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A Enxada e a Lança: a África Antes dos Portugueses
AUTOR VENCEDOR DO PRÊMIO CAMÕES 2014! A enxada e a lança é "um daqueles livros que já nascem clássicos, no sentido de que, situando-se no plano das grandes obras universais, conquistam desde logo um lugar permanente e definitivo em qualquer biblioteca de cultura". WILSON MARTINS
Este box África apresenta, em dois volumes, o livro "A enxada e a lança", de Alberto da Costa e Silva, um estudo minucioso sobre o continente africano antes da chegada dos portugueses. O ensaio começa na pré-história do continente africano, que se confunde com a própria pré-história do homem, e termina em 1500, época em que muitos outros livros de história começam. Somente uma frase, a última, depois de mais de novecentas páginas, permite antever o início da era moderna, mais próxima e mais "Não se estranhará, por isso, que os congos, e talvez outros povos antes deles, confundissem com baleias as formas bojudas que se aproximavam de suas costas e traziam os portugueses". Apoiado em vastíssimo material arqueológico, antropológico e histórico pouco conhecido no Brasil, "A Enxada e a Lança" descreve povos e etnias, técnicas agrícolas e de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, costumes e crenças, línguas e dialetos, tratando sempre da África negra.
Este box África apresenta, em dois volumes, o livro "A enxada e a lança", de Alberto da Costa e Silva, um estudo minucioso sobre o continente africano antes da chegada dos portugueses. O ensaio começa na pré-história do continente africano, que se confunde com a própria pré-história do homem, e termina em 1500, época em que muitos outros livros de história começam. Somente uma frase, a última, depois de mais de novecentas páginas, permite antever o início da era moderna, mais próxima e mais "Não se estranhará, por isso, que os congos, e talvez outros povos antes deles, confundissem com baleias as formas bojudas que se aproximavam de suas costas e traziam os portugueses". Apoiado em vastíssimo material arqueológico, antropológico e histórico pouco conhecido no Brasil, "A Enxada e a Lança" descreve povos e etnias, técnicas agrícolas e de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, costumes e crenças, línguas e dialetos, tratando sempre da África negra.
768 pages, Board book
First published January 1, 1992
About the author
Alberto da Costa e Silva
36 books25 followersNasceu em São Paulo em 1931. É poeta, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras. Um dos mais importantes intelectuais brasileiros e especialista na cultura e na história da África. Publicou diversos livros sobre o assunto, como A enxada e a lança (1992), A manilha e o libambo (2002), Um rio chamado Atlântico (2003) e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004). Escreveu Castro Alves, um poeta sempre jovem (2006), para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. Também é autor de livros infantojuvenis, como Um passeio pela África (2006) e A África explicada aos meus filhos (2008). Em 2009, publicou O quadrado amarelo, que reúne textos sobre arte e literatura, cruzando referências populares e eruditas, recorrendo à memória e às suas experiências de viagem. Além dos Poemas reunidos (2000), publicou dois volumes de memórias, Espelho do Príncipe (1994) e Invenção do desenho (2007). Entre os prêmios e distinções que recebeu estão os títulos de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé, Nigéria, 1986) e pela Universidade Federal Fluminense (2009) e o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano (2003) da União Brasileira de Escritores. Ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, desde 2008 dirige a coleção das obras completas de Jorge Amado para a Companhia das Letras.
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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
June 26, 2025
O passado que se entranha no que somos e nas formas da nossa vida, um passado em que é difícil distinguir mito e realidade. Em sua história da África Alberto da Costa e Silva tenta reconstruir esse passado perdido mesmo através dos diversos patamares de civilização africana. Por exemplo, uma noção de beleza das paisagens construída a partir dos céus abertos, dos verdes amplos, do ar, da luz que deixa os corpos reluzentes e assim os deforma. Ou também: notou-se como houve uma filtragem geográfica dos oceanos e desertos de certos costumes estrangeiros, nem todos obtiveram o sucesso da mandioca e do beijo por exemplo. Claro, muitas dessas decisões são influenciadas por características geográficas como a dos agrupamentos humanos que estavam, em geral, separados por grandes vazios demográficos, que coincidiam frequentemente com as áreas de ocupação mais difícil: as estepes ressequidas, os carrascais, as florestas cerradas. Mas há também a confluência das decisões individuais que produz uma personalidade própria àqueles povos, como na arquitetura das pequenas mesquitas de Ilorin, no norte do Iorubo, na Nigéria, parecem ondular e as casas tradicionais dos iorubás, com suas paredes que acompanham os acidentes do chão e os grossos muros de barro não hesitam em inclinar-se. São construções que dão a impressão de macieza e dança, com as paredes retalhadas por leves formas geométricas, arcos dentados, imaginosos zigue-zagues.
A história da África pode se gabar de ter sido aquela em que originalmente a humanidade aflorou, mas o foco civilizacional de seu período antigo foi a Núbia e o Egito. O Egito, desde o Antigo Império, reconheceu “Três Portas” geopolíticas, o Delta noroeste, o Sinai e a fronteira sul, que é o limite dos núbios. Entre o fim do Reino Antigo e o Médio/Segundo Período Intermediário, a Núbia consolidou um poder próprio em Querma — que os egípcios chamavam de Cuxe—, com um centro político e funerário robusto, como evidenciam a “Dufufa ocidental” e sepultamentos com abundantes objetos egípcios, sinalizando tanto apropriação como prestígio e circulação de bens. A relação é dialética: a Núbia absorve elementos egípcios (religião, artes, titulaturas), mas os reinventa em chave local; o Egito, por seu turno, depende de recursos núbios (ouro, gado, rotas, tropas) e disso deriva a centralidade de Cuxe. A fase napatana inaugura uma inflexão decisiva. Com Napata, já na Quarta Catarata, e o culto de Amon em Jebel Barkal, forma-se uma elite núbia profundamente “egipcianizada”, porém arcaizante: prefere modelos do Antigo Império e vê a si como guardiã da pureza faraônica. Contudo, com a ofensiva assíria e rearranjos internos, os reis cuxitas retiram-se a Napata, mantendo por gerações uma memória faraônica “em exílio”. Com o gradual enfraquecimento de Napata outra cidade, Méroe, assume o centro político. O que define Méroe é sua posição como nó caravaneiro, articulando rotas entre lagos, planaltos e o mar Vermelho; o ferro floresce ali porque as condições logísticas e de combustível (lenha) eram amplamente disponíveis ao longo do Nilo. A Núbia cristã se bizantiniza: elites adotam títulos e vestuário à maneira de Constantinopla, a arte mural evolui em fases estilísticas, as instituições monárquicas transitam do modelo do “rei divino” para legitimidades cristãs, mantendo o poder sobre terras e súditos. Há, portanto, na arte, religião e política núbio-egípcias mantêm uma longa continuidade de intercâmbio, que seria sentida na próxima fase, o período medieval, e até hoje na Etiópia.
Além de gostos e sentimentos e intercâmbio entre civilizações, nos processos - conquanto menos tangíveis - também há continuidade histórica. Talvez o maior processo histórico na história da África é o comércio transaariano que começa na época medieval. O processo de desertificação terminou 9000 anos atrás, mas só no terceiro século aproximadamente a adoção generalizada do dromedário o Saara (termo tuaregue que significa deserto) se converte em “mar interior”, permitindo travessias de dois meses, com passagens por ergs (enormes áreas de dunas de areia) ou tanezruftes (extensos trechos de aridez absoluta), passando três, quatro, cinco, seis ou até mesmo 14 jornadas sem encontrar um poço d’água. De tanto em tanto, um oásis. As mercadorias mais importantes e mais antigas do comércio transaariano foram o escravo, o ouro e o sal. O ouro, tão necessário à economia monetária do norte da África, da Europa e do Oriente Próximo. O sal, indispensável às populações sudanesas e silvícolas. Contudo, o escravo foi a chave mais importante do tráfico transaariano e da política no Medievo norte-africano; basta lembrar o papel crucial cumprido pelas tropas negras dos aglábidas, na Tunísia, e de Ahmad ibn Tulun, no Egito, o caso dos Fatímidas. Nas duas margens do deserto - Magreb e Sahel - e nos oásis que o pontuavam encontraremos os “players”. Na margem norte, junto ao mediterrâneo, os califados muçulmanos como os Omíadas, Abássidas e Fatímidas detinham dinheiro e mercadorias especializadas e as mercadejavam desde o Magreb, as províncias ocidentais. No Sahel (designação geográfica das regiões entre o Saara e o atlântico) diversas tribos como os Soninquês e saracolês buscavam intermediar o comércio. Dos que entre o Sahel e o Magreb poderiam se chamar propriamente senhores do deserto, relatam-se Gana, Mali e Songai: soberanias centradas em pessoas, tributos e redes comerciais, cidades como Tombuctu, Jenné e Gao, elites muçulmanas e resistências dos cultos tradicionais. Pode-se dizer que a experiência milenar do comércio transaariano foi antecessora, em sua estrutura de processo, das grandes navegações dos portugueses e espanhóis.
A história da África pode se gabar de ter sido aquela em que originalmente a humanidade aflorou, mas o foco civilizacional de seu período antigo foi a Núbia e o Egito. O Egito, desde o Antigo Império, reconheceu “Três Portas” geopolíticas, o Delta noroeste, o Sinai e a fronteira sul, que é o limite dos núbios. Entre o fim do Reino Antigo e o Médio/Segundo Período Intermediário, a Núbia consolidou um poder próprio em Querma — que os egípcios chamavam de Cuxe—, com um centro político e funerário robusto, como evidenciam a “Dufufa ocidental” e sepultamentos com abundantes objetos egípcios, sinalizando tanto apropriação como prestígio e circulação de bens. A relação é dialética: a Núbia absorve elementos egípcios (religião, artes, titulaturas), mas os reinventa em chave local; o Egito, por seu turno, depende de recursos núbios (ouro, gado, rotas, tropas) e disso deriva a centralidade de Cuxe. A fase napatana inaugura uma inflexão decisiva. Com Napata, já na Quarta Catarata, e o culto de Amon em Jebel Barkal, forma-se uma elite núbia profundamente “egipcianizada”, porém arcaizante: prefere modelos do Antigo Império e vê a si como guardiã da pureza faraônica. Contudo, com a ofensiva assíria e rearranjos internos, os reis cuxitas retiram-se a Napata, mantendo por gerações uma memória faraônica “em exílio”. Com o gradual enfraquecimento de Napata outra cidade, Méroe, assume o centro político. O que define Méroe é sua posição como nó caravaneiro, articulando rotas entre lagos, planaltos e o mar Vermelho; o ferro floresce ali porque as condições logísticas e de combustível (lenha) eram amplamente disponíveis ao longo do Nilo. A Núbia cristã se bizantiniza: elites adotam títulos e vestuário à maneira de Constantinopla, a arte mural evolui em fases estilísticas, as instituições monárquicas transitam do modelo do “rei divino” para legitimidades cristãs, mantendo o poder sobre terras e súditos. Há, portanto, na arte, religião e política núbio-egípcias mantêm uma longa continuidade de intercâmbio, que seria sentida na próxima fase, o período medieval, e até hoje na Etiópia.
Além de gostos e sentimentos e intercâmbio entre civilizações, nos processos - conquanto menos tangíveis - também há continuidade histórica. Talvez o maior processo histórico na história da África é o comércio transaariano que começa na época medieval. O processo de desertificação terminou 9000 anos atrás, mas só no terceiro século aproximadamente a adoção generalizada do dromedário o Saara (termo tuaregue que significa deserto) se converte em “mar interior”, permitindo travessias de dois meses, com passagens por ergs (enormes áreas de dunas de areia) ou tanezruftes (extensos trechos de aridez absoluta), passando três, quatro, cinco, seis ou até mesmo 14 jornadas sem encontrar um poço d’água. De tanto em tanto, um oásis. As mercadorias mais importantes e mais antigas do comércio transaariano foram o escravo, o ouro e o sal. O ouro, tão necessário à economia monetária do norte da África, da Europa e do Oriente Próximo. O sal, indispensável às populações sudanesas e silvícolas. Contudo, o escravo foi a chave mais importante do tráfico transaariano e da política no Medievo norte-africano; basta lembrar o papel crucial cumprido pelas tropas negras dos aglábidas, na Tunísia, e de Ahmad ibn Tulun, no Egito, o caso dos Fatímidas. Nas duas margens do deserto - Magreb e Sahel - e nos oásis que o pontuavam encontraremos os “players”. Na margem norte, junto ao mediterrâneo, os califados muçulmanos como os Omíadas, Abássidas e Fatímidas detinham dinheiro e mercadorias especializadas e as mercadejavam desde o Magreb, as províncias ocidentais. No Sahel (designação geográfica das regiões entre o Saara e o atlântico) diversas tribos como os Soninquês e saracolês buscavam intermediar o comércio. Dos que entre o Sahel e o Magreb poderiam se chamar propriamente senhores do deserto, relatam-se Gana, Mali e Songai: soberanias centradas em pessoas, tributos e redes comerciais, cidades como Tombuctu, Jenné e Gao, elites muçulmanas e resistências dos cultos tradicionais. Pode-se dizer que a experiência milenar do comércio transaariano foi antecessora, em sua estrutura de processo, das grandes navegações dos portugueses e espanhóis.
February 18, 2022
Um projeto que, pelo escopo épico, inspira sérias dúvidas quanto ao resultado: afinal, como resumir dezenas de séculos da História de um continente inteiro? Alberto, com seu imenso poder de síntese, consegue e, ainda por cima, respeitando uma lógica que mistura critérios temporais e geográficos. Não é um livro definitivo, já que a arqueologia constantemente leva a história a ser reescrita, mas funciona excepcionalmente bem como uma introdução ao fascinante universo africano. Não só somos apresentados a povos, líderes e rotas mercantis, como também à arte, religiões e línguas diversas.
February 24, 2020
Provavelmente o melhor livro que já li sobre história africana, escrito por alguem que domina lingua portuguesa como poucos e que une a pesquisa historiografica séria com o expressionismo dos historiadores classicos como Buckhardt e Michelet
Read
March 8, 2019Resumo abrangente da história do desenvolvimento dos povos, culturas e relacionamentos dos diversos povos e nações que compõe a África, desde as origens do homem até a chegada dos portugueses. Leitura difícil mas ótima como fonte de pesquisa.
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