Um belo dia, Simon um empregado de escritório parisiense, abandona a mulher, o filho, a casa, o emprego e a sua cidade, para partir numa viagem por França, à procura de si próprio. Uma viagem poética, contada pelo traço sensual do autor.
Edmond Baudoin is an artist, illustrator, and writer of sequential art and graphic novels. Baudoin left school at the age of 16 and went into military service. He later worked as an accountant at the Palace de Nice (L’Hôtel Plaza). At 33, he left the accountant trade to pursue drawing. Baudoin was an art professor from 1999 to 2003 at the University of Quebec
O traço é elegante e original, mas já não há paciência para homens feitos que largam a família para se procurarem a si mesmos, o que quer que isso signifique.
“A Viagem” (1987), terceira publicação da “Novela Gráfica” do jornal “Público”, do francês Edmond Baudoin, que aos 33 anos decide abandonar o seu trabalho de contabilista num hotel de Nice para se dedicar exclusivamente à sua grande paixão: a banda desenhada. Num registo claramente autobiográfico, Simon, o alter-ego de Edmond Baudoin, decide abandonar a mulher e o filho, o rotineiro emprego parisiense e a sua cidade, empreendendo uma viagem, sem destino… Uma viagem que é, simultaneamente, uma fuga e um reencontro, com as vivências genuínas de um dia-a-dia, feito da simplicidade da descoberta e de recomeçar a aprendizagem dos prazeres da vida e do amor. Até que o desejo de regressar surge, após a constatação que a sua casa “já não era a sua casa” (Pág. 211) e que a viagem tinha terminado, “Digamos que terminei talvez uma etapa. – A viagem só termina com a morte…”. (Pág. 212) “O que é que aprendeste na tua viagem? Que atravessar a Terra de um pólo ao outro ou dar a volta à sua aldeia é a mesma viagem. É apenas uma questão de olhar.” (Pág. 214) Uma história a preto e branco, visualmente deslumbrante…
Não conhecia este autor. E provavelmente se não tivesse sido uma oferta que veio com outra GN provavelmente não iria conhecer tão depressa. De forma geral gostei. O traço é bastante original, embora por vezes algo confuso. A história é interessante, um dia Simon deixa a mulher, o filho, a casa e o trabalho e faz uma viagem à procura de si próprio. O que daí surge é por vezes poético mas ao mesmo tempo acontece rápido demais. Talvez esta história merecesse um maior desenvolvimento. Não é um estilo de GN que agrade facilmente mas nada como experimentar.
A viagem é desenhada num traço rápido e sem limitações. As vinhetas estão carregadas de nuances a preto e branco O texto é dispensável em muitas delas. Formidável!
O traço não é o dos meus favoritos, até acho que é algo descuidado, mas, por outro lado, gostei bastante da forma quase surrealista que combina bastante com a história, faz com que não sejam precisas falas que expliquem o que está a acontecer na cabeça do protagonista. Não sei se a Viagem será verdadeira, se uma alucinação, se um sonho bastante lúcido (talvez apostasse no último), mas gostei do enredo, mesmo que um pouco maluco, às vezes sem conseguir encontrar grande sentido para ele. No final, obtemos a satisfação de uma viagem que cumpriu o seu propósito, sair da rotina, ver coisas novas, conhecer novas pessoas, conviver somente com os nossos próprios sentimentos e desejos, ser egoísta e concentrarmo-nos exclusivamente em nós, por vezes tem a sua utilidade. Ao sair da caixa, conseguimos ver a caixa, e até pode ser que conseguimos nos reconciliar com ela, para depois a mudar um pouco de sítio, fazer com que tudo se encaixe novamente.
Poesia em desenho. Um livro maravilhoso com uma estória simples, mas com uma criatividade no desenho que desenvolve completamente a novela gráfica. Uma viagem que muitos queriam fazer, mas não têm coragem para o fazer. A fuga à claustrofobia e o renascimento noutros locais do mundo, outras pessoas, os medos, os pesadelos, o Amor, o desejo. Muito bem escrito e desenhado. Uma obra-prima. A viagem está em nós, qualquer que seja o caminho feito fisicamente.
Um livro que se lê de um fôlego, quer pela expressividade do traço de Baudoin, quer pelo minimalismo do texto (aspecto que está seguramente associado ao facto de esta obra ter sido originalmente pensada para o mercado japonês). A Viagem é uma espécie de Odisseia moderna, na qual o protagonista se vê afastado do seu lar - neste caso voluntariamente, separando-o das aventuras mediterrânicas de Ulisses - e vagueia pelo sul de França, em busca de si mesmo, por vezes perdendo-se, por vezes achando-se. Uma pequena maravilha com cerca de 200 páginas que temos finalmente a sorte de ler em português.
Diria que é um anseio comum. Não se trata do simples fugir à rotina, mas partir para se encontrar a si próprio enquanto se deambula à descoberta pelo mundo. É o que faz o singular apático protagonista deste romance gráfico. A sua única acção decisiva é fugir às opressivas gaiolas mundanas e num impulso apanhar um comboio para algures. A partir daí segue em deriva, ao sabor de acontecimentos e impulsos. Vai-se descobrindo a si próprio a cada novo dia, enquanto vagueia por entre cidades, se apaixona e descobre amizades. Uma vontade que todos sentimos, a espelhar um pouco da biografia do autor.
Se a história é um hino à busca de si próprio e ao gosto pela deriva à descoberta do mundo, não deixa de ter o seu quê de ingénua. Nem todos os que partem encontram amigos de espírito semelhante com veleiros ou chalets na Sabóia. Nos tempos que correm tem sido mais barcos decrépitos e apinhados a afundar-se no mediterrâneo. O romantismo da viagem idealizada coaduna-se pouco com a realidade brutal, o que não invalida a beleza do romance. Afinal, quantos de nós não sonham, e o tentam concretizar com curtas fugas em tempos de férias, ou com mil e uma formas de combater a alienação trazida pela modernidade? Se o fazemos ou sentimos necessidade de o fazer é porque somos humanos.
Visualmente este é um livro deslumbrante. O traço de Baudoin afasta-se do realismo da banda desenhada, entrando num campo mais pictórico onde as vinhetas funcionam como quadros. Algumas, pelos enquadramentos e dimensões, remetem para a agora clássica pintura romântica e impressionista francesa, mas o traço do autor ganha mais vida em registos fortemente expressionistas que nalguns casos chegam a tocar a abstração. E funciona. Este é um daqueles livros de bd em que se percebe a força dos enquadramentos e da sequenciação visual para nos contar uma história muito para além da narração verbal. Sente-se, logo desde as primeiras pranchas, que a leitura passa mais pela imagem do que pelo texto, que compreendemos o personagem e os seus anseios através da linguagem visual. Nesta vertente há nesta obra momentos de cair o queixo. Sublinho uma, de muitas que poderia destacar: um enquadramento que se repete, de duas personagens vistas ao longe num cais de Paris, com duas barcaças que no mesmo plano se aproximam. Genial, pensei. Sente-se o tempo a fluir nestas duas vinhetas.
Durante a vida existe uma altura em que a nossa cabeça explode e nos obriga a realizar uma viagem e abandonar o quotidiano. Simon abandonou a mulher e o filho para fazer a sua. Baudoin colabora, nesta obra, com uma editora japonesa, o que obriga, devido a particularidades inerentes à escrita de caracteres, a uma abordagem mais visual por parte do autor. Com esta premissa, Baudoin aproveita para dar largas à criatividade. Em vez de falas, a mente de Simon (e dos outros viajantes) abre-se para o leitor descobrir os seus pensamentos (e interpretar a seu bel-prazer), o que considero um dos pontos-chave nos objectivos duma novela gráfica. As imagens que acorrem ao pensamento de Simon são passíveis de diversas interpretações (especialmente quando este pensa em algo diferente do tema de conversa), pelo que se inferem intenções, estados de espírito e a própria sinceridade da personagem. A narrativa de viagem inclui os elementos esperados, pelo que dispensa o aprofundamento duma análise que visa aliciar um potencial leitor da obra. Centro-me somente nas particularidades do autor. À medida que Simon encontra o seu propósito na vida, a erupção de pensamentos tende a acalmar e Simon completa a viagem física e espiritual a que se impôs. Fico com a sensação que Baudoin poderia ter aprofundado o enredo, pois o livro lê-se rapidamente, contudo acabaria por criar algo menos conciso e a viagem "circular" de Simon tornar-se-ia em algo errático, o que não beneficiaria a obra.
Nas primeiras páginas confesso que estranhei o estilo de desenho do autor, mas depois de o perceber e de me habituar passei a adorá-lo. Uma história profunda com a qual penso que todos nós, pelo menos em algum momento da nossa vida, nos conseguiremos relacionar. Quem nunca desejou deixar tudo para trás e partir à descoberta de si mesmo? Um livro genialmente concebido, com momentos que me comoveram verdadeiramente e com uma história profunda. Outro ponto de destaque: a explicação inicial de como o autor, francês, criou esta história passada em Paris tendo como público alvo os japoneses; sendo o Japão o país que mais me fascina em todo o mundo, penso que não tenho de explicar o porquê de esta introdução me ter fascinado.
Aujourd’hui n’est pas coutume, je vous parle d’une bande dessinée. Bon, ne vous inquiétez pas, une cinquantaine de mots et c’est plié (pas la bande dessinée, mon retour) ! Ce n’est pas qu’elle n’en mérite pas davantage, c’est juste que je ne sais pas quoi dire concernant ce genre littéraire. Bref, c’est simple, j’ai énormément aimé, j’ai beaucoup aimé, j’ai bien aimé, j’ai aimé, j’ai aimé mais sans plus, je n’ai pas trop aimé, je n’ai pas aimé, je n’ai pas du tout aimé, voilà mon vocabulaire pour vous parler d’une BD.
Je pourrais essayer de faire semblant de m’y connaître, en glissant par-ci par-là quelques mots tels que « phylactère », « cartouche », « plan général », « contre-plongée », « encrage », mais je pense que vous ne seriez pas dupes, quoique…
Le Voyage (A Viagem, en portugais) est un livre très intéressant de par son histoire : dessiné par Edmond Baudouin, à la demande de l’éditeur japonais Kodansha et se pliant donc aux usages de ce pays en matière de mise en page, il a par la suite été traduit, relettré et inversé afin d’être présenté aux amateurs du genre en France, où il a d’ailleurs reçu le prix Alph-Art du meilleur scénario au Festival d’Angoulême, en 1997.
Si, de prime abord, en le feuilletant, les dessins ne m’ont guère enchantée, sa lecture m’a amenée à changer d’avis. En effet, cette œuvre qui se veut plus profonde qu’elle n’en a l’air, abordant des thèmes comme la dépression, le besoin de s’évader, se transforme, sous nos yeux, en un poème étourdissant de sens et d’émotions.
Um desenho diferente por ser feito para o Japão. Mas rico na história é no meu momento de vida. A vida é uma viagem e a nossa mente leva-nos longe. Dar a volta ao mundo ou dar a volta à aldeia é apenas a mesma viagem, é uma questão do olhar. Um excelente poema!
Una bonita metáfora del viaje mental que todos hacemos en algún momento de nuestras vidas, donde nos buscamos sin saber hacia dónde vamos. Deja algunos temas demasiado abiertos y surrealistas, pero me ha gustado su profundidad minimalista y se lee muy rápido.
This is the most fabulous graphic novel I have ever read. Baudoin's raw and surreal style is a feast and the story is beautiful, intense but leaves you thinking about life. Love it and whole-heartedly recommend it !