texto da sua peça "Alzira Power". Por lá viveu, também, de favor, no apartamento cedido a Jorge Mautner por algum ricasso paraplégico que estava de viagem. E uma brevíssima estadia no icônico Chelsea Hotel. Com o final de ano garantido pela compra dos direitos autorais de Abujamra para a montagem do espetáculo "Alzira Power", em curta temporada, na cidade do Rio de Janeiro. Numa incisiva solidão, passa o reveillon na melancólica Dublin, Irlanda, e decide, então, ficar alguns meses na Inglaterra, e curtir sua estadia final em Paris.Ao longo do livro é possível acompanhar as tentativas experimentais da escrita criativa do autor empenhado em escrever uma peça com o seu amigo e colega de quarto, igualmente premiado, José Vicente. Com algumas dificuldades, em meio a contratempos, e andanças, a infeliz desistência desse projeto. Contudo, nas esquetes desses pequenos textos bivarianos, nota-se, em sua estilística, uma dramaturgia mesclada de cultura pop, contracultura, absurdo e existencialismo. Ademais, no pósfacio, o autor reforça que estes foram os melhores anos vividos de toda a sua vida. Posteriormente, visitou a Inglaterra, por onde relatou o nascimento da cena punk, deu palestras, tornou-se membro emérito da sociedade Virgínia Woolf, e o que não podia faltar, visitou seus solidários amigos nacionais e estrangeiros, se não fossem por eles, e o espírito do tempo, provavelmente, teria se tornado um mendigo. Mas agora, esse mesmo Antônio Bivar, que outrora veio a óbito pela covid-19, certamente está em terras de leituras supra celestes, a salvo dos skinheads, das batidas policiais, e de recorrer à magia da seleção brasileira. Pois, segundo o próprio escritor, "A loucura é o Sol que não deixa o juízo apodrecer".
Verdes vales do fim do mundo. Mais um livro que comprei pela capa, quando comecei, não tinha ideia de sobre o que era. Uma viagem de exílio da ditadura militar do Brasil, que foi maravilhosa pelas palavras do Bivar. Chega a dar uma inveja branca de não ter vivido a época dos anos 70 na Europa, os festivais, as amizades ‘hippies’, o fácil encontro com clássicos da música brasileira como Caetano e Gil. Livro leve e gostoso de se ler, de se colocar no lugar do Bivar durante 1 ano na Inglaterra, vivendo na maior simplicidade, fumando haxixe pra caramba, vendo festivais, e conhecendo muita coisa.
Na verdade, queria dar quatro estrelas e meia - e para o livro novo do Bivar, Mundo adentro vida afora, quarto volume de memórias, que conta, com elegância e humor da sua vida desde o nascimento até os trinta, quando já era o dramaturgo premiado e famoso de Alzira Power e Cordélia Brasil e se preparava para o exílio depois de muita pressão da ditadura