RUY BELO nasceu a 27 de Fevereiro de 1933. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade São Tomás de Aquino, em Roma. Abandona a Opus Dei em 1961 e licencia-se em Filologia Românica, dedicando-se ao ensino. Foi Director-Geral do Ministério da Educação Nacional (1967-69), crítico literário, jornalista, fez numerosas traduções (por exemplo de Cendrars, Saint-Exupéry, Lorca e Borges) e ocupou o lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-77). Publicou: Aquele Grande Rio Eufrates (1961), Boca Bilingue (1966) País Possível (1973), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Entre outras obras destaca-se a colectânea de ensaios literários Na Senda da Poesia (1969). A sua obra poética encontra-se coligada em Todos os Poemas (2001). Foi condecorado pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1991.
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te e antes de chegares já lá estavas naquele preciso sítio combinado onde sempre chegavas sempre tarde ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses se ausente mais presente pela expectativa por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente Mas sabia e sei que um dia não virás que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste ou até se exististe ou se eu mesmo existi pois na dúvida tenho a única certeza Terá mesmo existido o sítio onde estivemos? Aquela hora certa aquele lugar? À força de o pensar penso que não Na melhor das hipóteses estou longe qualquer de nós terá talvez morrido No fundo quem nos visse àquela hora à saída do metro de serrano sensivelmente em frente daquele bar poderia pensar que éramos reais pontos materiais de referência como as árvores ou os candeeiros Talvez pensasse que naqueles encontros em que talvez no fundo procurássemos o encontro profundo com nós mesmos haveria entre nós um verdadeiro encontro como o que apenas temos nos encontros que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes Isso era por exemplo o que me acontecia quando há anos nas manhãs de roma entre os pinheiros ainda indecisos do meu perdido parque de villa borghese eu via essa mulher e esse homem que naqueles encontros pontuais decerto não seriam tão felizes como neles eu pois a felicidade para nós possível é sempre a que sonhamos que há nos outros Até que certo dia não sei bem ou não passei por lá ou eles não foram nunca mais foram nunca mais passei por lá
Sem palavras para esta obra de arte magistral de Ruy Belo! Tornou-se o meu livro favorito, dada a poesia única que aqui se reúne e os sentimentos que ela provoca. Uma leitura obrigatória, sem dúvida!