Cresceu em Lisboa, Macau, Utrecht, Helsínquia. Trabalha em teatro, dança e cinema. Quase sempre nos bastidores. Vive entre Paço de Arcos e Antuérpia.
Tem 34 anos. Publicou "Operação Cardume Rosa"; "Se Não Bigo Não Digo" (ambos na Fenda); "Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela" (Caminho) e "Escudos Humanos" (Culturgest). Fez o curso de realização Plástica do Espectáculo e esteve no Teatro da Garagem, O Olho e Projecto Teatral. Escreveu diversas peças, como one spoke, one smoked, one died; Operação Cardume Rosa; T5; Banquete ou a Trilogia Flatland. Recebeu os prémios ACARTE/Madalena Azeredo Perdigão; Revelação de teatro pela Associação de Críticos de Teatro Portugueses e Navegadores Portugueses 94 de BD, pelo CNC.
Tenho de confessar que não sou um amante de contos. Porém, sou sensível a um bom conto, com princípio meio e fim, que sempre me deixa a pensar: como foi possível transmitir tudo (tão bem) de uma forma tão sintética. Lendo outras reviews, reflicto: será que entendi este Dias Úteis?… A escrita é boa: indubitavelmente. Procurarei outros trabalhos da autora.
lido numas horas, agora que o acabei preciso de voltar tudo ao início e ler ler ler ler de novo, porque este é daqueles livros que não se lê, come-se, bebe-se, e eu preciso de ficar com ele mesmo que só tenha 100 páginas
"Procuramos o lugar exato de onde vem a razão ignorando que a lógica nunca evitará a dor. Fazemos sentido porque podemos cair, não porque poderemos voar."
“Dias Úteis” de Patrícia Portela é um livro que devido aos seus capítulos e diferentes temas pode ser lido como contos.
A autora começa esta obra com um “prefácio fora de jogo”, como lhe chama. De início não foi fácil entrar neste Jogo e nesta linguagem porém acabei por me familiarizar com a continuação da leitura. Patrícia Portela vai-nos descrevendo o Jogo, a sua logística, os seus jogadores, os organizadores e coordenadores principais, assistimos a pénaltis e vai “jogando” também com o leitor porque a mensagem que a autora quer passar está nas entrelinhas. Um Jogo da Vida num relato de futebol.
“Durante este Jogo, aliás como já referimos, tomam-se sempre grandes decisões. De forma mui discreta e no entanto célere como convém. Trocam-se países, mudam-se fronteiras, ganham-se fortunas, recuperam-se feriados, fazem-se negócios (da China e de outros lugares bem mais improváveis). E ninguém dá por nada não porque estejam todos a ver o Jogo, até porque claques e público em geral é coisa que não há, até porque este é um tipo de desporto difícil de ver, um Jogo demasiado prolongado, no tempo e no espaço, que envolve por vezes pequenos ajustes que não estão muito na moda nem caem bem nos costumes dos demais mas ficam bem na fotografia de jornal e, estranhamente, dão boa publicidade.”
Segue-se a “didascália”. Uma conversa entre livro e leitor:
“Abre-me. Lê-me. De preferência sem interrupções, mas se com pausas, pousando-me devagarinho, e só em caso de força maior, acidente, surpresa ou descanso temporário."
Todos os dias da semana têm um tema, uma narrativa e personagens diferentes porém todas convivem com solidão. Têm em comum serem narrados na primeira pessoa. Cada história tem múltiplas camadas que podem ser lidas nas entrelinhas. Li este livro uma vez mas acredito que se for ler novamente irei descobrir mais dentro de cada conto. Parece que a autora não deixou nenhuma frase ao acaso.
Segunda-feira é dedicada à personagem de Alice Winston Smith que, segundo a mesma, tem uma vida de rotina.
“Levo uma vida habitual de segunda a sexta."
Na terça-feira temos uma personagem cheia de sonhos, que luta com ela mesma, com a sua identidade, para ser diferente e os realizar mas depois arranja justificações para continuar na mesma. Não passam mesmo de sonhos.
A quarta-feira é um conto muito doloroso e o meu preferido. Uma partida. Uma ruptura. Alguém que fica perdido em si e no vazio. Entre o passado e a ausência de futuro. Num impasse sem saída. Uma narrativa poética que por vezes roça o fluxo de consciência e me passou o desespero da personagem.
“A porta fecha-se. Perdida do lado de fora, trago uma mala cheia de apetrechos inúteis recolhidos à pressa para não sair de mãos vazias. Destacada de mim vejo-me. Não reconheço nada do que penso. As palavras que não se dizem, poluem os órgãos. Todos. Retorcida pelo tempo, eu já não sou eu. A chance de um reencontro com o que se transforma é uma ilusão que se persegue. A amnésia induz ao desespero. A porta continua fechada. Se parto, afogo-me. Se fico, não tenho chaves nem ninguém para me abrir a porta. Viro costas e desato a correr contra o vento. E o vento desata a correr contra mim. Não saio do lugar.”
O conto de quinta-feira tem como tema os refugiados e os que por alguma razão tiveram de deixar a sua terra natal. Existe alusão constante a palavras como terra, fronteira, país…
“Nem meia dúzia de quilómetros percorro e deparo com um muro. Que divide uma cidade. Que divide um país. Que divide um mundo inteiro.”
Temos o “porque hoje é sábado” com uma história de amor e luto, de memória e dor.
“Mas eu nunca poderia amar-te tanto se fosses vivo. A gravidade, mais uma vez, exige contexto, peso, circunstância e geografias comuns, e nunca tivemos nenhum destes elementos do nosso lado. A memória é um inimigo poderoso, mantém o cérebro a funcionar contra a sua vontade. Por favor, deixa-me."
E ainda temos um epitáfio de domingo para o dia seguinte.
Patrícia Portela mostra no seu livro o Jogo da Vida e o caos tão diferente que se pode estabelecer na vida de cada um de nós. Deixou-me uma imagem de criatividade e reflexão sobre o título: todos os dias são úteis.
Tenho inveja deste livro e de quem o escreveu. Li-o em três tomos, ou seja, peguei-lhe um total de três vezes para o começar a ler e acabar. Fui à biblioteca com o intuito de trazer tudo da Patrícia Portela porque já sabia que ia gostar. Li mais de um terço logo num banco de jardim ao pé da biblioteca. Não conseguia parar, mesmo quando me entrou uma poeira para o olho. O meu bem-estar, naquele momento, era menos urgente que acabar aquela página. Este "Dias úteis" é uma leitura maravilhosa de tão imaginativa, como a autora já nos habituou. O livro começa com um livro a dirigir-se a nós e continua a surpreender com cenário mágicos e nunca lidos. Que cabeça tem Patrícia Portela, que inveja de certas cabeças. Vou ter de reler porque de certeza que me escapou alguma coisa de muito boa e que irá acrescentar outra estrelinha ao livro, que acabei de ler numa certa madrugada.
Há dois anos que ando para ler algo da Patrícia Portela. Foi desta.
Recentemente lançado pela Caminho, "Dias Úteis" tem pouco mais de cem páginas. Numa edição linda levou-me a uma compra por impulso. E mais uma vez não errei. Pelo contrário, é maravilhoso. Assumo que tenho algum receio em recomendar este livro. Tem pouco de linear e tradicional. Precisamos de sair da zona de conforto e dar lugar a novas vozes na literatura portuguesa.
“Sou uma coisa sem sentido que sai com frequência em sentido contrário e nunca chegando a lado nenhum, continua. Sou uma coisa daquelas que não foi feita para ter audiência mas que passa constantemente na televisão. Apresento-me assim, toda por escrito e a chorar nas entrelinhas porque me exigem com regularidade que confirme ao microfone de um quarto escuro que a vida é um cliché que só se bebe por frases curtas. Da última vez que entrei num estúdio piquei-me num fuso horário. Durmo agora o sono dos pecadores em direto e a minha respiração faz um feedback que já está traduzido em cento e oitenta e três línguas e em várias correntes artísticas e literárias.”
queria ter lido mais rápido, mas ao mesmo tempo, gostaria de ter lido mais devagar, porque cada palavra é de uma verdade que ultrapassa a própria verdade, é o nosso espelho, a nossa imagem refletida num espelho que tem muito a nos dizer, mas que nos mata com seu silêncio. o que eu mais gosto nos dias úteis - nos dias do calendário e na obra de Portela - é a desordem humana.
Em termos pessoais, diria que o nome de Patrícia Portela remete por inteiro para o Teatro. É na qualidade de encenadora, dramaturga, cenógrafa ou actriz (ou tudo isso ao mesmo tempo), que a conheço e me habituei a vê-la. A verdade é que, havendo uma Patrícia Portela em todos esses papéis, há sobretudo uma Patrícia Portela escritora, como ela própria reconheceu em entrevista ao Jornal de Letras, datada de 2017. Foi isso que percebi ao ler “dias úteis”, um livro onde nos damos conta de uma escrita singular, versátil e tremendamente imaginativa, à medida que adentramos o multifacetado universo desta autora. Através das suas palavras, descobrimos o afã criador nesse ponto indefinido onde Literatura e Teatro se parecem misturar e confundir, e que nos parece lembrar que a vida é o mais precário dos palcos.
Quem o sopesa no início e olha para ele agora que a leitura chega ao fim, sabe bem o quão enganador um livro pode ser. Com pouco mais de cem páginas, “dias úteis” é gigante naquilo que tem para nos oferecer. As leituras possíveis são tantas e tão distintas que se torna impossível classificá-lo. É um livro exigente, denso e complexo, que pede tempo e reclama investimento. Sucedendo-se numa lógica que parece estar ali para se contrariar a si própria, as palavras são objectos que se colhem em sobressalto, se avaliam na sua intimidade, se analisam dos mais variados ângulos antes de, com todo o cuidado, serem devolvidas ao livro. Entre a tentativa e o erro, ditos e subentendidos, palavras soltas ou escritas pela metade, o leitor vai rodando nas mãos as peças deste imenso puzzle até descobrir o sítio certo onde as encaixar. É um jogo de paciência, cuja imagem final deixará perceber a presença de um ínfimo elemento à deriva no caos que tomou conta da humanidade e no qual cada leitor tenderá a reconhecer-se.
Antes de segunda-feira, o primeiro dia útil da semana, já Patrícia Portela nos abriu as portas da quadra de jogo, apresentou as equipas e veio dizer que a regra é não haver regra. Somos peões num tabuleiro do qual não podemos fugir. A cada um o seu momento. Todos acabarão por ser chamados a dar prova do seu valor e da sua verdade. Nesse imponderável que é estar vivo, serão muitos os que perceberão que é naquilo que os separa dos outros que se encontram os melhores trunfos. Outros, por seu lado, jogarão o jogo sem sequer se darem conta. Os dias suceder-se-ão e mostrarão que “levar uma vida habitual de segunda a sexta feira” é o máximo a que cada um poderá aspirar. O resto é o que já sabemos: Desmembramo-nos aos poucos, como se fossemos feitos de papel. Trocamos todas as coisas por qualquer coisa, até darmos por nós a plantar urânio numa praia. Buscar respostas claras para o complexo princípio do Universo é inútil, tão inútil como fazer planos de férias. “Somos todos zombies, nem carne, nem peixe, nem vivos, nem mortos, e não há plano de contingência para tamanha catástrofe natural.” A semana chega ao fim. O epitáfio de domingo para o dia seguinte é um espaço em branco.
3 1/2 * O conto inicial, “Prefácio fora de jogo”, é genial, a fazer lembrar Woody Allen dos anos 70, pelo humor corrosivo e as mil e uma ideias/imagens lançadas de forma quase desenfreada, (aparentemente) sem rédeas.
“Terminado o cantar (alentejano), faz-se nova pausa e o júri seleciona a melhor voz. O jogador escolhido ganha uma coroa de louros, um ou dois minutos de glória, três caprissones e vai para casa ter com a família e ser feliz para todo o sempre. Não jogará. Ainda não é desta.”
Gostei dos restante contos, uns mais do que outros.
NOTA: Não encontrei nenhum racional forte para associar os nomes dos contos com dias da semana. Dei por mim a criar novos títulos quando terminei a leitura, numa tentativa de preservar a individualidade de cada história. Caso típico do leitor que se apropria de um livro.
se você gosta de contos, dê uma chance. se você gosta de clarice ou saramago (mesmo que de leve), dê uma chance. se você - como eu - tem um projeto pessoal de ler mais portugueses contemporâneos e/ou mulheres, dê uma chance à literatura de patrícia portela (portuguesa, contemporânea e mulher). caso goste, venha e dê-me um abraço (pós-vacina pode ser pessoalmente, por enquanto só virtual mesmo); se não gostar, acontece, livros não são unanimidade (como diz tati feltrin) e tá tudo bem - aceito o abraço do mesmo modo. novamente, obrigado, patrícia (e editora dublinense) por esse livro.
fui grifando ele inteiro. é uma experiência dramatúrgica, pelo fato de serem compostos em monólogos, e também pelo percurso da autora. a rotina incansável que adquire contornos, ganham vida, pedem corpo. segundas-feiras lutando contra insônias; terças-feiras em que buscamos subterfúgios; quartas-feiras em que nos descabelamos pelo desespero de não colocar em palavras; quintas-feiras que são linhas e mais linhas que formam espirais por nós mesmos; sextas-feiras em que tudo é inatingível e o nada traz alento; ou sábados com o abandono nos martelando, mas que se mostra suficiente?
morrendo de dúvida entre dar 3 ou 4 ★, mas, no fim das contas, fui três.
o prefácio fora de jogo é uma das coisas MAIS BRILHANTES, inteligentes e engraçadas que já li. ele é ácido, combativo, político e crítico de um jeito muito gostoso de ler. foi o ponto alto do livro pra mim.
não me entendam errado: o livro inteiro está cheio de frases muito maravilhosas. bem trabalhadas, bonitas, profundas, filosóficas. e a citação que abre a coisa toda é do Ricardo Reis – ENTÃO, obviamente, as minhas expectativas estavam bem altas para o resto.
mas, pra mim, os contos (de segunda à sexta) tinham tons sombrios, niilistas & desacreditados demais da vida para eu realmente me conectar. não chegou a ser uma leitura ruim, mas se o livro fosse um pouco maior é bem provável deu ter largado no meio. com o tempo, felizmente, eu aprendi a separar a minha preferência temática da minha crítica racional sobre as obras que leio.
Patrícia Portela é uma contista com coração de poeta, chuto.
e ele tem muito cara de ser a Clarice Lispector moderna de Portugal. mas ela expõe algumas feridas e trabalha no lado desiludido & cínico da sociedade mais do que eu acho que deveria. por isso que essa leitura, no fim das contas, foi muito válida, mas não me deu tanto prazer.
com exceção da quinta-feira.
essa foi a parte (novela? conto?) mais incrível. a história teve um toque de realismo mágico, meio à la Saramago, irresistível. amei.
"Se calhar o tempo também é terra, também é um país, um país maior do que todos os outros, que sobrevoa todos, que acumula todos os Estados da terra e os deixa cair, de vez em quando, como resíduos de lugares em lugares de lugares, em lugares onde estes lugares nunca estiveram antes. Como pode a terra ser feita de uma só palavra quando nela cabem tantas outras?"
"Fazemos sentido porque podemos cair, não porque poderemos voar. Escrevemos porque somos limitados pelo hardware da imaginação, conscientesde que nada é indescrtítivel através de palavras, mas alguns pensamentos tornam-se insuportáveis com facilidade quando escritos. A gravidade é o que nos torna humanos e graciosos."
Uma belíssima prosa, trabalhada numa linguagem sensível e muito simples. Não conhecia as obras da autora e essa foi a primeira experiência. Seguramente procurarei seus outros romances.
___o que aqui se lê é a vida, em forma de jogo ao qual somos chamados, pois se nascemos é para o jogar, contudo porém as regras não são exactas, definidas e mudam sem aviso prévio! Um jogo, pois então. Lemos também a vida dos desassossegados que têm que pegar na trouxa e ir bater a outras portas, noutros países, por aí, à procura de... E à terça - feira lemos a vida de uma workaoolic que vai para sete anos não vai de férias e pelo caminho vai ficando só mesmo com o trabalho, (cuidado, eu diria; Quem nos come a carne, não gosta de roer os ossos !) Livro escrito em saltos e fragmentos que dão corpo à ideia subjacente a cada conto que, mas também pode ser nada disto! Leiam e tirem as vossas conclusões .