Com um título que carrega claras referências às obras de Dietrich Bonhoeffer e Tomás de Kempis, O Custo do Discipulado: A Doutrina da Imitação de Cristo é uma obra de conteúdo excepcional e edificante. Mesmo em 104 páginas, Jonas Madureira foi capaz de realizar uma abordagem significativa e profunda dos significados de “discipulado” e suas aplicações na vida cristã.
Na introdução, o autor apresenta o discipulado (ou, ainda, os discipulados) como parte fundamental da vida cristã, ou seja, uma condição sine qua non de ser seguidor de Cristo. Valendo-se da observação de Edward L. Smither, o pastor ressalta que, no cristianismo primitivo, o termo “discípulo” era, basicamente, um sinônimo de “cristão”. “Ser cristão, portanto, é ser discípulo de Jesus”.
Em seguida, introduz uma distinção, a qual caracteriza como puramente teórica, entre discipulado como o ato de seguir Jesus (Nachfolge) e discipulado como o ato de ajudar alguém a seguir Jesus (Jüngerschaft). Essa distinção é também a base da divisão do livro em duas partes, tratando cada uma de um “discipulado”. Todavia, como o próprio autor explica, esses conceitos são indissociáveis na prática. Isto é, o Jüngerschaft pressupõe o Nachfolge, enquanto a consequência inevitável deste é aquele.
Na primeira parte do livro, em que trata do discipulado como ato de seguir Jesus, Jonas Madureira realiza uma exposição precisa e muito bem desenvolvida do texto de Lucas 14:25–35. Nesta, trata dos custos de seguir Jesus, isto é, das condições fundamentais, as quais aquele que não as cumpre “não pode ser meu discípulo”, nas palavras do próprio Jesus. Sem dúvidas, é uma leitura simultaneamente esclarecedora e confrontadora. Nessa primeira metade do livro, o leitor é convidado a refletir sobre suas prioridades, a se perguntar se realmente é um seguidor de Cristo, um discípulo, ou se é apenas um anônimo em meio à grande multidão a qual Jesus se dirigia. É um convite a, como o construtor da parábola, sentar-se e calcular os custos da obra, os custos de seguir a Cristo, e só assim ser um verdadeiro discípulo, pois, nas palavras do autor, “A necessidade da consciência do custo do discipulado é a razão da exortação de Jesus”.
Sendo assim, essa sessão é um convite ao cristão para um verdadeiro discipulado, para seguir Jesus não nos termos que imaginamos ou nos termos que melhor nos aplicam, mas nos termos que o próprio Cristo, Deus encarnado, estabeleceu. Isso, sem dúvidas, implica na ausência de conforto, na abnegação, no sofrimento e até mesmo na perseguição, mas foram esses os termos estabelecidos por Jesus, foram esses os custos que ele nos exortou a calcular. Se queremos ser verdadeiros discípulos de Cristo, e não curiosos em uma multidão, devemos estar prontos para amar a Cristo como Deus, carregar nossa cruz e renunciar tudo.
Na segunda parte do livro, intitulada “A doutrina da imitação de Cristo”, o foco muda para o segundo “discipulado”, aquele como ato de ajudar alguém a seguir Jesus, ou Jüngerschaft. Para isso, o autor, primeiramente, ressalta a importância dos ensinos apostólicos (que não se confunda com o dos “apóstolos” modernos) como único testemunho infalível do que realmente é imitar a Cristo. “Nenhum discípulo de Cristo está autorizado a imitar um Cristo fabricado por sua mente, mas apenas o Cristo imitado e anunciado pelos apóstolos”, isto é, a imitação de Cristo, bem como o seguir a Cristo, se dá nos termos de Cristo, ensinado e reproduzido pelos apóstolos.
Para se aprofundar no tema, Jonas Madureira se vale da teoria mimética, de René Girard (há quem diga que é difícil ouvir o Jonas sem mencioná-la). De maneira bastante, resumida, pode-se dizer que a teoria mimética, entre outras coisas, afirma a necessidade de um modelo para que haja um desejo, isto é, só podemos desejar algo porque esse algo existe, e só desejamos esse algo por admirar um modelo que também o deseja. Ao contrário do que o pensamento moderno possa fazer parecer, essa imitação, como apresentada até aqui, não é um pensamento tóxico, opressor ou qualquer outro adjetivo que permeie o vocabulário dos grandes ativistas do relativismo, que defendem com absoluta certeza a ausência de absolutos. Pelo contrário, a ausência de heróis, de modelos, de pessoas em quem vale a pensa se inspirar, tem sido um fenômeno prejudicial à sociedade. A mentira romântica, como René Girard nomeou, de buscar uma autenticidade que despreza o fato da imitação não se sustenta.
O autor defende que devemos viver, valendo-se de mais um termo cunhado por Girard, na verdade romanesca, que é assumir nossos modelos, reconhecer que não somos, em absoluto, autênticos, originais ou exclusivos, mas que somos produtos daquilo que admiramos, e que sempre iremos admirar alguém. O mesmo, por consequência, se aplica ao discipulado. Desejamos ser como Cristo e tomamos como modelo a pregação dos apóstolos. Imitar Jesus não é apenas seguir uma lista de preceitos morais ou ensinamentos éticos de Cristo, é possível, como é dito no próprio livro, ser um ateu e preencher a “checklist” da moralidade que Jesus deixou. Imitar Jesus é viver segundo os princípios que ele viveu, os apóstolos imitaram e hoje devemos imitar. “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo”. Portanto, o chamado não é apenas para imitarmos Jesus segundo o modelo dos apóstolos, mas também de sermos um modelo para que outras pessoas busquem imitar Jesus. A principal e mais efetiva maneira de ajudar alguém a seguir a Cristo é seguindo a Cristo, sendo um exemplo, ensinando através de nossas ações.
O pastor finaliza o livro com um capítulo de conclusão, retomando rapidamente os principais pontos expostos e exortando o leitor para que este aplique os ensinamentos do livro não por amor-próprio ou para alcançar o favor dos homens, mas para que Deus seja glorificado através de sua vida. Que venhamos, então, calcular o custo do nosso discipulado e imitar a Cristo não para satisfazer a nós mesmos ou para ser bem visto pelo próximo, mas para que Deus nos use para sua glória, edificando a Videira, que é sua Igreja, através do nosso exemplo como imitadores de Jesus.