São muito instigantes os poemas ecfrásticos que compõem “Ágora”, uma das últimas obras que Ana Luísa Amaral nos deixou, inspirando-se em pintores como Artemisia Gentileschi, Caravaggio, William Blake, Van Gogh e Giotto. Usando reproduções que retratam maioritariamente episódios bíblicos como mote para as suas composições…
[Salomé com a Cabeça de João Baptista, Andrea Solario, 1506-1507]
SALOMÉ APÓS O CRIME
Quantas vezes te vi
e me surpreendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha
Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?
Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria:
mas eu quis-te indefeso
como festa,
os teus lábios a festa para mim
Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!
Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)
E a luxúria
que há sempre
no amor
…ou descrevendo-as de forma a transpô-las para a atualidade…
[Cristo e a Acusada de Adultério, Bruegel o Velho, 1565]
A MULHER ADÚLTERA
O que escreveu na areia?,
ainda hoje se pergunta,
e são várias as vozes
dos que depois vieram,
legislando,
como os que estão aí,
calçados e erguidos
acima do degrau
Conseguiram ler o que dizia a areia,
Os que ali estavam?,
Soube-o ela?, as suas mãos cruzadas
Sobre o ventre, a cabeça inclinada
Gentilmente
Ou souberam-no as pedras
Que se vêem ainda pelo chão?,
Aos pés dos fariseus
e dos escribas
as pedras que não morrem,
mas possuem o poder de
matar
mulheres
ainda hoje
…"Ágora” é um olhar refrescante sobre imagens clássicas e um questionamento de figuras icónicas como Salomé, Jesus Cristo, Maria, Lázaro, Adão e Eva.