Tundavala é sobre nós, um todo que se fragmenta e dilui.
Tuandavala é também sobre as mulheres, cujo corpo e mente são parte integrante do erário público. As questões políticas inerentes ao regime salazarista agravaram o que já existia: um medo colossal da força da mulher, aquela que não tem dó de aliar a paixão à sabedoria. Por esta razão, as personagens de obras cujos enredos permeiam os longos anos de ditadura descortinam as insuficiências do amor, quando confrontado com a repressão das ideias e dos atos. Cristina e Nils tinham, enquanto casal, a cabeça a prémio; Nils, por ser anti-regime, era tido como a escória da nação, viajante de maus caminhos, incompetente para governar uma mulher. Os homens conservadores, de classe média alta, emergiam enquanto figuras de autoridade (como Miguel), patrocinados pela chama acesa do Patriarcado, que a todas julga, a todas demole.
Tundavala descortina, a sangue frio, as múltiplas prisões por que passam as mulheres - muitas, ainda hoje. Parece, então, num primeiro olhar, que este é somente um retrato histórico programado para mergulhar no passado, mas não caiamos nessa armadilha! O privilégio e a pobreza, a deterioração do debate do político, as visões revolucionárias de múltiplas camadas, são outros temas de destaque que ainda nos acompanham.
Tundavala comporta um cariz cinematográfico, revelando de forma nítida as feições, os trejeitos e timbres das personagens. As suas vozes heterogéneas traduzem o que de mais decrépito compunha a ditadura, edificada sob um manto de neutralidade, ora fruto de ignorância, ora fruto da necessidade de preservar o status quo por parte de uma classe privilegiada.
Se na década de 60 não se publicavam livros anti-regime salazarista, hoje podemos acompanhar o nascimento da narrativas que rememoram esses tempos. Em liberdade, lemos diálogos perigosos, de almas em carne viva e matéria para canhão. Paula Lobato Faria não permite que a História, por ser história, nos deixe em paz.
Outrora escreveu-se em código - infelizmente não havia luar -, mas hoje escreve-se em memória - Tundavala.
[este é o segundo livro numa duologia; o primeiro livro intitula-se Imaculada]