No Palácio dos Desportos de Berlim, perante uma plateia de nazis fanáticos, Goebbels, ministro da Propaganda, faz um inflamado discurso, deixando no ar uma mensagem subliminar: os alemães, apesar de terem acabado de sofrer a sua maior derrota, irão em breve possuir uma arma que lhes permitirá vencer a guerra.
José Bensaúde, um judeu português, génio da matemática e física, mas também um idealista de Esquerda, será determinante para que a Alemanha se adiante na corrida atómica. Capturado em França e levado para um campo de concentração, aí fica até alguém dar conta que pode ser útil aos intentos do III Reich, exactamente quando a resistência começa a ganhar corpo e força e a operação Valquíria tem início.
Conseguirá Claus von Staufenberg matar o Führer enquanto este tenta a todo o custo ter uma bomba atómica? Lograrão os norte-americanos, com a ajuda de Enrico Fermi e Albert Einstein, antecipar-se aos nazis e ser os primeiros a recriar o momento zero do mundo numa gigantesca e inédita explosão nos confins do Novo México? E o que fará Estaline quando descobre que Moscovo e Londres poderão ser os alvos da arma-maravilha de Hitler?"
Luís Corredoura é licenciado em Arquitetura e Mestre em Recuperação do Património Arquitetónico e Paisagístico. O autor de vários títulos, entre os quais "Nome de Código Portograal" foi galardoado já com o Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica do Colectivo Trëma-Fórum Fantástico de Lisboa e do Encouragement Award atribuído pela European Science Fiction Society.
O livro "A Recriação do Mundo", de Luís Corredoura, foi apresentado a 30 de Agosto na Festa do Livro em Belém. Assisti ao lançamento por mero acaso. Estive no Palácio Nacional nesse dia e o encontro aconteceu, simplesmente. Há uns anos debrucei-me sobre o "Nome de Código Portograal", uma outra ficção do mesmo autor. Ainda que sem aquele pergaminho coeso que acomode uma narrativa muito precisa, nestas obras o Luís idealiza, contudo, percursos históricos alternativos plausíveis e inteligentes. Não é fácil emoldurar o nazismo. Quando a ficção evoca qualidade, a realidade amortece. Isto parece-me indiscutível. Pois bem, a ambiciosa Recriação do Mundo, com cheiro a novo, já está na minha mesa de chevet !
"A recriação do mundo" promete uma história em que um matemático português surge como personagem principal do rumo que levou o mundo à produção da primeira bomba atómica. Mas será mesmo que José Bensaúde é personagem principal deste livro?!
Sendo eu uma apaixonada pela época da Segunda Guerra Mundial, este foi um livro que me despertou o interesse desde que li a sua sinopse. No entanto, não foi um livro que me tenha prendido... Foi uma leitura um pouco sofrida até mais de metade do livro. Acho que a profunda paixão do autor por esta época nos traz uma história com demasiadas pontas e demasiados caminhos a seguir. Vemo-nos entre a Alemanha, o Reino Unido, a Rússia, os Estados Unidos, Espanha, França ou Cuba. Temos um Bensaúde que parece mais uma personagem secundária do que poderia ter sido mais desenvolvida na perspectiva de ser um judeu português e académico que dê ve aprisionado num campo de concentração para, depois, passar a estar lado a lado com os maiores do regime nazi.
Corredoura explora caminhos e dimensões alternativas para aquilo que poderia ter sido o rumo da história na fase final da Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra. Temos o papel da operação Valquíria e de Claus von Staufenberg a aparecer de forma demasiado rápida, originando o desaparecimento de Hitler. Temos um Estaline que morre às mãos de um dos seus mais leais seguidores, deitando por terra uma Guerra Fria opondo ocidente e leste. E, perdoem-me... Temos um desejo sexual demasiado extremado de todas as personagens femininas, quase como se as mulheres em período de guerra se tivessem de tornar obrigatoriamente ninfomaníacas...
No final do livro , a narrativa consegue prender um pouco mais mas continua a mostrar demasiados caminhos e locais a que o leitor tem de dar atenção para não conseguir perder o fio à meada. Teria sido melhor explorar apenas um ou dois desses rumos alternativos e permitir uma maior caracterização das personagens e das maior dimensão ao papel de Bensaúde quiçá num regresso ao Portugal imerso no Estado Novo diferente do ter sido preso pela PIDE e, em menos de nada, retirado dos calabouços do Aljube.
Um livro incluído nos projecto de leitura Outono em português e Ler é respeitar a história. Um livro de que esperava um pouco mais...
Luís Corredoura surpreendeu os leitores de FC em português com o seu primeiro romance, Nome de Código Portograal. Este escritor surpreendeu ao abordar uma vertente rara no fantástico nacional, a história alternativa. Nos seus livros seguintes, optou pelo registo entre o policial noir e a aventura de agentes secretos. Livros divertidos, mas já longe do lado ficção científica que despertou a atenção sobre este autor. Com a Recriação do Mundo, Corredoura regressa a dois campos: à história alternativa, e à II grande guerra, que parece ser um dos seus fascínios.
Caveat lector: o profundo gosto que Corredoura tem por esta época histórica é um dos problemas deste livro. Uma parte muito significativa é um longo infodump em que coloca em jogo as suas personagens, enquandrado-as nos acontecimentos históricos. A sabedoria é enciclopédica, mas aqueles longos parágrados sem pausa requerem um esforço de leitura. Que irá ser compensado na segunda metade do livro, quando Corredoura abandona o didatismo e se dedica a recriar a história do século XX.
O outro grande problema deste livro é que pretende ter como pivot as aventuras de um personagem português, judeu comunista que se vê lançado para o centro das pesquisas nazis, e posteriormente americanas, sobre a construção de armas atómica. No entanto, ao longo da leitura, este personagem acaba por ser mais periférico do que fio condutor. Corredoura compraz-se, e muito bem, em usar personagens históricas como os elementos que realmente impulsionam a narrativa. Fá-lo com óbvio gosto, e isso torna o romance ainda mais interessante. A história do matemático aventureiro português, mesmo que de vez em quando Corredoura se lembre dele para criar pontos chave na narrativa, acaba por ser um distante enredo secundário.
Ainda apontaria um terceiro problema a este livro, a curiosa propensão de Corredoura para caraterizar as suas personagens femininas com o apetite sexual voraz das fantasias adolescentes. Algo que já não se enquadra nos padrões contemporâneos da ficção. Diga-se que nisto, o livro é um verdadeiro festim de salsichas, mas nisto está apenas a ser fiel à história. Não a narrativa, mas a dos factos do século XX.
Agora que deixámos os problemas do livro de lado, falemos daquilo que o torna interessante. Demora o seu tempo, porque Corredoura peca por ser metódico, mas quando arranca e ganha voz própria, o livro desafia-nos com uma série de e ses que o autor consegue levar por caminhos inesperados. E se os cientistas alemãos se tivessem revelado capazes de criar bombas nucleares (é aqui que entra o dedinho português, forçado por ser prisioneiro de guerra)? E se as tivessem lançado sobre Moscovo, com o conhecimento de um Estaline que aproveita para gozar o espetáculo? E se a conspiração de Stauffeberg para assassinar Hitler tivesse sido bem sucedida, seguindo-se a restauração da democracia na Alemanha e um armistício com os Aliados?
E se os americanos, também na posse de armas atómicas (sim, novamente, o mesmo dedinho português), tivessem optado por se concentrar na guerra contra o Japão, praticamente abandonando os ingleses? Ainda há outros e ses. Talvez o mais inesperado, e atenção ao spoiler, é a morte de Estaline às mãos de Béria, que permite que Kruschshev assuma o poder e, pasme-se, dissolva a União Soviética e a transforme numa federação de repúblicas. Corredoura não faz por menos, e diverte-se claramente a reinventar a história da Europa. Ou melhor, do mundo.
Apesar de demorar a ganhar velocidade, graças à ênfase que o autor coloca num meticuloso enquadramento, este livro é uma excelente história alternativa. Pega nas histórias da História e atreve-se a recontá-la, na melhor tradição do género.
É difícil entrar na narrativa. A densidade dos primeiros capítulos e a autenticidade que levou o autor a incorporar termos e patentes em alemão original tornam a leitura lenta, trôpega, quase impossível. Depois de ultrapassados os primeiros capítulos esta torna-se mais fluída e o livro atrai pela trama deliciosa.
Uma história alternativa dos últimos anos da 2ª Guerra Mundial. E se os alemães tivessem conseguido ganhar a corrida à bomba atómica com a ajuda de um físico judeu de origem portuguesa? Um thriller interessante e que apesar de longo se lê muito rapidamente.