Sartre, escritor, dramaturgo, professor e filósofo (1905-1980) pai da corrente filosófica existencialista, defende que o homem primeiro existe e só depois se define, todo o seu ser é o resultado das suas ações.
Quando falamos de filosofia pensamos logo em algo denso, reflexões elaboradas e carregadas de simbolismos difíceis de decifrar, contudo, Sartre tem a capacidade de nos fazer refletir sobre as questões filosóficas da natureza do ser humano, apenas contando uma pequena e singela história.
A história que Sartre nos conta
Pierre e Éve são ambos assassinados.
Pierre, cabecilha de um grupo de conspiradores, é assassinado por um camarada seu, na véspera do grupo executar uma revolução, Lucien trai a organização colaborando com o regime déspota. Pierre simboliza a luta do homem pela igualdade e fraternidade.
Éve é uma mulher muito rica que é envenenada pelo marido que casou com ela apenas por dinheiro e poder. André é um homem ambicioso e influente do regime que desenvolve uma estratégia para eliminar os conspiradores. Éve, mulher frágil, simboliza a empatia que os humanos sentem em relação às vitimas do Homem ambicioso, egoísta e maléfico.
Após a morte, Pierre e Éve encontram-se no purgatório e descobrem o porquê de terem sido assassinados e por quem. Apaixonam-se e, de acordo com a norma 140º do purgatório, duas pessoas que foram feitas uma para a outra e nunca se encontraram em vida têm a oportunidade de voltar a viver para se encontrarem. De acordo com a norma, têm 24 horas para provar que conseguem amar, se obtiverem sucesso retornam à vida humana.
Ao retornarem à vida, Pierre procura os seus camaradas para os informar que existe um traidor entre o grupo e que os homens do regime se preparam para os aniquilar. Éve volta a casa para se vingar de André.
Surpreende este livro pela envolvência e a fluidez da escrita, onde todos os acontecimentos se cingem ao essencial para relatar uma banal história, mas carregada de sentidos (simbólicos, emocionais, pessoais e universais) que surgem através da ação dos acontecimentos e não através da introspeção.
Surpreende a intensidade do enredo que, por um lado, a narrativa dividida em pequenas partes, vicia o leitor que quer saber o que vem a seguir, fica completamente embebido na história, mas por outro, pelo simbolismo que representa cada uma dessas partes. É dada a oportunidade as duas pessoas de viverem e se amarem, mas ao invés disso elas voltam à terra e perpetuam os mesmos erros do passado, à vingança, à guerra e à morte.
Os dados estão lançados simboliza a oportunidade que o homem tem de se reorientar num percurso cujos valores assentem no amor, na fraternidade e no companheirismo, mas na realidade tem resultado em fracasso ao longo dos milénios, guerra após guerra, traições após traições, o homem continua a preferir morrer em vez de viver.