Quando estive nos EUA em novembro do ano passado e encontrei esta preciosidade aqui para vender, comprei sem pensar duas vezes – afinal, trata-se da biografia oficial de um dos meus grandes heróis musicais, o inigualável Johnny Thunders.
Lançado originalmente em 1988 – antes mesmo da até hoje inexplicada morte do músico, ocorrida 3 anos depois – “In Cold Blood” foi tendo, com o passar dos anos, novas edições, revistas, atualizadas e ampliadas e esta versão aqui é, nas palavras da própria autora, a definitiva.
Se a parte do livro que aborda a trajetória dos New York Dolls parece estranhamente “protocolar” – vale lembrar que Nina Antonia também escreveu uma biografia dos Dolls, a ótima “Too Much Too Soon” -, a obra começa a brilhar mesmo justamente quando Thunders começa a trilhar seu próprio caminho, primeiro com os lendários Heartbreakers e, posteriormente, em carreira solo.
Somos introduzidos a todo o caos que envolvia Johnny Thunders, mergulhando na atmosfera sempre imprevisível de seus shows – sempre inesquecíveis, seja pelas razões certas (rock ‘n’ roll em estado puro), seja pelas erradas (as conhecidas palhaçadas de junkie de Thunders). Um dos últimos autênticos bad boys do rock, que nunca conseguiu ser “enquadrado” pelo sistema da indústria da música, e nunca tentou mudar seu estilo para se adaptar às modas do momento. Um músico genial, mas com um senso autodestrutivo que sempre o levou a ferrar com tudo nas horas decisivas. Um cara que viu diversos outros artistas e bandas copiarem seu estilo, sua música, sua atitude, seu figurino, e ficarem milionários com isso, enquanto ele mesmo, Johnny, passou a vida inteira sendo rejeitado por gravadoras que tinham medo dele e tocando em intermináveis turnês por pequenos clubes em troca de um punhado de dólares, muitas vezes apenas o suficiente para conseguir comprar sua próxima dose de heroína.
Em diversas entrevistas ao longo da carreira (o livro mostra isso), Johnny sempre dizia que seu sonho era ir para New Orleans e montar uma banda com músicos locais. Ironicamente, quis o destino que ele partisse desta para uma melhor justamente naquela cidade, praticamente 24h depois de ter chegado e se hospedado no hoje lendário quarto 37 da St. Peter’s Guest House. O capítulo final do livro, que discorre sobre o imenso legado de Thunders, é de deixar o leitor com os olhos marejados.