Versão portuguesa: “Os Direitos das Mulheres e Outros Textos”, Edições Afrontamento
Lego o meu coração à pátria, a minha probidade aos homens (bem precisam!). A minha alma às mulheres, e não é uma doação indiferente esta que lhes deixo (…), o meu desinteresse aos ambiciosos, a minha filosofia aos perseguidos, o meu espírito aos fanáticos, a minha religião aos ateus, a minha alegria franca às mulheres idosas (…)
Olympe de Gouges, que era acima de tudo uma mulher de causas, morreu na guilhotina com apenas 45 anos por defender os seus ideais, por usar a cabeça para mais do que sustentáculo para a peruca e pela sua frontalidade, cumprindo o que parecia uma profecia ao declarar “se uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso, também deve ter direito de subir à tribuna.” Impossibilitada de ter um papel activo na política do seu país devido ao seu género, De Gouges usou como tribuna os vários panfletos que foi publicando entre 1788 e 1793. Desta breve obra constam cinco deles, sendo o mais famoso “Os Direitos da Mulher”, onde inclui uma “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã” com 17 artigos, exactamente os mesmos que os da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão” de 1789, e um “Contrato Social” ao estilo de Rousseau que, diga-se de passagem, era um grandessíssimo misógino.
O homem escravo multiplicou as suas forças, e precisou de recorrer às tuas para quebrar os seus grilhões. Uma vez livre, tornou-se injusto com a sua companheira. Ó mulheres! Mulheres, quando deixareis de estar cegas? Que vantagens colhestes na revolução? Um desprezo mais marcado, um desdém mais profundo.
Além de feminista, Olympe de Gouges, que ficou viúva com um filho com apenas 18 anos, foi dramaturga, abolicionista, activista política e opositora à pena de morte, mas mais do que mulher do seu tempo, creio que era mulher da sua classe, o que ficou bem patente em “Projecto útil e salutar”, onde se apieda do “povo desgraçado”, mas revela o seu elitismo em passagens como esta:
O povo em geral é injusto, ingrato e acaba por tornar-se rebelde. O povo deve ser socorrido em tempos de calamidade, mas, se noutros momentos lhe damos demasiado, expomo-lo à preguiça, retiramos-lhe todos os seus recursos. As boas acções são para ele dons funestos.
E esta, quando sugere a criação de um hospital à parte, para as “mulheres honestas” não terem de se misturar com as indigentes:
São levadas para o Hôtel-Dieu, onde uma mulher de educação superior dá por si entre mendigas, raparigas de maus costumes, ou pessoas do povo de todo o género; basta o nome de Hôtel-Dieu para as assustar, e, quando os seus olhos se fixam nesse triste panorama, antes imploram pela morte do que pelo socorro dessa Casa.
Dos três valores apregoados pela Revolução Francesa sempre suspeitei que a igualdade fosse o elo mais fraco.