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Cadernos de Bernfried Järvi

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Em CADERNOS DE BERNFRIED JÄRVI Rui Manuel Amaral aventura-se pela primeira vez no romance. Aqui, já com a desenvoltura que uma ficção longa requer, acompanhamos as peripécias quotidianas de uma personagem inverosímil, isto é, plenamente literária. Temos aberto o caderno de Bernfried e aí chegados assistimos aos relatos de dias, de sonhos, de amores e desamores, de cafés e de gente peripatética que anima, em jeito festivaleiro, as páginas deste livro que nos faz recordar esses amarelecidos volumes onde à inteligência narrativa podia andar de mão dada a faceta mais lúdica da criação.

170 pages, Paperback

Published December 1, 2019

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Rui Manuel Amaral

15 books11 followers

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Displaying 1 - 6 of 6 reviews
Profile Image for josé almeida.
377 reviews21 followers
April 1, 2020
Quem escreve (n)o caderno pretende concretizar um sonho: gerar um livro, um livro especial, o livro que é todos os livros, o livro-Babel — e, no fundo, o livro que é nada. O seu autor tem nome ("chamo-me Bernfried Järvi como toda a gente", mesmo Erik Satie o teria afirmado), habita a cidade de Aachen e encontra-se com os seus amigos Milo, Marcus, Pagreus, Benjamin, Helmut e alguns mais (todos com algo de Kafka) nos mesmos cafés de sempre — e que, curiosamente, são o Ceuta, o Aviz e o Piolho. Sim, a verdade intuída é confirmada no final: das quatro estradas que saem de Aachen, uma atravessa a Europa inteira e acaba numa cidade ribeirinha no norte do país. Assim, o caderno conta-nos a vida de um empregado de escritório que tem sonhos, muitos sonhos, e os anota, numa deambulação pela cidade que é uma espécie de peregrinação interior, evocando um Bloom que poderia ter abandonado a Dublin do Ulisses de Joyce para chegar ao Porto e perder-se no labirinto de ruas de um desassossego que é também o de um outro livro tão nosso. À semelhança de outros cadernos (como aquele das memórias, pensamentos e meditações parisienses do jovem Brigge segundo Rilke), a narrativa não é sequer interrompida por capítulos, desenrola-se como uma reflexão sob a forma de um longo poema em prosa, onde se vão sucedendo as histórias banais e quotidianas de amizades e amores — e o livro sobre o livro-a-haver vai assim nascendo sob o nosso mais desprevenido olhar. Ocorre-me ainda que o processo remete igualmente para Sterne e a vida e opiniões do seu Tristram Shandy, onde o que parece real (no Porto ou em Aachen) é entrecortado por sonhos, anotações, aforismos, citações - e tudo nos lembra que a literatura é afinal isto: o esculpir de um texto incomum a partir de palavras comuns, e nos faz recordar a célebre frase de Mallarmé: o mundo existe para chegar a um livro. Até mesmo ao livro que é nada.
Profile Image for Jorge Palinhos.
Author 22 books8 followers
March 7, 2020
O Rui Manuel Amaral é dos escritores mais generosos que conheço. Generoso com os outros e também para com a própria literatura, em que vive e respira como poucos.
Cadernos de Bernfried Järvi é o seu primeiro alegado romance. Seria melhor chamar-lhe prosa longa, eventualmente narrativa, mas mais apropriado ainda dizê-lo um delírio literário. Dos prodigiosos.
É que o Rui é dos grandes sabotadores da narrativa do nosso país. Há quem conte histórias, há quem lavre poemas e há outros - uns poucos - que se dedicam a dinamitar as histórias em que nos escondemos. E por isso esta sua obra está cheia de curvas inesperadas, travagens bruscas, lombas existenciais que desconcertam o leitor e o desarmam para todas as maldades que o livro lhe tenta infligir. E não são poucas, nem inocentes.
Nesta maravilhosa obra navegamos pelas ondulações de um café banal que podiam ser dois, que podia ser no Porto ou em Aachen; atravessamos uma  história de amor que parece não interessar aos próprios amantes. Em suma: sentimos na pele o unto da banalidade e espantamo-nos como ele pode ser imprevisto, fascinante, espantoso até.
A ficção normal promete-nos o engodo do escapismo, de horas despidas de realidade e vida. Pelo contrário, o Rui liberta-nos da tirania da ficção, dos seus logros e seduções, e mostra-nos que não há sítio mais bizarro do que a vida inundada da literatura que o Rui devora.
Bem-dito seja.
Profile Image for José Pereira.
412 reviews24 followers
October 17, 2025
A história do módico escritor-narrador que vive num mundo vago de personagens charmosamente inverosímeis e que nos chega por clínicas vinhetas já foi feita demasiadas vezes. Além disso, é um projeto algo preguiçoso.
Mas a verdade é que RM Amaral sabe construir uma frase e escreve sem pretensões. A prosa delicada e levemente trocista é suficiente para tornar o livro uma leitura prazerosa.
Melhor livro português pós-015 que já li.
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