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Sobre os Canibais: Contos

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Num volume com 42 relatos desconcertantes, repletos de paradoxos e experimentações formais, o premiado tradutor impressiona pela força narrativa e singularidade de estilo.

Em Sobre os canibais, as narrativas de Caetano W. Galindo ― o premiado tradutor de James Joyce, J. D. Salinger, entre outros ― desafiam qualquer tentativa de classificação. São breves instantâneos de crises existenciais, vertigens psicológicas, ressentimentos profissionais, pequenos embates conjugais. De fluxos delirantes de consciência a frias descrições de objetos artísticos, estamos no território da melhor ficção contemporânea. Galindo nos envolve nos dramas de personagens comuns, que podemos encontrar todos os dias pelas ruas das cidades, e através de uma prosa personalíssima conseguimos ter um vislumbre de suas armadilhas mentais, em que se manifestam paradoxos lógico-filosóficos e, sobretudo, impasses da linguagem. Num tom único, lúdico e íntimo, Sobre os canibais é uma joia de estilo, um dos livros mais inventivos e surpreendentes da prosa brasileira atual.

200 pages, Paperback

First published November 25, 2019

2 people are currently reading
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About the author

Caetano W. Galindo

65 books39 followers
CAETANO W. GALINDO nasceu em Curitiba, em 1973, é professor, pesquisador, tradutor e escritor. Sua tradução de Ulysses recebeu os mais importantes prêmios literários do país.

É autor de Sim, eu digo sim: Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (2016), finalista do prêmio Rio de Literatura, e do livro de contos Sobre os canibais (2019). Ensaio sobre o entendimento humano, livro não comercial, com tiragem limitada, recebeu o prêmio Paraná de Literatura em 2013.

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Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Barbara Maidel.
109 reviews45 followers
July 31, 2023
LITERATURA DA DESPRETENSÃO

Elogio de amigo é coisa generosa e bonita, mas sempre suspeita. Na contracapa deste Sobre os canibais, o escritor Sérgio Rodrigues, amigo de Caetano Galindo, faz aquela publicidade que envolve:

Em contos breves e intrigantes que desafiam o leitor a ligar os pontos, e depois ligar de novo e de novo, Caetano W. Galindo inventa um idioma capaz de proezas como transitar quase sem escalas entre o riso filosófico, o engasgo lírico e o grito de terror. É um idioma que soa original e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar. Pudera: se chama fala brasileira, que o autor toca de ouvido com talento raro.


Tocar a fala brasileira de ouvido chama atenção nessa que é uma das vitrines do livro, a contracapa. Não é porque Galindo me decepcionou num justiceiro escrito de não ficção – Latim em pó, também propagandeado com os melhores adjetivos por Sérgio Rodrigues em coluna na Folha – que eu não poderia gostar do trabalho dele na ficção.

Mas a perspicácia de Sobre os canibais ao bem imitar o desenho das nossas falas uma hora enche, e o estilo do autor, tão enjoado em pausas com pontos – “O excesso de peso é um dos fatores mais clássicos. Na apneia do sono. No ronco. Na queda do céu. Da boca. Mas não parou nisso.” –, vai irritando. Tantos personagens em mais de quarenta contos, e mesmo assim. essa coisa. de escrever. parando. demais.

O próprio excesso de despretensão – se posso chamar dessa forma – torna o livro muitas vezes chato. As pontuais boas sacadas são envoltas em inúmeros monólogos cansativos, desses que você ouve por aí e pensa “¿por que essa pessoa não cala a boca um pouco?” Parece que Caetano decidiu que a maioria da sua gente seria enfadonha, e de uma maneira ruim (pois dá pra fazer um personagem enfadonho que causa afeição). Os cômodos de Sobre os canibais estão repletos de construções deste tipo:

Mas eles meio que se acomodaram e tal… Naquela tensão ali de saber o que que vai rolar ainda naquela noite. O que eles querem que role. O que que eles esperam… Essas coisas. Meio tenso. Mas eles estão bem. O encontro foi legal e tudo. Está tudo legal.


É um papo furado que eu evito na vida real, e de repente ele preenche um livro – que tristeza.

Há bons momentos. Salvarei na íntegra o conto mais conservador “Sozinho”, sobre todo o processo que cerca a preparação dos mortos pro velório, e de trechos salvarei momentos espirituosos como este abaixo, quando o protagonista se dá conta de que a apneia é um estado agônico e que não deveria ser engraçado que seu pai tivesse passado por isso:

Hoje lembra com arrepios dos vários episódios em que o pai pegava no sono no sofá da sala, em pouco tempo começava a estrondar e, de repente, depois de um silêncio de talvez vinte, trinta segundos, soltava um quase urro trepidante e simultaneamente acordava de susto. Eles riam.
Eles riam
Acordou de tão barulhento que estava!
Mas não. Ele hoje sabe que naquele momento, naqueles momentos todos, o pai estava era acordando como quem sai de um sonho terrível. Um sonho em que a morte está sentada no teu peito, com a mão na tua boca. Rindo também.
Eles riam. Imagine acordar daquilo, e ser recebido como uma piada.


É por causa de passagens como essa que você sabe que Galindo pode ser um bom autor. Mas parece que ele optou pela bobagem, pela fixação no coloquial: no empregado em crise embolada diante do chefe, no casalzinho sem ambição, no guri sacal que começa a se interessar pela harmonia das cores das xícaras no escorredor de pratos, no cara que foi ao cinema e vem narrar uma “aventura” que não acaba nunca. Tem que goste, não duvido. Eu me senti antissocial no meio desses condôminos.
Profile Image for Carlos.
Author 13 books43 followers
January 3, 2020
Devoradores e selvagens

No título e em uma epígrafe, Sobre os Canibais, a estreia na ficção de um dos maiores tradutores em atividade no Brasil, Caetano W. Galindo, presta tributo à ensaística do francês Michel de Montaigne (1533-1592), que aproveitou a visita à França de três índios brasileiros nativos para tentar imaginar o que haveria de tão diverso entre os europeus ditos civilizados e os assim chamados "selvagens" do Novo Mundo.

A filiação fica clara também na minúcia com que Galindo, ao longo de 42 textos breves, às vezes brevíssimos, se dedica a experiências intelectuais com a forma do conto, com a linguagem da prosa, com a reprodução da oralidade contemporânea. Em vez, entretanto, de usar como ferramenta a consciência ultraintelectualizada que servia a Montaigne, Galindo, com a liberdade da ficção, arrisca ser outros, outras vozes, outros dilemas, muitas preocupações.

Doutor em Linguística e professor da Universidade Federal do Paraná, Caetano W. Galindo tem uma vasta experiência em traduções para o português de obras de um rigor experimental exigente, como Ulysses, de James Joyce, Vício Inerente, de Thomas Pynchon, e Graça Infinita, de David Foster Wallace. Galindo também incorpora influências de alguns desses autores, do tom analítico de muitas narrativas até a precisão e a inventividade dialetal das histórias em primeira pessoa.

Os contos de Galindo são minuciosas análises de momentos. Mesmo quando os contos têm uma narrativa que se espraia por anos, ela é composta por fragmentos de instantes em pontos diversos do tempo, como uma das mais belas histórias do volume, Tudo ou Nada, em que o narrador rememora quatro momentos distintos de sua relação com a mãe. Outros contos são espalhados pelo livro como episódios distintos, como Juvenal (aliás, uma referência a um autor que Montaigne de fato cita em seu ensaio original Sobre os Canibais), composto por curtos depoimentos de personagens diferentes sobre um mesmo homem já falecido, espalhados em pontos diversos do livro. Um artifício que o autor usa de forma ainda mais ousada no conto Nosferatu, composto de quatro vinhetas apresentadas fora de ordem no volume.

Na descrição, parece mais complicado do que é. Na verdade, um dos elementos mais impressionantes do livro é como, no meio de tantas experiências marcadas pelo rigor da forma e pela exatidão da linguagem, os contos de Sobre os Canibais ainda encontram espaço para criar comoção sem pieguice
Profile Image for Marcelo Galuppo.
Author 12 books13 followers
March 20, 2021
Não me entenda mal: o livro de Caetano Galindo é excelente. Os processos criativos usados são muito engenhosos, seu interesses obviamente antropológico (Sobre os canibais é o nome de um Ensaio de Montaigne sobre o estranhamento de uma cultura diante de outra) tornam o livro merecedor de 5 estrelas. Mas acho que o leitor mediano não atribuiria 5 a ele. Contos que são como que instantâneos da realidade, possuem uma trama oculta (que precisa ser pressuposta pelo leitor) para que pareçam-se com os contos a que estamos acostumados. Por exemplo: alguns contos são intercalados por outros contos, fragmentados mesmo, como "Juvenal", apresentado em vários episódios (fluxos de consconciência ou pequenos elogios de pessoas que comparecem a seu funeral). Em outros (como "Bienal", também composto de vários pequenos contos), o limite entre literatura e outras expressões artísticas (no caso, as Artes Plásticas) é questionado. Um conto, em especial, é um soco no estômago (Sozinho). Foi tão forte que interrompi a leitura do livro por um tempo (não que não tenha gostado do conto, ao contrário: é forte demais). Percebi uma certa influência dos autores que Caetano traduziu para o português, mas também uma certa influência de Caio Fernando Abreu. Gostei demais.
17 reviews3 followers
March 30, 2021
Caetano W. Galindo is one of the main Brazilian literary translators. For example, the award-winning translation of the novel “Ulysses”, by James Joyce, into Portuguese. I confess that I tried, twice, reading “Ulysses”, but I did not go anywhere beyond page 25. However, I recognize Galindo's merit as a translator, as he was able to recreate in Portuguese a work that, for me, is untranslatable. Precisely for this reason, I was curious to know the fictional side of Galindo and I have now read his short stories in “Sobre os Canibais” (“About Cannibals”). Unfortunately, I was disappointed by the book.
The themes in the stories range from death, to love conflicts, to existential anguish. But they are irregular. Only one or two stories were able to make me sigh, like the short story “Pentimenti”, which reminded me of the song “Cotidiano”, by Chico Buarque, and the short story “Sozinho”, which leads the reader to have an epiphany. The other 40 are short stories badly elaborated which I did not enjoy. Galindo tries to be brainy in his short stories, tries to make puns and tries to subvert language and punctuation. He abuses the use of parentheses that lead to nowhere. He abuses metalanguage that is not able to take the reader out of the story. His style is tacky when tries to transform an artistic installation into literature. And it ends up falling into a simplicity that contrasts with the potential that Galindo shows in his translations. Therefore, I was disappointed by the tales of his fiction. I was hungry to read his fiction and ended up reading “About Cannibals” cannibalized by an expectation that did not materialize. I guess I'd better continue to be a vegetarian reader anyway. If anyone has read “About Cannibals”, feel free to leave your opinion here.
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