No mais recente livro de Ana Luísa Amaral, que conta com reproduções a cores de grandes obras de arte de todos os tempos, a poeta apresenta-nos um conjunto de poemas belos e terríveis, comoventes e violentos, em permanente diálogo com a Bíblia e com a arte, mas sobretudo com o nosso tempo.
Antes ser tudo e livre do que bom mas humilde
Assim pensara então
e agira
E o oriente lhe foi destinado: terra de mil castigos de difíceis colheitas; mais suor
Só depois descobriu que lá o sol nascia e que podia falar das coisas todas
ANA LUÍSA AMARAL nasceu em Lisboa, a 5 de Abril de 1956. Doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson, ensinou Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto. Autora de oito livros de poesia e dois livros infantis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata. Faleceu a 6 de Agosto de 2022.
São muito instigantes os poemas ecfrásticos que compõem “Ágora”, uma das últimas obras que Ana Luísa Amaral nos deixou, inspirando-se em pintores como Artemisia Gentileschi, Caravaggio, William Blake, Van Gogh e Giotto. Usando reproduções que retratam maioritariamente episódios bíblicos como mote para as suas composições…
[Salomé com a Cabeça de João Baptista, Andrea Solario, 1506-1507] SALOMÉ APÓS O CRIME
Quantas vezes te vi e me surpreendi porque te olhava? Sentindo a tentação de te espiar e o desejo de amar o que não tinha
Como saber pelos sonhos mais nus que me assaltavam que eu não era paisagem para ti?
Dizem luxúria só onde houve amor e um crime tão enorme de luxúria: mas eu quis-te indefeso como festa, os teus lábios a festa para mim
Quantas vezes me vi pensando no meu crime e na história dos homens a julgar-me!
Mas o que eu li na bandeja do crime foram os olhos com que tu me olhavas (finalmente eu paisagem)
E a luxúria que há sempre no amor
…ou descrevendo-as de forma a transpô-las para a atualidade…
[Cristo e a Acusada de Adultério, Bruegel o Velho, 1565] A MULHER ADÚLTERA O que escreveu na areia?, ainda hoje se pergunta, e são várias as vozes dos que depois vieram, legislando,
como os que estão aí, calçados e erguidos acima do degrau
Conseguiram ler o que dizia a areia, Os que ali estavam?,
Soube-o ela?, as suas mãos cruzadas Sobre o ventre, a cabeça inclinada Gentilmente
Ou souberam-no as pedras Que se vêem ainda pelo chão?, Aos pés dos fariseus e dos escribas
as pedras que não morrem, mas possuem o poder de matar
mulheres
ainda hoje
…"Ágora” é um olhar refrescante sobre imagens clássicas e um questionamento de figuras icónicas como Salomé, Jesus Cristo, Maria, Lázaro, Adão e Eva.
A ideia não é inédita — por exemplo, Robert Walser fez algo semelhante em Histórias de Imagens —, mas é excelente e de resultado belíssimo: descrever um quadro com um texto poético.
(Madalena penitente, Georges de La Tour, 1640)
MADALENA: RECTIFICAR A HISTÓRIA
ainda assim, tentar
rectificar o sol:
um agasalho interno para o coração
(Cristo e a acusada de adultério, Bruegel, o Velho, 1565)
A MULHER ADÚLTERA
O que escreveu na areia?, ainda hoje se pergunta, e são várias as vozes dos que depois vieram, legislando,
como os que estão aí, calçados e erguidos acima do degrau
Conseguiram ler o que dizia a areia, os que ali estavam?,
Soube-o ela?, as suas mãos cruzadas sobre o ventre, a cabeça inclinada gentilmente
Ou souberam-no as pedras que se vêem ainda pelo chão?, aos pés dos fariseus e dos escribas
as pedras, que não morrem, mas possuem o poder de matar
"Em vez de peixes, Senhor, dai-nos a paz, um mar que seja de ondas inocentes, e, chegados à areia, gente que veja com coração de ver, vozes que nos aceitem
É tão dura a viagem e até a espuma fere e ferve, e, de tão alta, cega durante a travessia
Fazei, Senhor, com que não haja mortos desta vez, que as rochas sejam longe, que o vento se aquiete e a vossa paz enfim se multiplique
Mas depois da jangada, da guerra, do cansaço, depois dos braços abertos e sonoros, sabia bem, Senhor, um pão macio, e um peixe, pode ser, do mar
Pocas dudas de que este excepcional poemario de Ana Luísa Amaral va a ser uno de los mejores libros que lea este año.
«El vellocino de oro, ¡ese! exclamó él
Y para poseerlo sacrificó ejércitos de esclavos sin altura ni nombre (comparados con el dragón mayor que protegía la caverna de los misterios)
Eran esclavos-soldados, casi niños, muchos, y las madres dentro del mito nada dijeron, porque nada pudieron decir
Y el vellocino finalmente conquistado era del color de la sangre y del sacrificio, y la sangre era tan espesa, hizo un río tan largo, y tan brutal, que corrió durante siglos
Y el vellocino se hizo vela, territorio, nación, y otro en su sueño (o pesadilla) repitió: ¡Ese!
Gritando, lo reclamó
Y la masacre se elevó y se cumplió, y protegido por el dócil vello, él sonrió, mientras tantos morían,
Foi muito bom conhecer Ana Luísa Amaral. Este conjunto de poemas representa bem o papel da poesia na vida - ora dá (vida), ora pinta motivos, ora despe inquietações. Exercício este aqui brilhantemente associado a uma série de obras de arte e recursos mitológicos/bíblicos.
Esperava muito mais deste livro, até porque conheço imensos bons e excelentes poemas de Ana Luísa Amaral. A excelência da sua poética não está em causa, mas aqui pareceu-me não ter havido, com excepção de alguns poemas de grande subtileza e concisão, aquele rasgo lírico que os temas (e as pinturas) bíblicos mereceriam. Talvez a transição da leitura dos fortíssimos "Ascensor de Sombras" de José Pedro Leite e "Caos e Catástrofe" de Luís de Miranda Rocha tenham criado este efeito de astenia poética. Para além de duas obras de Louise Glück. Ana Luísa Amaral é uma extraordinária poeta e brihantíssima tradutora, em especial da obra de Emily Dickinson. Mas aproveite quem gostar de poesia e pintura. Jorge de Sena já havia feito algo semelhante, muitas décadas atrás, em "Metamorfoses", mas com outro brilhantismo.
E todos tinham uma língua igual ciosamente amada por noites de luar, por dias claros
Com ela nomeavam os sentidos das coisas sem sentido antes de ser, por ela se espelhavam na memória, pois a memória era também de todos e a todos preenchia o pensamento
E se o céu era alto e eles fortes no poder todo que a palavra dá, e se o céu oferecia habitação às aves e às nuvens e ao sol, porque não conquistá-lo em desafio profano?
Diz-se que a punição surgia precisa em exata medida para o crime, que a confusão cresceu junto às palavras, ensombrando o silêncio outrora amado, descompassando os dias e as coisas
Diz-se que a punição se cumpriu justa no divino saber
Mas foi decerto gesto de ciúme talvez quem sabe afirmação de quem já não tem demais céus
Poemas belíssimos em diálogo com as ilustrações que reproduzem pinturas ou gravuras de épocas e artistas diversos. Um dos melhores livros da Ana Luísa.
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Sem considerações de forma ou feitio, os poemas de Ágora tocaram-me por várias vezes e empontos imensamente atuais. Inspirados em gravuras clássicas, estabelecem a ponte entre as cenas representadas e o humano que em cada uma se encontra, e que é agora como sempre foi. Recomendo.
Ler Ágora logo após Mundo não terá sido a melhor ideia. Saltei de uma poesia do dia a dia, de tudo, do amor, para uma experiência ekfrásica bíblica através das palavras de ALM. A combinação das pinturas com a interpretação poética das mesmas é uma ideia interessante, mas não acho que seja tão boa quanto o que já li da autora. Talvez precise de mais bíblia e mais arte para poder apreciar melhor este trabalho. A "Prece no Mediterrâneo" foi o meu poema favorito.
A forma como a pintura e a poesia se entrelaçam nestes versos, estabelecendo uma ponte com o lado bíblico, é mesmo interessante. No entanto, confesso, estava à espera que os poemas me arrebatassem, que me transcendessem. Anotei passagens inspiradoras, mas esperava encontrar algo mais visceral. Ainda assim, quero reencontrar-me com a autora.
Uma travessia feita de poema em poema, associada a imagens bíblicas e outras dramáticas, ainda atuais. Gostei muito do poema «Preces no Mediterrâneo», pela emoção que me transmitiu.
« Em vez de peixes, Senhor, dai-nos a paz, o mar que seja de ondas inocentes, e, chegados a areia, gente que com o coração de ver, vozes que nos aceitem»
Para quem gosta de poesia, baseada em arte pictórica.