«Queria exagerar, ser o Werther, mas no exagero só veria adolescência. Evitou a explosão, o anacronismo, escondeu que queria fazer-lhe uma ode, compor-lhe uma ópera, invadir Lisboa com o seu exército montado em elefantes, dar-lhe mil camelos, erguer-lhe um palácio onde só pudessem entrar e-l-a e os seus livros. Não restou nada de bom: insónias, fraqueza, ansiedade, aquela tristeza lenta, aquele abraço impossível, passeios furiosos pela madrugada de Lisboa, um escaravelho estúpido, um ego que já só serve para varrer o chão, a falta d-e-l-a, a falta d-e-l-a, a falta d-e-l-a, a certeza de que a teria seguido até um lar, até ao fim.»
Eduarda, Mariana, Noé, Matias e Dulcineia são os eixos desta história, numa teia que se estende de Lisboa ao Rio de Janeiro, do interior da Bahia à Palestina. Nas ligações entre as personagens, a cama aparece como lugar de animalidade onde todos os conflitos, materiais ou emocionais, se resolvem: o amor, a falta dele, o tédio, a tristeza, o luto, a vingança, a excitação, o estímulo da decadência. De resto, são as expectativas frustradas, os desencontros, o improviso perante o novo.
Um romance de estreia arrojado, visceral e brutalmente honesto, que afirma Ana Bárbara Pedrosa como uma das novas vozes da ficção portuguesa.
“Talvez seja um livro demasiado cru e intenso para alguns gostos, mas eu gostei de constatar que é possível escrever um livro que é quase todo sobre sexo sem que isso resvale para o brejeiro ou cringe. E adorei os diálogos entre personagens portuguesas e brasileiras, sobretudo os que mostravam a dificuldade em comunicar numa língua que, apesar de tudo, é a mesma.”
Quantas vezes não se diz que o âmago de uma relação está na cama? Que é no que há de mais impulsivo e selvagem que se vê o verdadeiro carácter de algo?
No seu primeiro romance, "Lisboa, Chão Sagrado", publicado pela Bertrand, Ana Bárbara Pedrosa pretende, precisamente, analisar cinco personagens pelo que as suas relações carnais revelam sobre os seus problemas, as suas angústias, as suas vidas.
Acompanhamos, inicialmente, a relação de Mariana e Eduarda, a primeira com vinte e poucos anos, a segunda na casa dos cinquenta, ambas abismadas por se sentirem mutuamente atraídas, com tal diferença de idades. A relação parece, no entanto, ser sempre mais significativa para Mariana. Eduarda é um mundo que se lhe abre, já tendo passado por tanto ao longo da sua vida. Jornalista, já viveu em vários países diferentes, e a Lisboa que as une cedo se afasta.
Mas, se a cama é o centro do livro, no caso da relação entre Mariana e Eduarda parece haver pouco mais que uma banal relação cujo principal eixo de tensão é a diferença de idades e de vida entre ambas. A relação que oferece algo de contraditório e limite é outra, entre Noé e Matias, o primeiro um rapaz transsexual que de homem só não tem pénis, e o segundo um brasileiro obcecado com mulheres e sexo que vem para Lisboa atrás de Eduarda, por quem se apaixonara no Rio de Janeiro e que descobre, já em Lisboa, ser lésbica, quando esta lhe conta que está com Mariana.
Nenhum deles estivera com um homem antes de estar um com o outro, e se para Matias é muito complicado inicialmente revelar que não tem um pénis, já que tenta ser o mais masculino possível, para Noé, que não olhava para si próprio como gay, o facto de Matias ter ainda uma vagina é uma espécie de negação do seu interesse por homens, possibilitando, de certa forma, que a relação tenha lugar. O abismo intransponível acaba, portanto, por aproximar as personagens.
O problema é que, mesmo no caso de Noé e Matias, a abordagem às personagens acaba por ser sempre francamente superficial. As motivações de cada um são expostas de forma algo simplista e a acção vai decorrendo a ritmo rápido, às vezes com saltos no tempo tão grandes que a situação com que agora nos deparamos é já uma bem diferente daquela que viramos da última vez que estivéramos com aquelas personagens. Várias cenas acabam, portanto, por se precipitar, não lhes sendo dado o tempo para se fixarem na nossa mente e retirando-lhes parte da complexidade e da ambiguidade que poderiam ser lançadas com mais calma. Acabam e, de repente, já estamos noutro espaço, noutro tempo e, muitas vezes, com outras personagens.
Ana Bárbara Pedrosa acaba, no entanto, por exibir a sua flexibilidade discursiva, mudando facilmente do português de Portugal para o português do Brasil (ainda que às vezes de forma demasiado estereotipada), e acaba por se movimentar bem na linguagem visceral do eros que procura, não tendo também medo de abordar os temas de frente. O que poderá o amadurecimento e mais foco trazer-lhe? Estaremos a ver uma das novas vozes da ficção portuguesa? Só o tempo o dirá.
Não amei este livro, longe disso, mas creio que a autora tem potencial e tenho curiosidade para ler Amor Estragado. Existem bons momentos neste livro, mas achei demasiado coloquial/cru. Entretém mas não faz o meu género.
Li até ao fim, mas sinceramente não gostei especialmente deste livro... Nem sei ao certo por que dou 2 estrelas em vez de 1... Este é o primeiro romance transatlantico que leio, em que se dedicam capítulos escritos mais ao modo "brasileiro" (aqueles que se passam no Brasil) e outros mais ao modo "portugues" (aqueles que se passam em Portugal, claro). É também um romance dos tempos modernos, em que as personagens são homossexuais, trans, e até as heterossexuais fluem para práticas seuxais menos heterodoxas para aquilo que é suposto ser a sua orientacao! Enfim, muitas descricões de sexo não faltam para aqui... No entanto, senti, que é um romance pastilha elástica... Fez-me lembrar o estilo de um autor dos anos 80 de quem já li alguns livros e que detestei... (o autor é Manuel Arouca). Um livro que se le, mas que senti ser bacoco e sem uma mensagem clara. A forma de escrever irritou-me num momento ou outro... Enfim, está lido. Não é que não o recomende, mas com tanto livro bom para ler por aí, para que gastar tempo com este?
Este é um daqueles livros que irei precisar de digerir para concluir o que achei dele. Apesar da história e das personagens não me terem conquistado, adorei a escrita da Ana Bárbara. Vou aproveitar a feira do livro este ano para comprar o Amor Estragado
"Palavra puxa palavra, sorriso puxa sorriso, mão puxa outra mão, e era o cliché de sempre, o Brasil acontecia." & "É a poesia, a música, a dança, a alegria contra o apocalipse. A alegria é um combate, não é uma emoção."
Se todas as estreias literárias fossem como a da Ana Bárbara Pedrosa o futuro estava mais que assegurado. Num romance livre, arrojado, natural e real, em Lisboa, Chão Sagrado um pouco da realidade social nacional é retratada através de histórias que se cruzam entre ruas, recantos, países e vários espaços íntimos e de prazer. Num romance que arrisca onde vários autores consagrados têm medo de tocar, Ana Bárbara Pedrosa tem nesta sua obra cinco personagens chave que se cruzam entre si e com quem apanham pelo caminho. O afeto entre Mariana e Eduarda, que com diferença de idades se atraem praticamente à primeira vista para um amor com significados distantes para cada uma. Se alguém se entrega de livre vontade, do outro lado existe o peso da idade que acaba por aleijar quem simplesmente só quer desfrutar dos sentimentos, do apoio e companheirismo. Mariana, a jovem com um Mundo para descobrir. Eduarda com muito vivido e sem querer prender a sua companheira aos anos que já lhe passaram pela frente. Após conhecermos estas duas mulheres com ideias diferentes sobre as relações e o que têm para dar, encontramos Nóe, que sai do Brasil para encontrar Eduarda em Lisboa, quando percebe que a sua paixão já está enamorada por outras paragens. Sozinho num país que não é o seu, procuro novas relações e o que para si seria impensável, acaba por acontecer, o encontro com Matias, um rapaz transexual que se sente homem mas ainda não fez todo o processo para alterar o órgão. Para Nóe esta relação estava praticamente condenada à partida, no entanto o facto de Matias ainda ter vagina ajudam a que tudo fluía com medos e receios perante o futuro. Ou seja, um homem apaixonado desde sempre por mulheres acaba por recuar quando se sente atraído por Matias, no entanto os sentimentos acabam por falar mais alto e o que poderia ser um conhecimento para uma ou duas noites é desenvolvido numa boa história, fluída e sem qualquer tipo de complexos com todas as descrições reais e fulcrais da relação entre os dois homens que são loucos por mulheres. A par destas quatro personagens existe também Dulcineia, a brasileira que fugiu para Portugal em busca do sonho de uma boa vida, mas acabando por ficar com as limpezas. A par dos dias árduos de trabalho, das saudades da família por estar longe dos seus e das contas contadas, Dulcineia adora um bom companheiro de cama e não se faz rogada quando as ofertas surgem. A dado momento também Dulcineia, que até aqui parece distante as personagens já apresentadas, cruza-se com Nóe e Matias na noite e o inevitável acontece. E mais não posso dizer! Neste livro todas as personagens parecem andar numa autêntica corda bamba de sentimentos onde as relações se cruzam, o sexo é exposto a partir dos olhares, passando por todos os preliminares e chegando ao ponto final onde cada um tem o seu relatório único para contar. As vidas com cruzamentos, problemas, angústias, sonhos e frustrações relatadas de forma pormenorizada mas ao mesmo tempo em cenas rápidas, o que parece complicado de acontecer. Ana Bárbara Pedrosa tem um excelente ritmo narrativo, sem falhas, conjugando o português de Portugal com o português do Brasil com facilidade e criando histórias cruzadas e explicadas que não cansam, mostrando a realidade sem omissão, picando o ponto em momentos muitas vezes deixados de lado na literatura sem fugir, saltando de tempo, espaço e personagem com uma facilidade incrível. Uma estreia muito promissora que tem tudo para amadurecer com o tempo e num segundo romance que por mim poderá conter os mesmos ingredientes, dando-lhes mais vida com cenas longas sem maçar. Lisboa, Chão Sagrado é das melhores estreias nacionais dos últimos anos!
Acho que este livro ficava melhor como uma minissérie. Acho a personagem principal clichê neste casa a Eduarda, tanta personagem interessante e a típica ruiva eurocentrica e a personagem principal ? Não gosto da dinâmica da relação dela com Mariana e o foco está tão nas duas que quando aparece um capítulo acerca de como Mariana está triste só me apetecia passar aí próximo.
Gostei de visibilidade trans e muito. Achei bom mostrar como a “dysmorphia” de alguém que nasceu com um corpo que não se identifica pode ser prejudicial. Não gosto da maneira como o narrador chama Matias “meio mulher”, Matias não é uma mulher mas sim um homem.
Em geral faltou uma story line mais forte o foco do livro foi uma relação aborrecida e eu queria mais das outras personagens.
Também achei o character development nas outras personagens bom e acho que a escritora têm potencial se tiver criatividade para criar algo mais forte e menos clichê.
Na contra capa, é classificado como um romance arrojado. Terá sido o arrojo a valer-lhe o prémio? A estrura narrativa não é nova, as histórias de vida, ainda que para muitos sejam tabu, são comuns. O vocabulário é cru mas perfeitamente adequado a cada circunstância. As variações linguísticas muito interessantes e bocadinhos de boa prosa aqui e ali.
Lisboa, Chão Sagrado, creio, é um retrato do que procuramos nos outros, quase como se estivéssemos à espera que nos concertassem ou que trouxessem aquilo que sentimos estar em falta. E isso, quase sempre, desenvolve frustrações, mal entendidos e uma pressão desleal. Por outro lado, sinto que espelha o que julgamos merecer e o perigo de construirmos a nossa vida em função de uma só pessoa. Com um tom impulsivo, visceral, a autora também nos mostra que a casualidade expõe as nossas fragilidades.
Que bem que escreve a Ana Bárbara Pedrosa, pegou num quotidiano corriqueiro e deu-lhe ali um abanão, voltou a distribuir com personalidade e autoridade. É uma escrita seca, crua, que nos faz pensar. Usa a grafia linguística do Portugal do Brasil, depois volta ao Português de Portugal, para nos dar a ideia de viagem, de transporte para outra realidade. Conduz-nos por pensamentos, atos e erotismo. Entrou com vontade na literatura portuguesa, cheia de personalidade.
é uma escrita bastante arrojada e diferente, o que gostei muito, pela sua beleza, mas também me fez sentir um pouco perdida em alguns momentos. a história em si é bastante simples e, através das reflexões feitas pelas personagens e desta linguagem tão distinta, a autora consegue transformá-la em algo bastante complexo e profundo (no bom sentido das palavras). mostra muito bem neste livro a sua identidade artística muito única.
Uma abordagem bastante crua às paixões do corpo envolvendo cinco personagens que, em momentos diferentes, se vão cruzando entre si.
De início posso dizer que até estava a apreciar o livro, que não é para todos, mas acabou por redundar numa análise superficial e vulgar que algo que é transversal a todos, o sexo, se bem que aqui mais numa perspectiva dos tempos modernos: homossexuais e transexuais. A estória pouco ou nada desenvolve em conteúdo e, a dado ponto, mais não é que um chorrilho de calão sexual.
Está, a anos-luz, da qualidade de "Amor Estragado".
Um livro em promoção e uma autora que promete marcar presença no Festival Literário de Ovar que está mesmo aí à porta, tal foi o bastante para encomendar “Lisboa, chão sagrado” e mergulhar de cabeça neste que é o romance de estreia de Ana Bárbara Pedrosa. Compreender-se-á que me tenha entregado ao livro sem saber ao que ia e que daí adviesse um não pequeno choque, espécie de mergulho sem preparação em bacia de água gelada. É que este é um livro que se abre, sem decoro, aos amores e desamores de cinco personagens em rota de colisão umas com as outras e consigo próprias, que aborda o sexo sem rodeios nem tabus e que usa e abusa de uma linguagem que faria corar de vergonha o mais atrevido dos gunas da Pasteleira. “Love me or leave me”, pareceu segredar-me o livro desde o início. Achei, mesmo assim, que merecia uma oportunidade. Não o amei. Mas também não o pus de parte.
À medida que a leitura avança, cresce a certeza de estarmos perante uma escritora que não se limita a alinhar palavras umas à frente das outras. Ana Bárbara Pedrosa constrói o enredo de “Lisboa, chão sagrado” com firmeza e inteligência, tornando credíveis as personagens e aquilo que suporta a sua relação umas com as outras, essa espécie de fado que parece assomar no título do livro. Esmerado e sensível, o desenho de Mariana, um farrapo só urze e lama, prova a qualidade da escrita da autora. Mas porquê, então, aquela linguagem tão gratuita, tão cheia de nada, como um fogo-fátuo? Olho para Mariana, essa menina-mulher que se move na margem, que se arrasta de certa maneira, e comovo-me com a sua profunda solidão, com o amargo do seu desgosto ante a perda. Logo de seguida, porém, um chorrilho de obscenidades abate-se sobre mim com o peso das Torres Gémeas. Abro de espanto a boca, encolho-me no meu canto e a compreensão e cumplicidade com Mariana desfaz-se em pó.
Ziguezagueando entre certezas e dúvidas, dou comigo a hesitar perante a “verdade” destas histórias e das figuras sobre as quais assentam. Mais do que a intenção de mostrar que existem, é a forma como existem que parece interessar Ana Bárbara Pedrosa. O importante é saltar para o centro da pista, os holofotes todos em cima, ainda que os “conseguintes” se passem na sombra, de pé contra um muro ou de quatro na cama. Se Dulcineia transa com Noé que é amado por Matias e tem uma fixação por Eduarda que é amada por Mariana, se todos pisam o mesmo chão sagrado, se tudo isto existe… Afinal, talvez tudo se resuma a uma mera questão de estilo. O segundo livro - que já se encontra por aí -, encarregar-se-á de mostrar de que massa é feita a autora. Para já, fica a sensação de que Ana Bárbara Pedrosa quis entrar com tudo neste seu livro de estreia, quis arriscar tudo. Esticou a corda ao máximo e a corda cedeu.
Inicialmente achei que não ia gostar nada do livro mas acabei por me envolver na história. É uma leitura leve e rápida mas que descreve bem a complexidade dos relacionamentos na actualidade.