Eu compraria “Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno”, o mais recente livro do Zizek publicado no Brasil (embora sua primeira versão tenha sido escrita no final da década de 90), mas previ que um amigo me daria de presente de natal. Previsão confirmada, lancei-me à leitura. Zizek consta entre minhas preferências intelectuais, desde os tempos de Essen, no KWI.
Mas este “Lacrimae rerum” decepciona um pouco. Seus ensaios sobre “Matrix” e David Lynch não me dizem muita coisa, e, embora eu saiba que ele não tem pretensão formalista, e sim política, creio que a leitura do esloveno ficou excessivamente simbólica. Como são exatamente os últimos ensaios, no final já não tinha muita paciência para as nervosas associações livres feitas pelo autor: imaginei-o gesticulando freneticamente, suando, falando compulsivamente etc.
Já o ensaio sobre Kieslowski ("A teologia materialista de Kieslowski") me parece ser, de fato, o melhor. Ao menos, tem um eixo mais claro de argumentação. Pelo que entendi, Zizek mostra a complexidade dos filmes de Kieslowski exatamente na manutenção constante da tensão entre vida simples e vida excepcional, rotina e aventura, para usar os termos de Simmel: “Kieslowski não defende a abdicação moralista da vida em nome da missão nem a sabedoria barata de advogar a vida simples contra a missão: é perfeitamente consciente da limitação da missão” (p.52).
E é neste ensaio que Zizek se mostra mais interessante: nas dicas paralelas. Para ilustrar a idéia de tensão contra a concepção de organicidade, menciona Kleist, cujo texto sobre marionetes mostra que estas são possíveis e belamente aladas porque justamente têm um centro gravitacional governado por um mestre, ao passado que nós temos, dentro de nós, várias forças contraditórias que nos tornam verdadeiros desajeitados. Este desajuste é a base para que pensemos histórias alternativas possíveis, o verdadeiro segredo do historicismo, ignorado pelo próprio Zizek.
E o que dizer dos demais ensaios? Sobre Hitchcock, uma idéia interessante: o que as refilmagens de seus filmes dizem sobre os filmes originais? Zizek oferece, pelo que pude captar, uma resposta interessante: as refilmagens falham porque optam por uma das soluções latentes e possíveis Os filmes de Hitchcok são ricos porque, mesmo sendo narrativamente tradicionais, guardam em si, em sua própria linguagem, outros finais possíveis.
No ensaio sobre Tarkovski, destaca-se uma característica da escrita de Zizek: um longo prólogo até chegar ao assunto. Aposto como tudo é consciente e deliberado, pois é algo já feito no estudo sobre Hitchcock. Do texto, destacaria uma passagem interessante, a propósito do herói do filme "Nostalgia": "será possível ao intelectual de hoje (...) a esse homem separado da certeza espiritual ingênua pelo fosso da nostalgia, por um desespero existencial asfixiante, ser-lhe-á possível voltar à imersão religiosa imediata, readquirir sua certeza? Em outras palavras, a necessidade da fé incondicional e seu poder redentor não levarão a um resultado tipicamente moderno, ao ato decisionista da fé formal indiferente a todo conteúdo particular, isto é, a uma espécie de contraponto do decisionismo político schmittiano, em que o fato de acreditarmos sobreleva aquilo em que acreditamos?" (p.121) Sobre esta passagem, alguns comentários: (a) isto não valeria para a relação de Zizek com Lênin? (b) mas será que o decisionismo é moderno? Lembremos aqui o quão conservador e católico Schmitt era. Decisionismo voluntarista e individualismo liberal racional são antagônicos ou duas faces diversas (ora excludentes, ora complementares) da modernidade? Todavia, é interessante o esforço crítico de Zizek perante a obra do religioso (e por ele admirado) Tarkovski.
Enfim: um livro menor de Zizek. Dele, ainda prefiro mesmo "Bem vindo ao deserto do real" e a edição alemã "Die Nacht der Welt".