A primeira edição de A Ordem do Progresso foi publicada há quase um quarto de século, em comemoração ao centenário da República. Muitas crises tiveram de ser enfrentadas.
Com a vitória da oposição, a transição em 2002-2003 revelou-se menos problemática do que se temia, com o Partido dos Trabalhadores abandonando às pressas os seus excessos mais impetuosos como o repúdio das dívidas interna e externa. Parecia que se assistia ao fim de ideias equivocadas em matéria de política econômica.
Na esteira do mensalão, em 2004-05, o compromisso petista com políticas macroeconômicas prudentes começou a arrefecer. De fato, a partir de 2010, acumularam-se indícios claros de reversão das políticas que haviam sido estabelecidas na década de 1990 quanto à abertura comercial e ao papel do Estado na economia. Até mesmo o compromisso com a estabilização passou a ser relativizado.
Esta nova edição pode ser vista como comemoração antecipada dos dois séculos do Brasil independente e contém artigos de Marcelo de Paiva Abreu, Dionísio Dias Carneiro, Gustavo Franco, Winston Fritsch, Luiz Aranha Correa do Lago, Eduardo Modiano, Luiz Orenstein, Demósthenes Madureira de Pinho Neto, André Lara Resende, Antonio Claudio Sochaczewski e Sérgio Besserman Vianna. ?
Graduado em Engenharia Industrial Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1966) e doutorado em Economia pela Universidade de Cambridge (1977). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atua na área de Economia Internacional, tanto em temas contemporâneos quanto históricos
Se você tiver interesse em ler somente um livro de história econômica do Brasil este é provavelmente a melhor opção! A primeira vez que li esse livro foi na primeira edição, que começava em 1889 e terminava um século depois. A nova, ampliada, inicia a narrativa na Independência e conclui com o segundo governo Lula. Apesar de nem sempre essas adições de fato “somarem”, acredito que nesse caso os capítulos novos ajudam a compor essa função de “obra de referência” que buscou-se construir ao redor deste livro.
Primeiro, vamos as limitações desta obra: por ser um trabalho com contribuição de diversos autores, a qualidade dos capítulos pode oscilar, tanto na profundidade e ênfase interpretativa que o autor dá, quando na capacidade puramente narrativa de escrever sobre os fatos. Outro ponto que incomoda é a falta de gráficos e tabelas ao longo da obra, que muito contribuiriam para melhora o entendimento. Finalmente, os capítulos da história mais recente aparentam menor qualidade que os outros. Neste sentido, alguns temas talvez sejam mais bem debatidos no livro “Economia Brasileira Contemporânea” do Giambiagi. Mesmo assim, dado o período relativamente menos amplo daquela obra, acredito que essa continue sendo a versão de “referência” da história econômica brasileira.
Agora aos prós. De forma geral, o livro reforça a percepção da grande máxima sobre política econômica no Brasil:
“De quinze em quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze”
Até parece deliberado, mas a duração e sequência dos ciclos é assustadoramente similar: uma restrição no setor externo e/ou piora nos termos de troca gera a necessidade de fazer uma política econômica recessiva, ajustando desequilíbrios acumulados ao longo de anos de política econômica pró-cíclica. O receituário envolve contenção da inflação e o ajustamento das contas públicas com doses variadas de reformismo no ambiente microeconômico. À medida que o cenário externo começa a melhorar, essas restrições são crescentemente afrouxadas e o impulso reformista perde força. Começa-se a plantar então os desequilíbrios do próximo ciclo, à medida que se abandona o conservadorismo na gestão macroeconômica e procura-se viabilizar a manutenção de grupos políticos no poder.
O parágrafo anterior vai descrever basicamente a sequência observada em todos os capítulos, com especificidades de cada período dando o tempero histórico da época. Talvez as partes que mais “destoam” desta narrativa simplista são as que lidam com o fim da República Velha/Grande Depressão e a sequência de planos econômicos visando debelar a inflação entre a redemocratização e o Plano Real. No primeiro, a economia brasileira passa por uma profunda e repentina mudança, em boa parte imposta de fora para dentro. Na segunda, o Brasil se vê quase uma década estritamente focado em resolver o problema da hiperinflação, que passou a suplantar todas as outras questões da agenda econômica nacional.
Apesar da “previsibilidade” do ciclo, o “tempero narrativo” aqui é muito rico: cada capítulo é escrito por especialistas do período ou das principais questões que dominaram a política econômica da época. Destacaria em especial o capítulo que trata do apogeu e crise da Primeira República (talvez uma das melhores explicações que já li sobre câmbio fixo no padrão ouro, considerando um país periférico e essencialmente monoexportador); o capítulo da política econômica na ditadura Vargas (que muito explica da rápida readaptação da economia brasileira a um modelo autárquico); os capítulos que narram as consequências dos “cinquenta anos em cinco” e seu posterior ajustamento no PAEG do regime militar (que abriria espaço para o dito “milagre”) e; o capítulo que narra a opção pelo “ajuste estrutural” do II PND, que plantou e regou as sementes da hiperinflação e dos múltiplos defaults do Brasil nos anos 80. Apesar de estilisticamente diferente e relativamente menos profundo, o primeiro capítulo sobre a performance econômica do país durante o Império também traz muitos dados interessantes e coloca uma perspectiva de longo prazo no atraso relativo do desenvolvimento do país.
Essa versão do livro está atualizada, e traz textos desde o governo imperial até o governo Lula. Altamente recomendável para estudantes de economia brasileira. Esse livro também pode ser lido por quem não tem formação em economia, mas acredito ser crucial entender o básico de macroeconomia, para não ficar disperso. Os textos são bem densos e com muita estatística descritiva, isso torna a leitura um pouco difícil. Outro ponto é que de forma sútil é possível sentir o pensamento ideológico de cada autor, porém isso não compromete a qualidade do Livro. No geral é um livro muito bem escrito e de suma importância para aqueles que tem interesse em querer entender o história da economia brasileira.