Mais fundo do que os oceanos nos quais imergem os mergulhadores perscruta o livro de Bernie Chowdhury. Ele desce aos abismos da psicologia humana.
Dentre outras coisas, ‘The Last Dive’ retrata a história da família Rouse e de seu envolvimento com o mundo do mergulho, até o fatídico dia em que Chris e Chrissy — pai e filho — perdem a vida ao tentar recuperar algum artefato que pudesse identificar o então recém-localizado “U-Who”, um submarino alemão da 2ª Guerra posteriormente revelado como sendo o U-853. Contudo, mais do que um relato sobre aventuras subaquáticas e, principalmente, sobre o desenvolvimento, entre as décadas de 80 e 90, do mergulho esportivo de ponta (e que viria a ser denominado de “mergulho técnico”), Chowdhury esmiúça a personalidade e as relações psicológicas que também entram em jogo nas ações e atitudes entre aqueles que decidem ingressar nesse esporte.
O autor foi parte importante da formação do mergulho técnico tal como é conhecido hoje, além de estar envolto na teia de todos os grandes nomes que deram a esse esporte o seu aspecto atual. Entretanto, apesar de bem escrito, explicado e detalhado, não creio se tratar de uma leitura trivial para não-mergulhadores. Certos conceitos são complicados até mesmo para mergulhadores que não tiveram alguma orientação sobre assuntos voltados ao mergulho técnico. O fato de o livro ter sido escrito à luz do melhor conhecimento sobre mergulho disponível à época, descobertas recentes não o diminuíram. Na verdade, só fortalecem a ideia de que este é um esporte que flerta com o desconhecido em todos os frontes, e que muitas discussões ainda seguem em aberto. Além disso, há insights poderosos na observação de como os mergulhadores de então percebiam as coisas.
Por fim, o que mais me cativou na leitura de ‘The Last Dive’ foi reconhecer que os medos, as dúvidas, as racionalizações, os egos… são todos elementos comuns aos mergulhadores de ontem e hoje, e que constituem, simultaneamente, sua perdição e sua possibilidade de salvação (ou seria redenção?).
Muito mais do que equipamentos, tanques e lastro, levamos para baixo d’água nossos medos, nossos assuntos mal resolvidos, nossas angústias… e também nossas paixões, nossos desejos e nossas esperanças. Em meio a tudo isso, é um verdadeiro milagre sermos capazes de flutuar, tão levemente, na imensidão azul.