Apesar da primeira impressão, Starllite é muito mais do que um satélite no espaço — é tudo que restou da humanidade. As relações, as diferenças sociais, a busca por status. Das estrelas, Starllite retoma o objetivo humano de expansão e continuação da vida. Das estrelas, Leena Kapoor se prepara para um furo de reportagem: uma entrevista com o planeta Terra.
Quem nunca se pegou falando que sente saudade "daquilo que ainda não viveu''?
Em Starllite, de Franco Alencastro, passeamos com o olhar de Leena, a protagonista, através de uma Terra artificial e uma Terra original: ambas trazendo esta falsa sensação de pertencimento a um lugar específico no tempo-espaço, um ligeiro costume da raça humana através de suas gerações. Sempre pensamos que pertencemos a este mundo para o qual viemos, onde nascemos, crescemos e morremos, até que se prove o contrário. Essas reflexões permeiam a narrativa em meio a uma conspiração de quem realmente foi culpado pela destruição da Terra e povoação da colônia de Starllite para preservar os seres humanos - foram esses os responsáveis por sugar todos os recursos existentes no planeta, ou teria sido ele mesmo quem expulsara seus filhos?
Ele não - ela. A Terra aqui assume forma, voz, identidade. É Leena quem se torna responsável por entrevistá-la, por descobrir quem ou o que ela significa e diz ser após tantos anos desde seu último contato. Entre vícios sociais por remédios que trazem escapes rápidos e a ligação quase intrínseca do corpo com as telas digitais e olhares projetados, a personagem encara uma jornada inesperada que cruza as fronteiras entre perguntas e respostas com a Terra, indo além, por caminhos até mesmo metafísicos, caóticos.
Acompanhando este contato imediato com um planeta do qual nos apropriamos e não pertencemos, somos confrontados com o próprio reflexo de nossos atos, enquanto a Terra parece não entender por completo as camadas do que faz alguém ser humano. Voltar à origem pode ser perigoso, uma vez que aquilo que se busca neste retorno é uma projeção dos ideais fomentados durante todo o tempo passado dentro de Starllite, a falsa Terra, uma promessa de vida no espaço sideral.
Com uma narrativa que flui de maneira espontânea junto a um humor notável entre as conversas de Leena com a Terra, a história que Franco nos traz dentro da coleção ZIGUEZAGUE é um retrato da nossa história, do produto gerado pelas circunstâncias humanas. Plutão Livros mandou muito bem em mais um lançamento!
Eu gostei, é uma ideia interessante e estranha. E eu digo "estranha" como um elogio.
A coisa de "humanos estão destruindo a terra", embora verdadeira, é um pouco batida. Porém acho que o autor conseguiu trazer uns contrapontos válidos e houveram surpresas e acontecimentos inusitados o suficiente para a história ainda parecer fresca.
É uma leitura rapidinha e divertida. A coisa da terra ser senciente é realmente uma ideia muito legal.
Saudades do que não vivemos. E parece que não viverão, porque o planeta não quer! História muito louca -- no bom sentido! -- que começa de um jeito e vira outra coisa no final. Deu até um medinho na última parte.
A Plutão realmente consegue me surpreender no que diz respeito à escolha de materiais publicados. Não digo isso agora que sou parceiro deles, afinal eu sou um dos caras que li tudo o que a editora já publicou. E eu não conhecia o trabalho do Franco Alencastro. E eu curti bastante a maneira leve e descontraída, mas que revela uma quantidade enorme de críticas sociais embutidas com a qual ele leva sua narrativa. Não se engane pelo absurdo da situação que é o planeta Terra possuindo consciência e um controle sobre várias coisas e sendo entrevistado por um ser humano. Tem muito mais nesse caldo.
A narrativa é em primeira pessoa, contado do ponto de vista da Leena Kapoor, nossa protagonista. Isso é importante porque ela está tão confusa quanto nós acerca de toda a situação. O fato de ela tentar a todo o momento buscar racionalizar aquilo que está se passando com ela é o que nós faríamos se estivéssemos em seu lugar. Acerto para o autor. A escrita não é difícil... apesar de tratar de diversos temas científicos como consciência, transumanismo, lar, civilização, o autor consegue traduzir em uma linguagem fácil e acessível. Qualquer leitor pode chegar e ler numa boa. Não é preciso familiaridade com o gênero. Acho até que Starllite combina com o atual contexto social em que vivemos. Pode ser uma boa porta de entrada para a ficção científica.
Leena Kapoor é uma jornalista que vive em Starllite, uma enorme estação espacial que serve como habitat para a humanidade. Há muito tempo atrás houve um desastre sem proporções que fez com que a humanidade precisasse se abrigar no espaço. A Terra se tornou um lugar inóspito. Mesmo passando por inúmeras dificuldades a humanidade se adaptou e sobreviveu. Depois de enviar algumas sondas para investigar a qualidade do ar e da superfície da Terra, parece que é hora de retornar. E Leena foi escalada para cobrir esse evento emblemático. Mas, um acidente acontece e sua nave parte sem direção em relação à Terra. Só que parece que tudo não passou de um plano do próprio planeta... porque a Terra ama Leena.
Boa parte da narrativa é uma conversa entre a Terra e Leena. Isso porque o planeta criou consciência e detesta a humanidade. A protagonista tenta convencer o planeta a desistir de seu plano de destruir a estação. Os diálogos que eles tem são sensacionais e vou abordar alguns dos temas abaixo. Mas, me incomodou algumas coisas. Entendo a questão da Terra ganhar consciência e guardar rancor contra a humanidade. Mas, daí a possuir super poderes já começa a fazer eu coçar a minha cabeça. Não havia necessidade disso. Asimov tratou bem desse tema de um planeta que ganha consciência em Fundação e Terra. E ele trata de uma maneira bem parecida, claro que com temáticas bem diferentes. Me pareceu um deus ex machina para justificar determinados elementos do plot para fazer com que a narrativa caminhasse em uma direção. Sei lá, eu achei desnecessário e mais prejudicou do que ajudou. Porque o ponto mais importante eram os diálogos. A própria ideia de que a Terra estaria dentro de cada um de nós (e não vou falar mais do que isso) já era uma justificativa suficiente para ser ameaçadora.
É óbvio que em tempos como os atuais estamos pensando no futuro da humanidade. Uma pandemia como a do coronavírus, o desmatamento da Floresta Amazônica, a poluição dos rios, o desequilíbrio climático, tudo isso demonstra o quanto o ser humano alterou a constituição do planeta. Estamos sentindo na pele hoje o quanto o planeta está se voltando contra nós. Agora imaginem se o planeta tivesse uma voz? Será que ele nos perdoaria por nossos atos? Fico pensando e a narrativa do Franco me colocou nessa dúvida. Porque mesmo a argumentação da Leena fazendo total sentido, nós sempre buscamos na justificativa do "somos apenas humanos" todos os erros que cometemos. Chega um momento em que essa desculpa não cola mais. E é a isso que o planeta se refere.
Outro tema bom é o do que significa o lar: aonde você nasceu ou onde você foi criado. Nature x nurture. As pessoas que nasceram em Starllite são terráqueos ou são pessoas de Starllite? E o que define a humanidade? E se surgisse outra raça senciente na Terra, poderíamos chamar essas pessoas de humanos? Mesmo que eles tivessem outra conformação? Leena se faz essa pergunta ao chegar na Terra porque ela acaba percebendo o quanto ela via as coisas diferentes do lugar de onde ela veio. Ao mesmo tempo havia uma sensação de familiaridade que se espalhava em sua memória inconsciente. Algo que perpassava por seu instinto.
Starrlite é um romance de ficção científica bem construído. Escondido por trás de uma narrativa leve, existem temáticas profundas que nos levam a questões filosofais. Um livro que ecoa ao contexto atual em que questionamos o papel nocivo do ser humano em relação ao meio ambiente e ao planeta Terra.