Recensão de 08/2025
E a segunda leitura aqui está. Tinha de ser. É uma leitura extraordinária, inteligente, arguta e culta. Não é verdadeiramente um ensaio sobre o mal, é antes uma reflexão de como literatura e filosofia abordaram o tema. É um livro obrigatório, um a que seguramente ainda darei novas “escapadelas”.
E enquanto fiz esta segunda leitura dei por mim a interrogar-me - afinal o que é o mal?
E a primeira ideia que emerge é que é um sentimento, algo que surge como uma linguagem emocional e como todas as expressões vindas dos sentimentos, nunca as conseguimos caracterizar. Todos sabemos o que é o amor, a amizade, a saudade, o bem, mas vacilamos na procura de palavras para os definir.
E assim também é o mal, todos lhe sentimos o conteúdo, mas não temos palavras para o definir.
E se a primeira dificuldade é encontrar palavras, logo advém uma segunda de só o conseguirmos definir pela negativa. O mal só se afirma pela ausência do bem.
E isto pode parecer estranho mas, sendo o “mal” um conceito tão lato, só pode ser definido de forma abrangente na ausência de um bem de cuja presença quanto mais se afasta mais malévolo será. “Que o mal seja o meu bem”, disse John Milton em “Paraíso Perdido”, e esta forma será seguramente o “apoapsis” do que entendemos por bem.
O “Mal” pode sempre ser agrupado de três formas distintas - o mal natural, uma forma de “Mal” que descrevemos sem intervenção humana; o “Mal” enquanto manifestação social; e o “Mal” individual, aquele que emana do indivíduo malévolo.
O primeiro grupo, o “Mal natural” para o definirmos enquanto um evento da natureza temos de admitir que é controlado por uma entidade superior, uma entidade que os crentes tentam compreender numa “teodiceia” impossível porque, nem esse Deus se deixa vislumbrar nem, ainda que o conseguíssemos desvendar, estaríamos capacitados a compreender-Lhe as intenções. Por último, a responsabilização de uma divindade pelos fenómenos naturais a que a ciência de hoje consegue dar explicações, é um exercício que só consegue espaço quando enfadados num encadeado numa sequência de porquês acabamos por desistir e a atribui-los à explicação mais fácil.
A segunda versão do mal depende do tempo em que se insere. Quando um Pai mata um filho, ninguém passa ao lado de uma condenação. Mas quando Abraão se dispôs a sacrificar o seu único filho,a posição da sociedade foi diametralmente oposta. Esta forma de “Mal” está muito mais dependente do espírito do tempo e do conceito nesse tempo que do mal em si.
A última forma de mal, a que emerge do indivíduo, é um “mal” que identificamos pela a ausência de “Bem”. Esta forma é uma característica individual, um comportamento que a biologia permeia com prazer por quem o pratica (recompensa biológica) e que por isso que é um fenómeno universal e tão praticado. A biologia permiou-o de alguma forma e isso teve consequências na seleção natural. Ao ser premiado permitiu-se que o comportamento “altruísta” fosse o dominante pois as sociedades que mais colaboram têm vantagens competitivas. Esta forma de “Bem” tem uma base biológica e repercussão no comportamento individual e da sociedade. Quando este mecanismo falha, há um desvio para outro tipo de comportamentos que classificamos de inveja e que mais não são que a procura de recompensa biologia noutro padrão de comportamento. Quando o afastamento se extrema caímos no domínio do “Mal” que podemos depreender tratar-se da ausência de “Bem”, um mal que fica mais malévolo quanto mais se afasta do bem.
Nesta descrição aproximamos-nos de comportamentos cujo padaria verdadeiramente ninguém domina. Ninguém tem culpa de ser como é. Ora, este aspecto é abordado por Terry Eagleton de forma brilhante, num ensaio lúcido, com retoques de ironia subtil e de uma elegância que dá gosto ler e reler.
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Recensão de 2024
Terry Eagleton - Sobre o Mal
Uma abordagem sobre o mal e a forma como ele é visto pela humanidade. O mal enquanto entidade divina, o mal enquanto entidade externa, o mal que emana de nós e é parte da nossa natureza. O mal reactivo, neurótico, mas também aquele que não se explica porque não tem objectivo. Terry Eagleton faz uma viagem pelos vários conceitos do mal e de que forma ele é reconhecido e escrito. Sobre o Mal, um ensaio e uma viagem fascinante pelo mundo da literatura.
Num mundo determinista e casualístico em que tudo deriva de Deus, é difícil encontrar uma causa para o mal sem ter Deus implicado nela. A “invenção” do Diabo vem assim colmatar esta brecha, ainda que o conceito deste seja um nada que sem materialidade existe apenas na nossa mente. O mal surge assim como um distanciamento da realidade, é um mal que surge inerente à condição humana, é um mal existe para temperar o bem e para lhe dar sentido. Sem o mal não haveria o bem. Este mal é o nosso lado negro, o lado individualista, o lado que nega a equidade e o altruísmo, o lado egoísta, hedonista de procura do prazer. O mal é a vitória do niilismo sobre o idealismo e na sua apresentação enquanto mal absoluto, não tem objectivo. Existe apenas porque existe em oposição ao bem. A sua justificação está na sua existência, é um sem causalidade.
A expressão na língua alemã “Schadenfreud” é muito curiosa. Ela , e o prazer com o mal dos outros. Literalmente traduzido, "Schaden" significa dano ou prejuízo, e "Freude" significa alegria, juntos compõem uma palavra que significa "alegria pelo dano", uma “alegria�� que pode representa o sentimento de prazer ou satisfação resultante do conhecimento ou observação do sofrimento, fracasso ou humilhação de outra pessoa. Mas como é possível alguém sentir “satisfação” perante o sofrimento de terceiros. A resposta mais prosaica a esta questão na arquitetura do nosso sistema nervoso e dos mediadores que são libertados nessas situações e o sistema de recompensa do nosso organismo. Mediadores como dopamina, serotonina, endorfinas, ocitocina e anandamida, e estruturas como núcleo accumbens, área tegmental ventral, córtex pré-frontal, hipotálamo e amígdala, são elementos de um sistema nervoso central que quando activados, são responsáveis por uma sensação de prazer. Então, pode-se perguntar porque não rejubilamos com o sofrimento dos outros. Essencialmente por dois motivos. Primeiro porque somos empáticos e tendemos a importar para dentro de nós o sofrimento dos outros, mas também por uma cultura de arquétipos consolidada no superego por “memes” que nos são transmitidos como herança genética ou adquiridos na construção da nossa personalidade. Quando estas estruturas falham, quando estes mecanismos de regulação não se estabeleceram convenientemente, o resultado pode muito bem ser devastador como reconhecemos em muitos casos de mal puro.
Nesta linha de pensamento poderíamos supor que o mecanicismo de Laplace, poderia ser aplicado ao nosso comportamento. Este princípio é correto, só que por cima destas respostas causais ocorrem mecanismos de controlo impostos por uma herança acumulada ao longo de gerações, e pela formatação da nossa personalidade. Há sempre (quase sempre) uma possibilidade de escolha nos nossos actos. Essa é a herança do pecado original, o assumir que o ser humano tem a possibilidade de escolher, pelo que pode sempre ser responsável pelas escolhas que toma. Foi esse o nosso pecado original, foi esse o caminho que escolhemos.
Dito isto, há que reconhecer que tudo o que deriva da nossa ética e moral, são construções da sociedade, da presente, mas também da passada. O mal, o diabo, o bem, são truques gramaticais. É como o nada. Ninguém consegue por o nada no bolso, mas contudo ele existe na nossa cabeça. A espécie humana não é boa nem má. Numas esferas tem um comportamento, noutras tem outro. Tudo depende dos valores.
Segundo Schopenhauer, foi dos primeiros a reconhecer que os valores da sociedade determinam a forma como o bem e o mal são reconhecidos. O lucro é um bom exemplo disto. Sempre que ocorre evolução há um lastro de miséria que fica pelo chão. Esta forma de mal é justificada na nossa escala de valores, apesar das consequências nefastas como o planeta.
Muitas vezes o mal é inexplicável, o que para os crentes é um factor de conflito entre o que que acreditam e a realidade das coisas. Inventaram assim o conceito de teodiceia para explicar a origem do mal absolvendo Deus. Um mal necessário para se atingir um bem final Depois de acharmos que as coisas não têm sentido podemos atribuir-lhes o sentido mais profícuo que entendermos.
Noutros males da sociedade como no fascismo, o moderno surge misturado com as energias do passado. A adesão ao fascismo vem tão só pelo simples facto de que ao se aderir, de imediato é-se aceite e adquirem-se garantias como segurança. O nazismo é uma encarnação particular do mal porque combina o lado angelical do sacrifício, heroísmo e pureza do sangue com o lado demoníaco de deslumbre pelo sádico, a morte e o sofrimento. O mal é o lado cínico da bondade, o mal é a dissociação da razão do corpo, é a crueldade do cancelamento. Ao dissociar-se do corpo a razão fica sem sentido e quanto mais abstrata fica mais tem de procurar no irracional um farol que a guie e lhe dê sentido.
Sobre o Mal de Terry Eagleton, uma fascinante viagem pelo universo do mal e a sua expressão no mundo da literatura. Um livro denso e que justifica uma segunda leitura.
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Terry Eagleton - On Evil
An exploration of evil and how it is perceived by humanity. Evil as a divine entity, evil as an external force, evil that emanates from within us and is part of our nature. Reactive, neurotic evil, but also the kind that defies explanation because it lacks a clear objective. Terry Eagleton embarks on a journey through various concepts of evil and how it is recognized and depicted. On Evil is an essay and a captivating exploration into the world of literature.
In a deterministic and causalistic world where everything stems from God, finding a cause for evil without implicating God is challenging. Thus, the "invention" of the Devil serves to fill this gap, even though this concept represents a nothingness that, lacking materiality, exists only in our minds. Evil, therefore, emerges as a detachment from reality; it is an inherent part of the human condition, existing to temper goodness and give it meaning. Without evil, there would be no good. This evil is our dark side, the individualistic, equity-denying, altruism-rejecting, selfish, hedonistic side in pursuit of pleasure. Evil signifies the triumph of nihilism over idealism, and in its portrayal as absolute evil, it lacks purpose. It exists solely as a counter to goodness, justified by its very existence, devoid of causality.
The term "Schadenfreude" in the German language is intriguing. It encapsulates the concept of taking pleasure in others' misfortunes. Literally, "Schaden" means damage or harm, and "Freude" translates to joy, together forming a word that denotes "joy from harm," a kind of "joy" representing the feeling of pleasure or satisfaction derived from witnessing another's suffering, failure, or humiliation. But how can one find "satisfaction" in the suffering of others? The most straightforward answer lies in the architecture of our nervous system and the mediators released in such situations, along with our organism's reward system. Mediators like dopamine, serotonin, endorphins, oxytocin, and anandamide, along with structures like the nucleus accumbens, ventral tegmental area, prefrontal cortex, hypothalamus, and amygdala, are components of a central nervous system that, when activated, are responsible for a sensation of pleasure. Thus, one might wonder why we do not rejoice at others' suffering. Essentially, for two reasons: firstly, because we are empathetic and tend to internalize others' suffering, and secondly, due to a culture of archetypes solidified in the superego through "memes" transmitted to us as genetic inheritance or acquired in our personality development. When these structures fail, when these regulatory mechanisms are not properly established, the outcome can be as devastating as we recognize in many instances of pure evil.
Following this line of thought, one might suppose that Laplace's mechanistic principle could apply to our behavior. This principle is accurate, but atop these causal responses, there are control mechanisms imposed by a heritage accumulated over generations and by the shaping of our personality. There is always (almost always) a choice in our actions. This is the legacy of original sin, acknowledging that humans have the ability to choose, hence can always be responsible for their choices. That was our original sin, the path we chose.
With this in mind, it's important to acknowledge that all derivatives of our ethics and morals are societal constructs, from both the present and the past. Evil, the devil, good - these are grammatical tricks. It's like nothingness. No one can put nothing into their pocket, yet it exists in our minds. The human species is neither good nor bad. It behaves one way in some contexts and another in different ones. Everything depends on the values.
According to Schopenhauer, one of the first to acknowledge that societal values determine how good and evil are recognized. Profit is a prime example. Whenever there's progress, there's a trail of misery left behind. This form of evil is justified on our scale of values, despite its disastrous consequences for the planet.
Often, evil is inexplicable, which for believers creates a conflict between their faith and the reality of things. Thus, the concept of theodicy was invented to explain the origin of evil while absolving God. A necessary evil to achieve a final good. After deeming things meaningless, we can assign them the most fruitful meaning we choose.
Other societal evils, like fascism, blend modernity with energies from the past. Adherence to fascism comes simply from the fact that by joining, one is immediately accepted and gains assurances like security. Nazism is a particular incarnation of evil because it combines the angelic aspects of sacrifice, heroism, and blood purity with the demonic allure of sadism, death, and suffering. Evil is the cynical side of goodness, the dissociation of reason from the body, the cruelty of annihilation. When reason detaches from the body, it becomes senseless, and themore abstract it becomes, the more it must seek guidance in the irrational to find meaning and direction.
On Evil by Terry Eagleton is a fascinating journey through the universe of evil and its manifestation in the world of literature. It's a dense book that warrants a second reading.