"É chegado o momento de lançarmos em cruzo as sabedorias ancestrais que ao longo de séculos foram produzidas como descredibilidade, desvio e esquecimento. Porém, antes, cabe ressaltar que essas sabedorias de fresta, encarnadas e enunciadas pelos corpos transgressores e resilientes, sempre estiveram a favor daqueles que as souberam reivindicar. Assim, me inspiro nas lições passadas por aqueles que foram aprisionados nas margens da história para aqui firmar como verso de encante a defesa de que a condição do Ser é primordial à manifestação do Saber. Os conhecimentos vagueiam mundo para baixar nos corpos e avivar os seres. Os conhecimentos são como orixás, forças cósmicas que montam nos suportes corporais, que são feitos cavalos de santo; os saberes, uma vez incorporados, narram o mundo através da poesia, reinventando a vida enquanto possibilidade. Assim, ato meu a problemática do saber é imanente à vida, às existências em sua diversidade. A vida é o que importa e é por isso que reivindico nos caminhos aqui cruzados outro senso ético. A raça é a invenção que precede a noção de humanidade no curso da empreitada ocidental, o estatuto de humanidade empregado ao longo do processo civilizatório colonial europeu no mundo é fundamentado na destruição dos seres não brancos. Sigamos em frente sem recuar nenhum instante. A perspectiva agora não é mais a saída do mato a que fomos lançados para nos revelar como seres em vias de civilidade. Não assumiremos o repertório dos senhores colonizadores para sermos aceitos de forma subordinada em seus mundos; o desafio agora é cruzá-los, "imacumbá-los", avivar o mundo com o axé (força vital) de nossas presenças".
Pedagogo, escritor, Doutor em Educação pela UERJ, pós-doutorado em Relações étnico-raciais (Cefet/PPRER) é professor da UERJ-FEBF no Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação. Desenvolve pesquisas sobre Crítica ao Colonialismo, Linguagens, Conhecimentos e Educações Populares. É autor de “Histórias e Saberes de Jongueiros” (Multifoco, 2014), “Pedagogia das Encruzilhadas” (Mórula, 2019) e em parceria com Luiz Antonio Simas “Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas” (Mórula, 2018) e “Flecha no Tempo” (Mórula, 2019).
sendo Exu o 0 e 1, o livro teórico-poético fala sobre pedagogia e os seus cruzos como ética de vida! dessa vez foi uma leitura mais pausada feita em conjunto e discutida, pude me aprofundar sobre as possibilidades/gingas presentes no corpo e na linguagem.