Da perversão da linguagem à construção de ruínas
"Brasil, construtor de ruínas". Acho que este deveria ser um livro de leitura obrigatória para todos os brasileiros. Eliane Brum dá uma bela aula de história e escreve de maneira fluida e gostosa de se ler. Este é um livro que nos dá um panorama do que é o Brasil contemporâneo, desde o início do governo Lula até outubro de 2019. A jornalista tece críticas muito duras ao governo do PT, que perdeu a oportunidade de fazer uma mudança real em nosso país e de como isso ajudou na ascensão do bolsonarismo. Ela ainda explica de maneira muito clara como se dá a formação de governos totalitários e de como o bolsonarismo consegue se manter, ainda que o atual presidente mequetrefe seja um desastre ambulante.
Basicamente, o que o atual governo faz, é se aproveitar da pós-verdade — que tem a seguinte definição: "fatos objetivos têm menos influência em moldar o debate público do que apelos à emoção ou a crenças pessoais" — ou do que a Eliane mesmo chama de "autoverdade": "Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo". Este governo ainda se aproveita da perversão da linguagem — temos que nos lembrar da educação precária e do crescimento das igrejas neopentecostais em todo o país, responsáveis por fornecer uma educação maniqueísta aos seus fiéis. Para Eliane, "se não existe uma base comum de fatos a partir da qual se pode conversar, a linguagem torna-se uma impossibilidade. A linguagem não se realiza". E é por isso então que se consegue manipular tantas pessoas. Uma educação precária, aliada com uma "autoverdade" e mais uma torrente de fake news que chegam a milhares de brasileiros diariamente é a receita perfeita para conseguir se instaurar um regime autoritário.
Existindo então uma população pouco educada e que enxerga tudo com uma visão "oito ou oitenta — por isso que Bolsonaro sempre acaba chamando todos aqueles que são contra o seu governo de "comunistas" — dificulta e muito o processo de um debate real. E aqui mais uma vez cito Eliane Brum:
"Não é uma questão de opinião a laranja ser laranja — e não cadeira. Não é liberdade de expressão defender que laranja é cadeira. Também não há fatos alternativos sobre laranja ser laranja, e não cadeira. Há fatos. No Brasil dominado pelo bolsonarismo, porém, o truque de tratar laranjas como cadeiras para interditar o debate é amplamente utilizado".
Enquanto Bolsonaro e o seu clã tecem cortinas de fumaça atrás de cortinas de fumaça, nos distraindo daquilo que é realmente essencial, indígenas estão perdendo as suas terras, a Amazônia e o Cerrado estão sendo queimados, os mais pobres estão se tornando cada vez mais pobres, os negros nas periferias estão sendo assassinados aos montes pelo Estado, e as minorias LGBTQIA+ estão sendo cada vez mais e mais atacadas, entre tantas outras coisas. Dia após dia, os nossos direitos estão sendo tolhidos e acabamos nem percebendo isso. Aliás, até consideramos que certos políticos seriam opções muito melhores do que Bolsonaro — tendo em vista que o atual presidente é tão extremo, que qualquer outra pessoa parece ser moderada, ainda que possa ter ideias tão perversas quanto as que Bolsonaro defende.
Diante disso, o que podemos fazer? Eliane conclui o livro dizendo que o nosso maior desafio é de "como devolver a verdade à verdade" e de que "não faremos isso sem voltar a tecer tanto o comum quanto o sentido de comunidade". Seria esse comum que nos permitiria que "ao conversarmos, possamos partir do consenso de que cadeira é cadeira e laranja é laranja e que nenhum de nós vai tentar sentar na laranja e comer a cadeira". E, a partir desse comum, é necessário que lutemos para conseguir o que ainda resta de democracia neste país.