Petrogrado, Xangai é um pequeno livro que ajuda a dar uma certa clareza aos dois mais importantes eventos do século XX. A escrita de Badiou é muito gostosa de ler, mesmo com um assunto tão denso.
A primeira parte do livro é dedicada à Revolução Russa, mais especificamente à Revolução de Outubro de 1917, e, como texto fundador da mesma, utiliza as Teses de Abril de Lênin. Essa era a parte da história com a qual eu era mais familiar ao começar a leitura, e Badiou faz um levantamento histórico, político e filosófico muito competente, e os usa para construir a ideia de Partido-Estado que irá desenvolver mais profundamente na segunda metade do livro. Badiou também namora a ideia de ilustrar o rompimento de Stalin com as tradições bolcheviques à falar sobre “o desejo de Lenin” de devolver as forças aos operários e camponeses, mas acredito que isso não acaba tão aprofundado como eu gostaria.
A segunda parte é dedicada à Grande Revolução Cultural Proletária. É aqui um território que eu possuo menos familiaridade, e também me parece o lugar onde a paixão de Badiou está mais claramente presente. Badiou faz inúmeros comentários sobre os maoistas franceses em paralelo com a Revolução, comentando sobre sua própria experiência. Aqui, ele vai se aprofundar mais na ideia de Partido-Estado, e sobre a tentativa dos revolucionários de se emancipar deste. Meus unicos ressalvos são, aqui, sobre o aspecto de “culto a personalidade” em torno de Mao. Pimeiro, Badiou argumenta que a “sacralização” de figuras políticas não deveria ser vista tão diferentemente da sacrilização de figuras artísticas, que no geral são tão vítimas de “culto” quando figuras políticas, apenas mais aceitas. Ele tambem argumenta que não havia, de fato, um culto a Mao enquanto pessoa, mas a seu Pensamento. Eu tenho problema com ambas as ideias. Sinto que a primeira faz sentido até o momento que passamos a falar de políticas revolucionárias e proletárias. O próprio Badiou ao citar exemplos de líderes políticos cita diversos líderes Burgueses, o que faz muito sentido dentro de uma perspectiva BURGUESA de revolução, visto que a sociedade burguesa usa muito do personalismo e do individualismo para a construção de aparelho ideológico. Quando falamos de Revoluções com tendências socialistas, penso que a importância de figuras públicas individuais deveria ser vista com mais cautela. De forma similar, a mim parece tanto fazer se o culto é em si à pessoa ou àquilo percebido como suas ideias. O resultado que se dá é o mesmo: o indivíduo e seu “pensamento” tornam-se então sinônimo da ação revolucionária, como o próprio Badiou argumenta. Então, qualquer crítica a esse Pensamento torna-se, na visão dos dedicados ao culto, uma crítica à ação, uma crítica à própria revolução. Esse é um caminho que eu sinto ser muito perigoso, impedindo o movimento de se adaptar à própria ação conforme ela acontece. De fato, eu argumentaria que foi precisamente isso que aconteceu com o final da Revolução Cultural, e um dos motivos de sua esquerda não ter consiguido romper completamente com a velha burocracia do Partido e mantido a situação revolucionária.