#livros atrás das grades
4,5*
Goliarda Sapienza é uma figura apaixonante e carismática que fez da sua passagem pela cadeia, local de “fusão entre experiência e utopia”, uma catarse, um período de introspecção, um tratado de sociologia e uma ode à solidariedade entre mulheres, independentemente da proveniência.
O facto é, Goliarda, que nós, mulheres, suportamos melhor o sistema carcerário. Isto é possível, bem entendido, porque temos um passado de coerção e aqui, no fundo, encontramos um estado de coisas que para nós não é novidade: o colégio, a família, a casa…
Se a situação é dostoeivskiana, como a caracterizou Elsa Morante, “Universidade de Rebibbia” não se prende com o crime nem com o castigo. Como sempre, é Angelo Pellegrino, seu último companheiro e maior admirador, quem contextualiza o sucedido no posfácio de “Carta Aberta”, o primeiro volume de memórias da escritora:
“Depois de ter roubado o cofre com as jóias a uma amiga rica de origem aristocrática, também com o intuito de se vingar do mau acolhimento desta e do seu grupo à minha entrada na sua vida, Goliarda procura vendê-las a vários joalheiros (…). Os proventos da venda permitiram-lhe escrever ‘Io, Jean Gabin’ e saldar as rendas em atraso da sua querida casa na Via Denza, de onde a estavam a despejar.”
Apesar de, em 1983, o editor italiano lhe ter dado o sugestivo subtítulo de “A traumática experiência prisional de uma senhora respeitável”, a publicidade não poderia ter sido mais enganosa, pois os cinco dias que Goliarda passou na cadeia não só não a marcaram negativamente, como assinalaram o seu renascimento. O escândalo da sua detenção impulsionou a sua carreira literária há muito estagnada, a convivência com presas das Brigadas Vermelhas e de delito comum serviu de mote a um romance posterior e trouxe-lhe novas amizades, já que várias das reclusas, entretanto libertadas, compareceram ao lançamento de “Universidade de Rebibbia”. Lembrar que, por razões políticas, também ambos os seus progenitores tinham passado pelo cárcere, pelo que para ela seria não só um motivo de orgulho mas também uma forma de chamar a atenção para o facto de não conseguir publicar “A Arte da Alegria”, que levara 10 anos a escrever, razão por que tentou prolongar o período de detenção, mesmo quando os amigos se mobilizaram para a sua libertação.
A autodegradação gerada pela longa descida e, em seguida, pela passagem por um grande cancelo, e depois, ainda – cada vez mais baixo- , pela visão de uma dezena de pequenas portas metálicas trancadas em redor de uma praceta escura é tão poderosa que me surge como uma espécie de prazer a que podemos abandonar-nos para pôr fim às minúsculas angústias da vida, aos dilemas éticos, ao orgulho, à respeitabilidade.
O que leva Goliarda Sapienza a chamar universidade à cadeia de Rebibbia não é aquela expressão descabida das pessoas que dizem que andaram na faculdade da vida, mas o local privilegiado que prima pela diversidade de classes e culturas, em que a partilha de diferentes realidades e a troca de vivências díspares enriquecem o convívio entre as reclusas e contribuem para a bagagem de cada uma delas, sejam novatas ou reincidentes.
Escapei há tão pouco tempo da imensa colónia penal que vigora lá fora, prisão perpétua social dividida em rígidas secções de profissões, classes, idades, que a possibilidade repentina de estar em união – cidadãos de todos os estratos sociais, culturais, nacionalidades – não pode senão parecer-me uma liberdade incrível, insuspeitada.
De início, Goliarda, que tinha fobia a portões fechados e à falta de cigarros, fica na solitária, num silêncio aterrorizador, onde não tem sequer uma caneta ou um livro para passar o tempo, tentando controlar o riso fácil, que cedo percebe ser deslocado naquele local, concluindo que a imaginação, o seu maior trunfo como escritora, ali só a poderia prejudicar. Passado pouco tempo, passa a partilhar uma cela com outras duas reclusas e, após o choque inicial, começa a integrar-se e a conhecer todo o género de mulheres, na sua maioria acolhedoras e generosas que acabam, muitas vezes, por encontrar ali o lar e a aceitação que lhes falta no exterior.
Agora ando muito impaciente por sair porque faz um ano que estou dentro, mas ao fim de dois ou três meses em liberdade no anonimato - liberdade cuja única vantagem é deixarem-te morrer sozinha - sei que o desejo de voltar para aqui vai novamente tomar conta de mim. Não há vida sem comunidade, como se sabe: tens aqui a contra-prova, não há vida sem o espelho dos outros...
“A Universidade de Rebibbia”, que viria a dar origem ao Prémio Goliarda Sapienza que publica anualmente 20 contos escritos por reclusos, é uma leitura que reserva muitas surpresas e me faz ansiar pela próxima obra da autora que a Antígona tenha na calha.
-(…) Este trouxe-mo a minha irmã. É possível comprar tudo menos livros.
Aquele ‘Segundo Sexo’ da Simone de Beauvoir na mão da minha companheira deixa-me sem palavras.
- (…) Para ser franca, ver-te com esse livro na mão deixou-me abatida!
- Não gostas?
- Não, não, gosto… É só porque ao cabo de 30 anos nunca mais o tinha visto nas mãos de ninguém… Foi preciso vir para a prisão…