Já imaginou viver num país onde tem de possuir uma licença do Estado para usar um isqueiro? Como será a vida num país onde uma mulher, para viajar, precisa de autorização escrita do marido e as enfermeiras estão proibidas de casar? Haverá um país onde meçam o comprimento das saias das raparigas à entrada da escola, para que os joelhos não apareçam? Imagina-se a viver numa terra onde não pode ler o que lhe apetece, ouvir a música que quer?
Já nos esquecemos, mas ainda há poucos anos tudo isto era proibido em Portugal.
Tudo isto e muito mais, como dar um beijo em público.
"E o clima de proibição sistemática, abarcando tudo, mas tudo, dos mais inofensivos comportamentos aos mais subversivos panfletos, levou a que, com o tempo, nem fosse necessário produzir uma lei para proibir (...). Ao "é proibido" juntaram-seos heterónimos "não se faz", "é pecado" e "parece mal" que ainda subsistem nos nossos dias, revogadas as leis escritas. "
Um livro despretensioso com muitas notas de humor. Uma óptima sugestão passados 50 anos do fim da ditadura !
Não me parece bem organizado, nem sempre surge indicação específica de quando costume tal era proibido. Se se fala da república não-democrática portuguesa (1926-1974), incorre-se no erro de julgar que tudo o que surge mencionado no livro era proibido ao longo desses 48 anos. Na realidade, até os costumes têm uma história ou um background que não surge do nada.
Resumindo: queria o livro para pesquisa, para fundamentar obras que venha a desenvolver sobre a época. Não achei preciso a nível histórico. Talvez funcione como livrinho de curiosidades.
Sem grande investigação, este livrinho reúne histórias e memórias que são conhecidas de todos os que nasceram e entraram para a escola durante o Estado Novo. Vale pela curiosidade. Exemplo da ligeireza a profusa ilustração que sendo da época pouco tem a ver com a matéria das proibições.
Li este livro num ápice. Está muito bem escrito e não é nada maçudo! Gostei imenso ! Deixo aqui algumas das proibições explicadas nesta obra maravilhosa de António Costa Santos e que se verificaram durante o Estado Novo. 1. Era proibido ler certos livros. " ... Em 1965, a Europa-América viu devassadas as suas instalações e apreendidos mais de 70 mil livros, entre os quais a História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges, mas também o ABC da Culinária de Etelvina Lopes de Almeida." (pág. 25) " Em Campo de Ourique, a Livraria Ler, conhecida da polícia por passar livros proibidos por baixo do balcão, era vitima de rusgas frequentes. ... Nunca descobriram as estantes com fundo falso que existiam no piso inferior da livraria onde eram guardados, ... os livros que o experiente livreiro sabiam estarem na mira da ditadura. Expunham-se dois cá em cima, para a PIDE roubar, e guardavam-se os outros para venda clandestina." (pág. 25) 2. Era proibido editar e vender certos livros. "Até 1974 , ...os livros... eram editados , distribuídos e só depois lidos por censores ... Obrigava os editores a gastarem dinheiro em vão e tinha efeitos preventivos sobre iniciativas futuras." (pág. 31) 3. Era proibido ir de mini saia para o liceu. " Em muitos liceus femininos havia uma contínua, na portaria a zelar pelo bom trajar das adolescentes... ( pág. 56) 4. Era proibido beber coca-cola. " Salazar proibiu a entrada da Coca-cola em Portugal. A primeira tentativa ...deu-se me 1927, um ano após a queda da I República. O slogan de lançamento foi elaborado por Fernando Pessoa ...e dizia "Primeiro estranha-se , depois entranha-se". Mas a associação do refrigerante à cocaína impediu a entrada no mercado..." " De 1933 em diante, a proibição manteve-se, segundo tudo indica, por tacanhez do ditador, que temia a invasão do « american way of life» com gás, e uma deprimente concorrência ao vinho nacional. Uma lenda urbana atribui esta obstinada proibição ao facto de Salazar tratar o seu arqui-inimigo Humberto Delgado por «general Coca-Cola»...tal general,tal bebida - estão os dois proibidos..." (pág. 67) 5. Era proibido uma mulher casada vigiar para o estrangeiro. " ...estava sujeita à autorização do marido, ... " (pág. 73)
"A regra básica era: quanto menos pele à mostra, melhor. Por isso, as jovens, mesmo no Verão, estavam igualmente proibidas de assistir às aulas com os braços à mostra - não eram permitidas batas de manga curta -, podendo arregaçá-las até ao cotovelo nas aulas de laboratório de Química."