Em tempos de pandemia, isolamento social e ausência de qualquer tipo de certeza sobre o futuro, inevitavelmente acabamos refletindo sobre nossa própria condição. E não teria como não pensar sobre felicidade.
O título do livro é uma espécie de "clickbait", porque a grande maioria das pessoas enxerga a felicidade como algo importante e útil, ir contra isso parece algo errado. O título é de certa forma uma provocação.
Porém, o conceito de útil que o livro aborda é o de utilitarismo, no sentido de que a felicidade não está associada ao utilitarismo que permeia ocidente e oriente e que está comumente ligado ao capitalismo (apesar de não ser exclusividade dele). A felicidade não tem um porquê, uma razão de existir, ela simplesmente é, não tem uma utilidade intrínseca, e, por isso mesmo, tem um valor imensurável. Tudo que é útil tem uma finalidade que não está em si só e, por isso mesmo, não tem tanto valor quanto imaginamos.
Pode-se dizer "trabalhei para x", "fui até o lugar porque y", mas não se pode dizer "sou feliz para que z". Simplesmente "sou feliz". É esse basicamente o desenvolvimento que acontece pelo livro.
Para tornar isso mais palpável, várias definições do que é ser feliz ao longo da História e em vários grupos de pessoas são dados, como de filósofos gregos, mas também oferece exemplos modernos como de personagens de filmes (cuidado com os spoilers! pulei alguns pequenos trechos para evitar).
O livro não tem uma definição para a felicidade, nem promete ter e eu gostei disso. Na verdade, a conclusão do livro é justamente essa: não existe definição absoluta de felicidade. Pode ser fácil constatar isso, mas é difícil enxergar como cada um de nós ou um grupo com o qual nos identificamos acredita que a sua definição é a absoluta. Ou, também, como ouvimos de outros várias definições, que inclusive se tornam mainstream (alô livros de auto-ajuda), e isso acaba moldando uma definição na nossa cabeça que não é realmente a que achamos verdadeira, o que provoca um desalinhamento entre o que realmente queremos e a forma como vivemos.
Algumas dicas dadas pelo livro são para que se viva cada dia, um por vez, sem ser muito rígido com o que quer que aconteça, tendo jogo de cintura para lidar com tudo que acontece. A expressão "vida vivida" é recorrente e é uma forma de diferenciar a vida em que pensamos e planejamos e a vida que realmente acontece. No sentido de ser mais importante viver o agora, por mais que não seja totalmente agradável ou como esperamos, ao invés de tentar definir ou controlar o que pode acontecer. Em tempos de pandemia, esse é um ponto importante. Quem iria prever ano passado que uma pandemia ia acontecer e que iria mudar o mundo de maneiras que nem imaginamos? Faz sentido vender tanto do presente para planejar um futuro incerto?
É claro que nada deve ser levado ao extremo - uma vida sem qualquer tipo de planejamento acaba virando caótica. E uma vida totalmente flexível, sem ter alguma estrutura, acaba se tornando frágil.
Uma leitura leve, importante e divertida. O Clóvis escreve de uma maneira ao mesmo tempo elegante e divertida, sem parecer pedante nem informal demais.
5/5