A placidez da existência de Viriato é abruptamente interrompida quando a avó é levada de urgência para o hospital, onde ele conhece Carolina. Imperscrutável, sensual e perigosa, Carolina é uma mulher que esconde segredos e que se instala na casa dele desencadeando acontecimentos imprevisíveis. Mariana, a sua mãe, e Alberto, o seu patrão, unem-se, sem que ele saiba, para eliminar aquela ameaça. Em rutura com a tranquilidade da sua vida anterior, Viriato visita a Casa Cinzenta, onde moram pessoas que são tratadas como coisas por um «empresário» cruel e violento. Apesar dos avisos de Alberto para Viriato se afastar antes que se dê alguma tragédia, mulheres como Luba, a romena, e Asali, a nigeriana, fascinam-no e inquietam-no - mas é o encontro com Alma que o fará mudar de rumo, levando-o a descobrir uma outra forma de amar e forçando-o a refletir sobre os seus limites, sobre o que é a liberdade de escolha e sobre os acasos a que alguns preferem chamar destino.
‘A Vida Oculta das Coisas’ é precisamente um romance que parece leve mas que é impossível passar por nós de forma indiferente por todas as coisas (e tão variadas!) que nos fala e que por vezes nos passam mesmo despercebidas.
São várias personagens, com diferentes, interessantes e difíceis histórias de vida que acabam por se interligar numa história que nos fala de solidão, traição, liberdade, morte, independência, amor, prostituição (e até tráfico de mulheres), o acaso e o destino. Mas sobretudo da vida, da vida de cada uma destas personagens.
Já pensaram se a vossa história de vida teria sido diferente se não se tivessem cruzado com determinada pessoa?
Existem livros que são autênticas surpresas.. pois bem, este é um deles... se não tivesse ouvido falar dele através do bookgang, provavelmente passaria despercebido e que falha seria!!!... este livro é tão bom... a história é por vezes pesada, crua, ficamos a pensar muito nas personagens, nas situações , sinto que ainda estou a digerir tudo o que li, apesar do tema já ser algo bastante falado e discutido .. gostei da maneira como foi abordado pela autora.. adorei, muito bom mesmo.. 👌👌
Comecei o ano na companhia da Alma, da Luba e da Asali e que três grandes histórias de vida!
A história centra-se num conjunto de personagens, a princípio completamente díspares, mas que por obra do destino as suas vidas acabam por se cruzar e ficamos a conhecer os acasos da vida – ou do destino – sobretudo de três mulheres. É um livro que explora o tráfico de mulheres para a prostituição de uma forma dura mas numa escrita fluída e leve e que nos mostra a vida oculta destas mulheres que são tratadas como coisas. Ao longo desta narrativa é impossível ficar indiferente às vivências que estas personagens partilham connosco. Há todo um registo de coragem, de amizade, de amor mas também de esperança que “ajuda a suavizar as arestas do romance” como diz a Claudia.
Deixa-nos a refletir sobre o facto de existerem pessoas que são tratadas como coisas e “torna-se legítima a interrogação sobre o porquê de serem aquelas as pessoas que cabem em cada vida”, isto é, a nossa história teria sido diferente se (não) nos tivessemos cruzado com determinada pessoa? Há quem diga que temos sempre uma escolha, há quem diga que é o destino, há quem se lembre da sorte ou do azar, a verdade é que “a coragem pressupõe reflexão e escolhas, mudanças profundas, pessoas que ficam para trás, cientes daquilo que vamos perder e desconhecendo ainda tudo o que podemos ganhar, se é que podemos.”
A escritora Cláudia Cruz Santos, neste seu livro, o segundo romance que escreveu e o primeiro que li da mesma, transporta-nos para uma realidade muito dura dos tempos actuais e que os responsáveis dos governos dos países fazem ainda pouco para a combater: o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual com origem em países pobres e quase sem lei, onde a corrupção e o desprezo pela proteção de meninas e de mulheres é uma constante, como na América Latina, África e leste da Europa, com destino a muitos países da Europa Ocidental, entre os quais Portugal.
Como a autora refere no seu livro, este negócio ilícito gera mais lucros e faz os traficantes correrem menos riscos do que o tráfico de droga.
Luba, uma adolescente raptada na Roménia quando ia a caminho da escola, Alma, uma jovem brasileira oriunda de uma favela da cidade de Maceió, que é ludibriada com falsas promessas de amor, e Asali, uma jovem nigeriana abandonada pelo marido com uma filha pequena doente e residente numa favela flutuante na cidade de Lagos, a quem uma angariadora promete que poderia ganhar muito dinheiro na prostituição ou no alterne na Europa e regressar depressa para junto da sua família, acabam por se ver envolvidas numa rede internacional de tráfico de mulheres, a qual usa de violência física, de sucessivas e múltiplas violações, de drogas e de aprisionamento, a fim de lhes quebrar a resistência física e psicológica e de as forçar a aceitar o seu destino.
Acabam por ter como destino final Portugal e uma casa cinzenta com grades em todas as janelas e muros inacessíveis, dirigida por Renato, um português proprietário de vários estabelecimentos de alterne, auxiliado por Carmen, uma ex-prostituta colombiana, onde são obrigadas a executar danças no varão, a fazerem companhia a clientes e a incentivá-los ao consumo de álcool, bem como a prostituírem-se. Tratam-se de verdadeiras prisioneiras guardadas por homens e cães ferozes durante vinte e quatro horas por dia, impossibilitadas de algum dia serem libertadas, pois as suas dívidas, segundo os captores, crescem diariamente. De facto, além de lhes cobrarem arbitrariamente alojamento e comida, aplicam-lhe "multas", até pelas faltas cometidas pelos próprios clientes.
Mas, apesar de muito diferentes, as três mulheres tornam-se amigas e continuam com a determinação de fugir. Luba tornou-se toxicodependente para tentar conseguir suportar o sofrimento que lhe é infligido, Asali agarra-se à esperança de regressar à Nigéria e recuperar a sua filha, e Alma, não obstante ter contraído o vírus da SIDA, é a mais meiga, alegre e esperançosa de todas.
Alma conhece um jovem cliente, Viriato, um engenheiro informático, conduzido à casa cinzenta pelo seu patrão, o qual pensa que o pode ajudar assim a ultrapassar um desgosto de amor, e que as tenta ajudar na sua libertação.
Esta história de ficção é muito bem contada pela autora Cláudia Cruz Santos, que escreve de forma fluída, com muita sensibilidade e que nos consegue transportar para o universo das personagens.
Enquanto lia o livro, Luba, Alma e Asali pareciam-me personagens reais, os acontecimentos sucediam-se com naturalidade e nada se assemelhava a uma construção forçada, o que apreciei bastante.
Há um sem número de Lubas, Almas e Asalis por este mundo fora e a escrita destas três histórias de vida podem ajudar a acordar as mentes adormecidas.
Não posso terminar o meu comentário sem referir duas situações que também me emocionaram: a forma como muitas famílias e alguns profissionais de saúde tratam os idosos nos hospitais, abandonando-os, desrespeitando-os e relegando-os para segundo plano; e, por último, o envelhecimento não tem necessariamente que nos conduzir à solidão em lares, pois podemos juntar-nos sempre com amigos/as em pequenas comunidades, como o fizeram Mariana, a mãe de Viriato, e quatro das suas amigas, partilhando tarefas, histórias e desfrutando da companhia umas das outras, ao mesmo tempo que mantinham a sua intimidade.
Este livro aborda um tema impactante: o tráfico de mulheres. No entanto, a forma como o tema é introduzido na história pareceu-me demasiado forçado, a forma como é introduzida esta questão pareceu-me pouco credível. Primeiro conhecemos Viriato e a sua família: a sua ligação à avó que está no hospital após uma queda, a mãe que vive a sua reforma numa espécie de “comunidade” com as amigas. Nada aponta para o que virá a seguir. Numa ida ao hospital, Viriato conhece Carolina, uma rapariga enigmática que se aproxima dele – achei demasiado forçada a forma como aconteceu. Até agora, nada aponta para o verdadeiro tema do livro. Aliás, até ao fim não percebi a relevância desta personagem para a história… Num dia em que Viriato vai com o patrão a uma casa de alterne (uma vez mais, tudo demasiado forçado, pareceu-me…), conhecemos as três personagens que fazem todo o sentido na história: Luba, Asali e Alma, mulheres provenientes da Roménia, da Nigéria e do Brasil, que são obrigadas a prostituir-se. A história destas 3 mulheres deveria ser o ponto principal do livro: Luba, uma adolescente romena que foi raptada; Alma, uma brasileira que é enganada e trazida para a Europa para casar; Asali, uma mãe nigeriana que se prostitui para poder garantir a sobrevivência da filha. Estas mulheres acabam presas numa teia de tráfico de mulheres e de prostituição, são vítimas de violência, de abusos, vivem aprisionadas e são forçadas a aceitar que é este o seu destino. Apesar de a história destas 3 mulheres ser contada e explorada, pareceu-me que são estas 3 mulheres, as “coisas” do título e, por isso, mereciam mais destaque. A forma como a história destas mulheres se cruza com a de Viriato pareceu-me mal construída. Gostei da forma como as três mulheres se unem, na ligação especial que estabelecem… há sempre um pouco de coragem e de esperança, apesar das condições em que vivem. É um livro que aborda um tema forte, sem dúvida, mas apesar de ter gostado de algumas partes, achei que faltou um fio condutor ao longo de toda a narrativa.
“Num dia que não se escolhe e que nasce aparentemente igual a todos os outros, dá-se a revolução da chegada do outro imprevisível, que até então andava pelo mundo perdido na multidão. Esse outro desconhecido que surge muda tudo, tornando-se vital ou letal, fonte de alegria ou de desgraça, flor ou espinho, sorriso ou lágrima. Ou, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Ou tudo de cada vez. Depende. E nunca se sabe.”
Um livro que aborda o tráfico de mulheres, a realidade cruel de mulheres exploradas sexualmente vivendo por base do constante medo e violência dos seus captores. Alma, Luba e Asil são o rosto da desumanidade e da revolta humana.
Há muitas histórias que me comovem, que entram na minha vida como se fossem dela, que se guardam no peito como promessa de um reencontro, mas que me ficam com uma sensação agridoce, como se fossem mal contadas.
Há outras que se esquecem rápido, que têm gosto de muito pouco, que são memórias infrutíferas, mas que têm palavras bonitas e são poesia temporária.
E há estas, raras na sua beleza e inmediatez, especiais porque já não somos os mesmos depois delas, que na narrativa e na forma são o livro que sonhamos contar.
Que viagem. E, em antecipação, que saudades do Viriato, e da crença para lá do mau que me fica da força de Alma, Luba e Asali. Quando for grande quero ser como Mariana.
Obrigada à doce Helena do @hmbookgang por me ter feito caminhar por estas encruzilhadas. Sou muito mais rica agora. ♡
Normalmente não leio este tipo de livros porque me custa ler sobre alguns temas em que se inclui o tráfico de mulheres. Li este livro porque é um dos livros do mês do clube do livro da autora Helena Magalhães, o Book Gang. Fui surpreendida pela positiva e tenho de dizer que gostei bastante e que a forma como está escrito ajuda muito. É uma leitura fluída e por vezes divertida, apesar do tema que aborda. Vale a pena ler e apoiar os autores portugueses com pouco reconhecimento que merecem que o seu talento seja dado a conhecer!
"-Há uma grande diferença entre a audácia e a coragem. Quando somos jovens é-nos fácil sermos audazes, porque a audácia é instantânea, irreflectida, é dela que precisamos para mergulharmos numa piscina à noite sem sabermos o que está no fundo daquela água tão escura, para saltarmos pela primeira vez de um avião com pára-quedas, para passarmos umas férias sozinhos num país longínquo. Mas a coragem é outra coisa, é coisa de gente crescida. A coragem é necessária para darmos um rumo diferente à nossa vida, já cientes daquilo que vamos perder e desconhecendo ainda tudo o que podemos ganhar, se é que podemos. A coragem pressupõe reflexão e escolhas, mudanças profundas, pessoas que ficam para trás."
O sofrimento alheio torna-se uma obsessão e um entretenimento perverso, não há notícia de catástrofe que nos passe despercebida e que não nos desespere.
Marquei esta frase porque senti que este foi o único grande problema deste livro, que o impediu, a meu ver, de ter atingido o sublime, o maravilhoso palco dos livros fascinantes, livros para uma vida toda.
Encontro muitas vezes este dilema entre a escrita contemporanea - ou os livros são muito vazios, sem profundidade, ou são o oposto, tão sofridos e tão penosos que se aproximam dum entretenimento perverso, como a própria escritora explica na frase em cima.
Porque de resto, esta historia tem tudo para cativar - personagens profundas, enredo original, escrita fluída e capaz, bastante capaz.
Deixo então aqui uma nota, não que alguém a vá ler, mas gostava de ver as editoras a adoptar os "trigger warnings" na contracapa, ou dentro nas notas de edição. Cada vez se torna mais importante termos a escolha do que vamos ler (mas sem spoilers!) e livros deste género precisam disto urgentemente.
E não podia esquecer, a capa esta linda de morrer. Lindíssima! ISSIMA!
Esta história começa com um simples telefonema; um acidente que se revela mais grave do que parecia; e um encontro do acaso que vai mudar muitas vidas. E, por consequência, muitas coisas na vida de todos.
A escrita da autora leva-nos pela vida das personagens com a dureza e objectividade necessárias. Não há floreados nem panos quentes: a vida como ela é cada página neste romance.
A capa é incrível e cada página que lia mais sentido me fazia que aquelas três mulheres - juntas - dessem rosto a toda a história.
Lê-se rápido, mas a história é tudo menos levezinha - doença, prostituição, etc... A escritora tem a capacidade de aprofundar temas e personagens sem perder a atenção do leitor. E de, no meio de tanto pormenor pesado, manter viva uma réstia de esperança e otimismo que nos acompanha mesmo depois da história acabar.
Um livro com uma escrita leve apesar de pesado e duro. Os temas abordados são muito importantes e confesso que me arrepiei com várias partes e situações. Uma história incrível de luta, amizade e superação. Apesar de ter gostado muito de ler este livro, tenho que dizer que esperava mais dele.
3,75 🌟 foi definitivamente um livro diferente dos que eu já li, eu não tinha expectativas mas confesso que andei muitos meses a enamorar este livro, e voltando da universidade decidi requisitar finalmente na biblioteca, e que boa escolha! apesar de não ter sido 5 estrelas foi uma leitura bastante leve, mas que prende uma pessoa! a história foi impressionante e os temas abordados são muito importantes e requerem toda a atenção nos dias de hoje, pelo que, no final de contas, ler algo diferente até me enriqueceu de certa forma e às leituras deste ano! recomendo!!