«Neste mundo, três indivíduos corromperam os homens: um pastor (Moisés), um curandeiro (Jesus) e um cameleiro (Maomé).»
Antes do advento dos protestantes que afrontaram a Igreja Católica, muito antes que padres e estadistas fossem levados a apagar as suas fogueiras, já as mentes inquietas de ateus e agnósticos fervilhavam na clandestinidade.
É isso que revelam os dois opúsculos blasfemos aqui reunidos, com organização e prefácio de Raoul Vaneigem. De um lado, A Arte de Não Acreditar em Nada, escrito inflamado que levou o seu autor, Geoffroy Vallée, em 1574, aos vinte e quatro anos, a ser enforcado em praça pública e queimado ainda vivo, é um verdadeiro tiro ao alvo à cabeça das religiões – acusando-as de obscurantismo, criadoras de cretinos em série, fiéis fanáticos e ignorantes. Do outro, o Livro dos Três Impostores, de autor anónimo, obra mítica que poderá ter circulado num manuscrito na Idade Média e que aqui se apresenta nas duas versões que chegaram até nós (uma redigida no século XVII, outra no século XVIII), injuria directamente os profetas das três confissões abraâmicas – Moisés, Jesus e Maomé –, recorrendo a invectivas violentas e desmascarando charlatães versados na oratória, ilusionistas místicos com intenções megalómanas.
As duas obras, que em comum têm uma herética vontade de desafiar a opressão, não só contribuem para desmontarmos, hoje, a ideia de uma época anestesiada pela fé e submetida ao cilício, como nos dão prenúncios de que, onde quer que a tirania se manifeste, ela lá encontrará a resistência.
Raoul Vaneigem (born 1934) is a Belgian writer and philosopher. He was born in Lessines (Hainaut, Belgium). After studying romance philology at the Free University of Brussels (now split into the Université Libre de Bruxelles and the Vrije Universiteit Brussel) from 1952 to 1956, he participated in the Situationist International from 1961 to 1970. He currently resides in Belgium and is the father of four children.
Vaneigem and Guy Debord were the two principal theoreticians of the Situationist movement. Although Debord was the more disciplined thinker, Vaneigem's slogans frequently made it onto the walls of Paris during the May 1968 uprisings. His most famous book, and the one that contains the famous slogans, is The Revolution of Everyday Life (in French the title was more elaborate: Traité du savoir-vivre à l'usage des jeunes générations).
After leaving the Situationist movement Vaneigem wrote a series of polemical books defending the idea of a free and self-regulating social order. He frequently made use of pseudonyms, including "Julienne de Cherisy," "Robert Desessarts," "Jules-François Dupuis," "Tristan Hannaniel," "Anne de Launay," "Ratgeb," and "Michel Thorgal." Recently he has been an advocate of a new type of strike, in which service and transportation workers provide services for free and refuse to collect payment or fares.
From www.nothingness.org: "Along with Guy Debord, the voice of Raoul Vaneigem was one of the strongest of the Situationists. Counterpoised to Debord's political and polemic style, Vaneigem offered a more poetic and spirited prose. The Revolution of Everyday Life (Traité de savoir-vivre à l'usage des jeunes générations), published in the same year as The Society of the Spectacle, helped broaden and balance the presentation of the SI's theories and practices. One of the longest SI members, and frequent editor of the journal Internationale Situationniste, Vaneigem finally left the SI in November of 1970, citing their failures as well as his own in his letter of resignation. Soon after, Debord issued a typically scathing response denouncing both Vaneigem and his critique of the Situationist International."
Se os textos deste livro fossem feitos agora, seriam aquilo a que se chama hoje em dia um "roast". Em especial o "Livro dos Três Impostores". Este ensaio, escrito no século XVIII — em plena Era das Luzes, portanto —, começa por discorrer de forma objetiva e lógica sobre a necessidade (ou melhor, a falta dela) das religiões para o Homem. Não se nega a necessidade da espiritualidade, 'apenas' se criticam as religiões organizadas, cujo advento e complexificação vieram servir propósitos bem distintos dos da necessidade humana dos primórdios, de acreditar em algo para tentar compreender o que se mostrava inexplicável. E neste aspeto em particular, as três religiões do Livro merecem especial atenção por parte do autor. Moisés, Jesus e Maomé são desmascarados numa análise aos textos sagrados que lhes são atribuídos/que sobre eles versam expondo incongruências entre o que se prega e o que se faz e, por conseguinte, as motivações menos nobres que subjazem às religiões que fundaram (e, acrescento eu, que os seus sucessores ao longo dos séculos fizeram por consolidar). A anteceder este texto, que é o melhor dos três que estão compilados nesta edição, temos "A Arte de não Acreditar em Nada" e uma primeira versão do "Livro dos Três Impostores", do século XVII, intitulada "De Tribus Impostoribus Anno MDIIC". São textos curtos, mas com igual potencial de chocar espíritos mais devotos. O "De Tribus Impostoribus" é de teor muito próximo do da sua versão subsequente, mas de leitura mais custosa. É um ensaio altamente filosófico menos organizado e interrompido em vários momentos, como se fosse um esboço a que o autor previa regressar mais tarde. Isso torna o fio condutor mais difícil de seguir, contudo sente-se na escrita uma fúria denunciadora das religiões estabelecidas que mais não visam do que impor a sua visão do mundo e despojar o Homem da sua liberdade de julgar e decidir por si. N'"A Arte de não Acreditar em Nada", temos um panfleto escrito em 1574 que faz a apologia do ateísmo, mas principalmente acusa as religiões em geral de manipulação de massas e de promoção da ignorância. O inconformismo e a revolta do autor haveriam de custar-lhe a sua vida, contudo, do alto dos seus 24 anos, legou-nos um texto que surpreende pela sua atualidade. Os textos contidos nesta obra poderão surpreender por terem sido escritos nos séculos XVI a XVIII, condicionados que estamos pela ideia de que a profunda religiosidade das sociedades ocidentais apenas no século XX se começou a desfazer. Não foi e isso não é novidade para mim. Mas é bom conhecer em direto os escritos de alguns dos homens que, lá longe, tiveram essa capacidade de ver para lá do que as religiões lhes punham à frente dos olhos. Como não precisava desta leitura para abrir os meus, o que este livro me proporcionou foi antes de mais grande prazer, não tanto uma epifania. Oxalá para muitos o fosse.
Escrito no séc. XVI, este é um livro composto por três textos que criticam fortemente a origem e a aplicação prática das religiões ao longo da história. O texto que mais gostei foi o "Livro Dos Três Impostores".
As mentes agnósticas dos séculos XVI a XVIII apresentam nestas duas obras, "A Arte de Não Acreditar em Nada" e o "Livro dos Três Impostores" (este último pode ter tido a sua génese na Idade Média europeia), um discurso que exasperou a igreja católica a qual muito prontamente lhes "tratava da saúde".
"Sendo Deus apenas a natureza ou, se preferirmos, o conjunto de todos os seres, de todas as propriedades e todas as energias, ele é necessariamente a causa imanente e não distinta dos seus efeitos; não pode ser chamado bom nem mau, nem justo, nem misericordioso, nem invejoso; essas são qualidades que apenas se aplicam ao homem; por conseguinte, ele não saberia punir nem recompensar. Essa ideia de punição e de recompensa apenas pode seduzir ignorantes, que só concebem o Ser simples, a que chamamos Deus, sob a forma de imagens que em nada se lhe adequam"