Esquelético, febril, doente, quase sem dar sinais vitais, nasci. O ambiente psicológico em casa não podia ser pior e Karin, a minha mãe, na altura do parto, encontrava-se no mais desolador estado depressivo. Nasci num domingo, o que já de si é um bom augúrio. Uma criança nascida num domingo, segundo a tradição sueca, terá o dom de ver mais longe, de alcançar outro horizonte. Além disso, o dia em que vim a este mundo, 14 de Julho, já era uma data histórica, o Dia da Tomada da Bastilha, dia de protestos e revoltas no mundo. Deram-me o nome de Ernst Ingmar Bergman.
O que a Autora revela neste romance biográfico são aspectos menos conhecidos da vida de Bergman. Não tudo, mas o que considerou importante para se conhecer um pouco melhor essa personalidade invulgar por quem se apaixonou.
CRISTINA CARVALHO nasceu em Lisboa, a 10 de Novembro de 1949. Contista e romancista, começou por publicar contos em revistas e jornais, nomeadamente no Jornal de Letras e revista Egoísta. Publicou o seu primeiro livro, Até já não é adeus, em 1989. Algumas dos seus romances estão integrados no Plano Nacional de Leitura. É filha dos escritores António Gedeão (Rómulo de Carvalho) e Natália Nunes.
Vestir a pele de alguém é exercício difícil e matéria perigosa. Quando esse alguém é um dos grandes da intelectualidade mundial, mais árdua essa tarefa se torna. Nada é fácil neste livro. Nem a sua concepção, nem a sua escrita, que usa desde a frase curta ao devaneio prolongado, nem a sua estrutura em simulação de caos, nada é gratuitamente simples, sendo que a simplicidade simulada é a mais trabalhosa forma de narrar o que quer que seja. Voluntária e materialmente prisioneiro de uma natureza tão agreste quanto a solidão autoimposta, aqui está Ingmar Bergman, o cineasta, o dramaturgo, o homem. As cenas de uma infância rude, com um pai cruel, mil vezes amaldiçoado, e uma mãe sempre presente, ainda que pretensamente esquecida, entram e saem dos capítulos de que este livro se compõe, numa persistência que nos sublinha a marca de um passado a que não se consegue fugir, em eterno ajuste de contas. A solidão desejada, quase exílio, a velhice, a natureza hostil circundante em que o vento não varre as memórias, antes as aviva ainda que se caminhe contra ele, são as marcas fundamentais deste cenário onde se vai passando, como se fosse em ecrã, a vida de Bergman. Do Bergman do teatro, do Bergman do cinema, do Bergman velho, novo, criança. O som que aparece no livro é feito das palavras do biografado, dos seus pensamentos, das alegrias genuinamente sentidas, das dores insuportáveis de perdas que não conseguirão reconciliá-lo com a felicidade, de balanços vários sobre o que fez e não fez, palavras ácidas ainda que por vezes salpicadas de uma ternura que também dói por ser só recordação. Este dia a dia de um velho que aguarda a sua hora, de um velho que não quer o mundo nem a mundanidade que a obra lhe possibilitaria, de um velho que remói amarguras e lembra paixões num registo de agradecimento à vida, que não foi pai ainda que tivesse tido muitos filhos, que foi homem de muitas mulheres, embora de cada uma e só de cada uma na sua vez, aparece aqui nas palavras que a autora sentiu que poderiam ter sido ditas por ele. É por isso que as palavras se passeiam em passo breve ou num galope que parece impensado. A autora tanto as traz de rédea curta como as deixa ir numa marcha folgada, num passeio ao passado, para as tornar a meter num caminho contra o vento, no tempo presente a que o livro se reporta. A autora quase tem pudor em ser narradora. Deixa ao mestre do cinema todo o espaço de que as cenas necessitam e que ela compõe, nitidamente em cumplicidade com o biografado. Há por ali, tal como já tinha havido com Selma Largelöf, uma osmose entre o biografado e quem lhe dá voz e traça o perfil. E isso é perceptível no tom que o texto utiliza, no ritmo que escolhe, no pensamento que exibe nas mais pequenas coisas. É preciso dar-se para se poder receber o que o outro nos quis dizer. E é nessa dádiva constante, nesse ouvido superiormente afinado, que nos chegam as palavras de Bergman. São palavras ditas em confissão, naquela intimidade que só é possível ou no amor, ou na fé, ou no desalento de ainda se estar vivo. A descrição do cenário, o espaço em que tudo se passa, a ilha de Fårö, espaço visitado, assimilado e sentido, interiorizado, possibilita um mergulho na realidade que se quis contar. Não se fica à porta. Entra-se. Tão difícil fazer isto! E tão bem feito que isto ficou. Entre a memória factual e a fantasia fica o espanto, o espanto de quem lê, o grato espanto de ter participado nesta aventura.
Que desserviço incrível ao Bergman. É preciso ter coragem ou arrogância para se achar que se entrou na cabeça de alguém como o Bergman bem o suficiente para ser a sua voz. A autora diz-nos que acha que o compreendeu, e por isso empreenderá tal desígnio. Rapidamente se torna óbvio que, com ou sem coragem, a arrogância não foi suportada pela qualidade que a poderia ilibar. Este livro é francamente pobre - para além da estrutura desorganizada (ou antes, a falta de estrutura), que vá, poder-se-ia perdoar se o caos fosse frutífero, a escrita é infantil e repetitiva. Sim, a mousse de chocolate, sim, o malfadado cheesecake, por amor de deus, sim, as bolachas Maria no bolso, já percebemos... Porque é que senti que estava a ler sobre um homem que ocupava pelo menos 15% da sua faculdade de pensar com guloseimas? Até isto poderia ser perdoado, claro, se equilibrássemos estas trivialidades (que têm, como todas as trivialidades quando bem talhadas, potencial para nos trazerem deleite) com uma boa dose de densidade psicológica. Mas o produto final é desinteressante; cheio de lapalissadas e tiradas pseudo profundas que embatem no vazio. O livro foca-se demasiado em episódios biográficos, o que só poderia não ser um defeito se a escrita não pretendesse passar pela de Bergman. Mas, conhecendo nós a autêntica escrita do cineasta, só seria credível que uma voz fosse sua se houvesse um foco na interioridade, se se explorasse a complexidade do ser. Assim, ficámos pela sua queda para os doces e por vislumbres do que terá sido (dêmos isso de barato) a sua vida, e nem esses vislumbres foram veiculados pelo belo, ou ornados de observações subtis, como ele não teria deixado de fazer. Foi tormentoso imaginar que era o Bergman a falar.
Cristina Carvalho privilegiou-nos (a mim e à minha mulher) como seus primeiros leitores do seu último livro, Ingmar Bergman - O Caminho contra o vento, e é nessa qualidade que aqui estou sentado à sua mesa para falar do livro. Ora, para vos falar de Bergman, um dos meus primeiros mestres, gerou entusiasmo, ousadia, depois dificuldades várias. Não irei falar de cinema, o que seria grande atrevimento, sou mero espectador mais ou menos atento. Também a escritora não o fez e não precisava, outros, especialistas, o fizeram e bem. O foco de Cristina Carvalho foi para o homem e a sua intimidade. Com o passar dos anos, na arte, fui percebendo quão importante isto significa na compreensão da obra: conhecer o quotidiano do seu criador. Devo dizer que Bergman exerceu um poderoso fascínio quando eu e a Mila começámos a ver os seus filmes com regularidade no final dos anos 60. E assim se sucederam Mónica e o Desejo, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, O silêncio, Lágrimas e Suspiros, Sonata de Outono, Fanny e Alexander. A admiração era tal que, em 1985, nos levou, subitamente e de um dia para a noite, a uma aventura recambolesca de comboio até Madrid para tentar, e conseguir, assistir à estreia da sua encenação de A Menina Júlia, de Strindberg no Teatro Español, incluído no então Festival Internacional de Madrid. Também recordo que nos primeiros anos da ampla colaboração com o encenador Rogério de Carvalho, nomeadamente na longa preparação e ensaios de As Três Irmãs, de Tchekhov, víamos e revíamos vezes sem conta Lágrimas e Suspiros, estudando enquadramentos e luz. Foi assim que me iniciei no valor da sombra, na definição do claro-escuro, no papel fundamental de uma dramaturgia da luz e do espaço. À medida que fui avançando na leitura do novo livro CC, “descolei da escrita” e mergulhei numa espécie de autobiografia que, ao contrário da Lanterna Mágica de Bergman, essa sim uma autobiografia, se insinua mais por factos mais simples, pequenas fissuras na existência de um homem que marcou a cultura do século XX. E, quase a cada página, como fundo constante um ciclorama difuso: a paisagem imaginária da ilha de Fóre que rapidamente nos transporta para a solidão, a desolação, um mar de rochas fantasmagóricas, praias do silêncio, lugar primitivo. Este livro é como uma radiografia e nela transparece e impressiona uma incómoda presença da humanidade, quase repulsa da mesma depois de a ter conhecido, uma necessidade de esquecer fantasmas (constantes sombras nas paredes) e, como pano de fundo, o desejo de esquecer o peso insuportável da popularidade, e de esquecer os pesadelos de uma infância dura e traumática. Da obra que nos chegou primeiro, tanta coisa boa, tantas referências, tantas influências, que realmente só começamos a compreender e digerir totalmente, por contraste com o conhecimento do homem, atrás do criador anunciado. E assim as coisas que eram belas, medonhas ou inexplicáveis passam a ter uma raiz. Mais do que o cinema, foi o teatro que marcou a existência artística de Bergman, nunca escondendo a sua profunda admiração (atracção) por August Strindberg. Uma das suas mais recorrentes encenações foi para O Pelicano de Strindberg, e bastava saber dessa predileção para termos uma ideia de como Bergman sentia afinidades com Strindberg, para poder falar em comum dos níveis de crueldade e violência aos quais o homem pode chegar. A máscara é também uma marca que vislumbro sempre na sua obra e, neste livro, isso está bem presente, marcante até. Com o jogo permanente da máscara, a fonte inspiradora, Bergman passa a ter o antes e o depois, passa agora a revelar o homem por detrás da obra, evidenciando uma das suas obsessões: localizar a fronteira entre a representação e a vida. Por vezes sentimos na obra da autora um ligeiro perfume tchekhoviano, quando nos surpreende com a referência às … bolachas com yogurte … no quotidiano de Bergman. Fizeram-me lembrar aquele velho personagem de uma peça de Anton Tchekhov que se lamentava de “gastar” todo o dinheiro a comer rebuçados … ou então o relógio da caixa alta que nos evoca as casas mais antigas como a casa da propriedade de O Cerejal de Tchekhov … ou ainda as mil vezes que ele viu O Circo de Chaplin. Já se percebeu que gosto muito deste livro. Tem imagens muito fortes: como o homem solitário a caminhar contra o vento ou “tudo na minha vida está pensado ao pormenor, menos eu”. O homem que caminha contra o vento adquire uma outra dimensão quando se percebe que ele também corre contra o mundo, ou contra uma certa parte do mundo, cito… todo o mundo por vezes me irrita, esta é a verdade. Sem conhecer a ilha, fico com uma ideia muito forte desse lugar primitivo de refúgio, cito um tempo em que o mundo não era mundo… A sucessão dos lugares, das casas e das várias mulheres que amou, proporciona uma visão avassaladora do génio, deveras difícil e único de Bergman, onde uma personalidade de dimensão universal adquire por vezes a simplicidade (como ele parecia gostar) de um comum cidadão. Intensidade, uma palavra um pouco gasta, ou em desuso, aqui podia originar outro título… A intensidade segundo Bergman. Mas isto são meras especulações. Gosto muito do título do livro. Fiz como a Mila: depois de acabar, reli tudo. Será um grande romance biográfico, temos a certeza. Gostaríamos de ter pisado o chão da ilha, mas fica-nos uma ideia fortíssima, graças ao poder da escrita de Cristina Carvalho. (José Manuel Castanheira)
Cristina Carvalho já nos habituou à sua capacidade de “vestir” a pele de personalidades artísticas para escrever romances biográficos de grande riqueza psicológica, baseados em pesquisa sólida e motivados pelo seu interesse e curiosidade sobre grandes criadores - Chopin, Modigliani (Prémio SPA para Melhor Livro de Ficção), Selma Lagerlof. Com esta sua última e ousada empresa, consegue uma vez mais levar-nos e convencer-nos de que estamos com um Bergman envelhecido e misantropo na ilha de Faro, a rememorar O seu percurso tal como ele o poderia fazer a partir da sua desejada solidão. Um belo romance biográfico.
Coisas que fiquei a saber sobre Bergman: - Caminhava contra o vento - Tinha problemas com o pai - Era mulherengo - Teve muitos filhos a quem não ligava nenhuma - Tinha problemas de estômago e gostava muito de bolachas maria, iogurtes, guisados, mousse de chocolate e cheesecake de mirtilos - Teve problemas com o fisco nos anos 70 - Tinha uma personalidade marcada - Escolheu viver na ilha de Faro
Estes 8 factos são repetidos durante 176 páginas do livro. A opção pela narrativa na primeira pessoa é um pouco estranha, fiquei sem perceber bem o propósito do livro.